27/07/2020

A ética da terra de Aldo Leopóld: Material suplementar

27/07/2020 - Por: Alvaro Boson de Castro Faria

Discutir questões sobre o tema da Ética Ambiental pode gerar certo desconforto ao leitor, condicionado, em alguns casos, a estar desacreditado na eficiência do Estado e das instituições que o representam, responsáveis por fiscalizar a utilização sustentável dos recursos naturais. Também poderá existir um fator associado aos interesses dos particulares, por vezes instigados pela avareza, em contraponto à necessidade de garantir que a conservação desses recursos esteja garantida para as futuras gerações.

Ocorre que o meio ambiente é um bem de interesse da coletividade, isto é, a responsabilidade pela conservação deve ser bem compreendida por todos, fazendo com que esses assuntos integrem, necessariamente, as questões sociológicas, vinculadas à defesa da cidadania, do combate às ilegalidades, da valorização do Estado de Direito e da democracia.

A partir do ano de 2013, muitas manifestações espontâneas clamaram por maior justiça social e por um sistema político que procurasse ouvir mais as aspirações da sociedade. Já em 2020, as pautas que até então diziam respeito ao combate à corrupção passaram também a dar maior ênfase aos temas ambientais, como o combate dos desmatamentos, das queimadas, e às preocupações com as mudanças climáticas. Mesmo que estejamos nos grandes centros urbanos, ou no interior, podemos e devemos refletir, mais especificamente, sobre quais as nossas responsabilidades em relação à conservação das florestas nativas, e quais seriam os fundamentos éticos ambientais, pelo qual a sociedade brasileira deveria melhor empregar-se, visando à conservação, à valorização e à utilização dos recursos florestais, tendo como referencial o bioma da Mata Atlântica, a Caatinga, o Cerrado, os pampas, a Amazônia, e todas as outras formações ecológicas.

O permanente crescimento populacional promoveu o surgimento dos problemas relacionados ao uso desordenado dos recursos naturais, resultando em uma permanente crise ambiental. Neste ensaio, procuramos provocar o leitor, para que, livremente e individualmente, possa aprofundar-se nos estudos sobre ética ambiental, com ênfase às questões florestais.

O termo Ética, também é conhecido como Epistemologia, advém do grego logo e significa o estudo de algo, e nesse caso da episteme, substantivo que representa um ramo da filosofia, aquele que se ocupa dos problemas relacionados ao conhecimento humano. A Ética Ambiental é, portanto, uma ciência das humanidades que se propõe a estudar como e por quais motivações a sociedade, que se faz representar por um sistema social, discute e reconhece um conjunto de comportamentos, e mais especificamente, visando estabelecer as condutas aceitas como bem-vindas e corretas, que deverão ser adotadas por todos, inclusive por meio de legislações específicas para o âmbito florestal e ambiental.

Leis também são chamadas de “políticas” e existem as de Estado e as de Governo. O pesquisador em ética ambiental deve estar preocupado não só em respeitar leis, mas também em melhor julgar sobre como lhes poderiam ser propostas melhorias, visando garantir a perpetuidade dos recursos florestais.

Entender esses conceitos envolve compartilhar as próprias experiências de formação profissional. Particularmente, tive o primeiro contato com o termo epistemologia pouco depois de ter concluído um mestrado na área de Engenharia Florestal, no qual havia desenvolvido uma pesquisa com inseticidas em plantios de pinus, um tema bastante ligado ao setor produtivo. Tinha certa preocupação relacionada ao risco de uso de agroquímicos, mesmo os de baixo impacto ambiental, considerando as vantagens comparativas do controle biológico. Ao mesmo tempo, estava estudando assuntos nas áreas sociais pelo curso de formação de professores de ensino superior, em que discutíamos as diversas influências do “pensamento sistêmico” nas universidades e na sociedade. Esse conceito, apresentado pelo físico Fritjof Capra, ficou bastante conhecido. Em suas palavras:

A concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração. Os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às de unidades menores. [...] Os exemplos de sistemas são abundantes na natureza. Todo e qualquer organismo [...] é uma totalidade integrada, e portanto, um sistema vivo. As células são sistemas vivos, assim como os vários tecidos e órgãos do corpo, sendo o cérebro humano o exemplo mais complexo. Mas os sistemas não estão limitados a organismos individuais e suas partes.
(CAPRA, 1982, p. 245).

