21/07/2020

Três escritoras em ação: Virginia Woolf, Clarice Lispector e Alice Munro

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21/07/2020 - Por: Maria das Graças G. Villa da Silva (UNESP - Araraquara)

Três escritoras destacam-se pelo talento e por obras criativas e inovadoras produzidas entre os séculos XX e XXI, períodos de grandes transformações. Virginia Woolf  domina a cena literária inglesa até meados do século XX, quando falece. Suas obras, traduzidas em muitos países, continuam a merecer estudos críticos e revelam a genialidade da romancista, da contista, da ensaísta, da crítica literária e ativista feminina. A figura do “anjo do lar” é uma de suas criações contra o domínio patriarcal para expor de forma crítica a imagem das mulheres de seu tempo que só  podiam ser esposas e mães dedicadas. Dependiam dos pais ou dos maridos, não podiam frequentar universidades e eram excluídas da política. Assim, restavam às solteiras serem enfermeiras, prostitutas, preceptoras ou, então, dedicarem-se à literatura. Junto ao esposo, o crítico literário, Leonard Woolf, cria a Hogarth Press, onde publica seus primeiros livros e divulga outros escritores, tais como, Katherine Mansfield e T.S. Eliot. Publica, também, as obras completas de Freud que despertaram seu interesse pelo inconsciente. A teoria da relatividade, outra novidade da época, leva-a a refletir sobre a dependência da posição do sujeito em relação aos objetos.

Em suas obras, realça o papel da memória conjugada ao tempo para trabalhar o jogo entre o passado e o presente. Cria o termo “momentos de ser” para expor o tempo interior, não mensurável, e o indizível compondo traumas sofridos e a busca da identidade, obsessão constante de seus personagens. Tenta, assim, capturar o silêncio que permeia o ato de escritura. Nesse contexto, marcado por grandes transformações políticas, culturais, sociais e científicas, demonstra oposição aos valores repressores da sociedade vitoriana ressaltando sua capacidade crítica em relação à vida em sociedade, à aceleração do tempo, à guerra e à morte, que sempre a assombraram, à tradição realista do século XIX e à busca por uma nova forma de escrever. O trabalho singular com as palavras caracteriza a sua narrativa como prosa poética lançando-a como uma das grandes escritoras do Modernismo inglês da primeira metade do século XX. Suas principais obras, estudadas incessantemente, são: contos – A Marca na Parede, Kew Gardens, Casa Assombrada, Segunda ou Terça, A viúva e o papagaio: uma história verídica, Momentos de ser: “pinos de telha não têm pontas”;  e os romances:  A Viagem, Mrs Dalloway, Viagem ao Farol, Orlando, As Ondas e Entre os Atos. 

Em período não menos conflagrado, Clarice Lispector lança, aos 24 anos, seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, em 1944, com epígrafe de James Joyce. O livro nasce desafiando a forma de fazer ficção e renova as possibilidades estéticas da escrita literária para, mais tarde, revelá-la, reconhecidamente, como uma das grandes escritoras brasileiras. Sua obra, amplamente traduzida, tem sido objeto de inúmeros estudos literários, no Brasil, Europa e Estados Unidos,  e tem sido analisada em artigos de jornais, revistas literárias, teses, dissertações e ensaios publicados em livros compondo uma fortuna crítica ampla e relevante. Casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, parte para longa temporada, vivendo na Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos e retorna, definitivamente, somente em 1959. Tanto no Brasil quanto no exterior, vive em meio a fatos históricos do cenário político envolvendo o período da Segunda Guerra Mundial e revoluções. Essa experiência lhe permite testemunhar as transformações históricas, políticas, culturais e estéticas do período. Foi também jornalista e cronista. Para tanto, entrevista personalidades e políticos, mantém colunas nos jornais e textos para revistas femininas com uso de pseudônimo. De origem ucraniana judaica, mora em Maceió, passa grande parte da infância em Recife e a adolescência no Rio de Janeiro, onde fixa residência ao retornar ao país e onde falece em dezembro de 1977. A celebração dos cem anos da escritora, agora em 2020, está sendo organizada com eventos programados em todo país.

Embora o cenário de suas obras seja sempre o Brasil, muitos de seus romances foram escritos no estrangeiro. O segundo romance, O Lustre, foi terminado em Nápoles. O terceiro, A Cidade Sitiada, foi escrito em Berna, na Suíça. Maçã no Escuro, em Washington, nos anos de 1953 e 1954. E, grande parte dos contos de Laços de Família, em Londres. A arte de Clarice Lispector marca-se pelo trabalho criativo com a palavra, pelo intimismo, por sua desconfiança em relação a um eu estável e pela desestabilização psicológica de seus personagens que, algumas vezes, ganha conformação grotesca. A memória é o recurso utilizado para apanhar o instante já clariceano e destacar a busca da identidade de seus personagens. Sua tentativa de apreensão do indizível, do it, permite-lhe destacar o silêncio nos vazios entre uma palavra e outra, nas reticências e ausência de capítulos. Tais características contribuem para destacá-la como a grande escritora do Modernismo brasileiro. Suas obras mais importantes com renovadas publicações são: Perto do Coração Selvagem, A Maçã no Escuro, A Paixão Segundo G. H., Água Viva, A Hora da Estrela. Seus livros de contos também merecem destaque: Laços de Família, Felicidade Clandestina e O Ovo e a Galinha, que continuam a exercer o fascínio de Clarice Lispector sobre os leitores.

A canadense Alice Munro, prêmio Nobel de Literatura de 2012, nasce em Wingham, Condado de Huron, Ontário, em julho de 1931. Destaca-se por focalizar as restrições de gênero (masculino e feminino) impostas pela sociedade e, também, por enfatizar as conexões dos pequenos detalhes apanhados no cotidiano. É reconhecidamente a escritora que transforma o conto transgredindo as regras desse gênero apresentando-o como composição exemplar de narrativas curtas que, a partir dos anos 1960, ganham relevância no Canadá. Nesse período, muitas ideias estavam em ebulição. As minorias étnicas rejeitavam tudo o que as excluía do poder. As mulheres participavam de protestos e opunham-se às atitudes sociopolíticas excludentes. Tudo isso tendo por fundamento a questão da língua como um dos meios possíveis de redefinição dos parâmetros de poder. Sua primeira coleção, Dance of the Happy Shades (1968), apresenta textos mais longos, e suas criações, em geral, abarcam outros gêneros e estratégias narrativas inovadoras. Alusões, intertextualidades e o emprego de expressões que harmonizam conceitos opostos (os chamados oximoros) enriquecem o relato. Ao separarem partes da narrativa, as reticências e os espaços em branco engendram o silêncio e as sutis alterações obrigando o leitor a participar e dar sentido às articulações, forma sofisticada de expor o trabalho da memória. O foco, que geralmente recai sobre a vida de mulheres sufocadas pelo ambiente provinciano em que as difíceis relações familiares são expostas, ressalta a convivência entre homens, mulheres, mães, filhas e pais. Regularmente, as protagonistas são contadoras de histórias e recorrendo à memória buscam o significado do existir no cotidiano miúdo, tal como fazem as protagonistas de Virginia Woolf e Clarice Lispector. A movimentação da memória entre passado e presente, na retrospecção da trajetória entre infância e adolescência, deixa as protagonistas livres para a visita ao passado e a constante mudança de identidade pode ser registrada.

O cenário, com frequência, é o da vida rural de Wingham, em Ontário (Canadá), recriada, em algumas das narrativas, por meio de cidades ficcionais, como Jubilee e Hanratty. Assim, a cada conto, Alice Munro apresenta novas possibilidades para esse gênero tão flexível que, conforme sugerem os estudos antropológicos, nasce das narrativas curtas e episódicas, antecessoras das formas épicas fundadoras do romance. Poe aperfeiçoa a forma, mas Munro inova o gênero ao trabalhar com as tradições orais por meio de lendas, fatos históricos relativos à Escócia, de onde vem a sua família, e de mexericos que constituem o que ela denomina de open secrets, ou seja, segredos descerrados, abertos, expostos, escancarados. Paradoxalmente, são segredos conhecidos de todos, jamais revelados e que atuam como feridas abertas corroborando a inscrição do indizível interposto entre o que é conhecido e desconhecido. Ao empregar as características transitórias e consistentes dos processos de identidade; ao manipular o tempo de forma variada; ao usar a memória para a volta ao passado das suas protagonistas, colocadas em cenário simbolicamente elaborado, propiciando, dessa forma, a manifestação de múltiplas epifanias que concorrem para interpretações variadas, Alice Munro destaca-se como mestre do conto contemporâneo. À semelhança de Virginia Woolf e Clarice Lispector, sua obra tem sido objeto de inúmeros estudos literários, com destaque no Canadá, mas também na Europa, Estados Unidos e Brasil. Tem recebido análise em artigos de jornais, revistas literárias, teses, dissertações e ensaios publicados em livros compondo, notadamente, uma fortuna crítica significativa. Embora suas obras não sejam tão conhecidas do público brasileiro, como as  de Virginia Woolf e Clarice Lispector, seus livros de contos estão em grande parte traduzidos para o português. Eles são: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento; A vista de Castle Rock; Felicidade Demais; O amor de uma boa mulher; Vida Querida; Fugitiva; Amiga de Juventude; Vidas de Raparigas e Mulheres; Falsos Segredos; O Progresso do Amor; As luas de Júpiter.

Ao exporem o mundo interior e misterioso, amalgamado à existência absurda e concreta, utilizando a fluidez da palavra para explorar os deslizes de sentido,  capturar o indizível e o silêncio, as três escritoras rompem barreiras de forma radicalmente transformadora e se estabelecem como grandes autoras em seus países. Seu talento e obras estão presentes em outros continentes reunindo-se ao fluxo das grandes ficções literárias, dando ao leitor o prazer imenso de fazer conexões e imaginar as entrelinhas. Para saber mais sobre as escritoras, leia também Momentos de ser em Virginia Woolf, Clarice Lispector e Alice Munro, de Maria das Graças G. Villa da Silva (Editora Appris, 2020).


 

Maria das Graças G. Villa da Silva: Possui graduação em Letras pela Universidade de Mogi das Cruzes (1971), mestrado em Lingüística - Tradução - pela Universidade de São Paulo (1992) e doutorado em Letras na área de Literatura Comparada e Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (1998). Atualmente é professora junto ao Programa de de Pós-Graduação em Estudos Literários da UNESP ? Campus de Araraquara, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, onde atua nas áreas de Literaturas Estrangeiras Modernas,particularmente com as Literaturas Inglesa, Canadense e Brasileira, Teoria Literária e Literatura Comparada. Fez pós-doutorado no King's College em Londres. Tem trabalhos publicados na área de Literatura Comparada e, principalmente em literaturas inglesa, canadense e brasileira. Orienta para mestrado e doutorado com atuação principalmente nos seguintes temas: memória, tradução, escritura, literatura inglesa, canadense e brasileira.