Vejamos esse exemplo. Todas as estratégias de controle de pestes florestais devem ser utilizadas balanceadas conforme outro termo, mais técnico, conhecido como Manejo Integrado de Pragas (MIP). Os engenheiros conscientes da ética ambiental, então, saberão que MIP é um conceito ético sistêmico, previsto em documentos da governança ambiental. Estando bem empregado, fará com que as florestas permaneçam saudáveis, sem estresse ecológico que favoreçam as doenças que podem incidir nas árvores, e, com isso, favorecendo os empresários florestais, que poderão diminuir os custos de manutenção dessas áreas, bem como diminuirão os impactos ambientais, ao diminuírem a quantidade de agrotóxicos aplicados.

Citei um exemplo da área de Engenharia Florestal, apresentando um conceito proposto por um físico, discutindo um tema das áreas sociais! Não há contraditório nisso. Um dos aspectos imprescindíveis da ética ambiental para a dimensão de um saber-ser individual é a interdisciplinaridade, em que as questões técnicas sejam integradas ao bom cumprimento e desenvolvimento de padrões ambientais. Isto é, as pessoas devem saber-agir pela própria livre iniciativa, a fim de formularem padrões aplicáveis, voltados para a sustentabilidade dos recursos naturais, rompendo certos limites de uma razão mais egoísta, que exclua os diferentes atores sociais. Para a ética ambiental funcionar, os indicadores educacionais, individuais e coletivos, devem desenvolver-se continuadamente, para alcançarem o nível mais elevado possível! Muitos dirão que seria um padrão politicamente correto, porém que existiriam objetivos obscuros e interesses perversos com tais condutas sociais. Em nosso entendimento, trata-se de uma forma mais elevada de se compreender a vida humana, ao reconhecer nossa própria responsabilidade cidadã. Mesmo com os aspectos controversos, em um ambiente democrático, existe a abertura para o diálogo e ao debate de ideias, e por isso a Ética Ambiental é um assunto que todos deveriam embarcar!

A visão sistêmica e a interdisciplinaridade são apenas dois dos atributos necessários àquele que se aprofunda nos fundamentos da ética ambiental. Todos devem se considerar como sendo os clínicos gerais do meio ambiente, buscando preparar-se em todas as áreas, para melhor servirem à sociedade. Os que integrarem especificidades e generalidades seriam os mais criativos, e estariam aptos a desenvolverem projetos com autonomia plena. Seria um dos caminhos mais desafiadores, pois muito haveria que ser dedicado ao aprendizado de habilidades em diversas áreas de conhecimento, ligadas ao empreendedorismo e à inovação.

Para uma correta compreensão de uma ética ambiental que considere a responsabilidade individual, e que estabeleça as melhores condutas visando à sustentabilidade das florestas, será sempre indispensável conhecer a Ética da Terra de Aldo Leopold, patriarca da ética ambiental, traduzido e disponível agora para a língua portuguesa, pela Editora Appris. Aldo Leopold foi um engenheiro florestal, que no início do século passado teve muito êxito em conscientizar a sociedade americana sobre a importância de conhecer as florestas naturais e as paisagens, atribuindo ao ser humano a responsabilidade de agir para favorecer o seu equilíbrio e saúde, considerando as cadeias energéticas das plantas e da fauna silvestre uma linguagem poética e que exaltava a beleza. As análises sobre procedimentos técnicos para manejar o meio ambiente, nesse contexto, partem de um sentimento bastante elevado, e que coloca a humanidade à frente de uma nobre missão.


Alvaro Boson de Castro Faria: Engenheiro florestal pela UFPR, com especializações na área de Ensino Superior pela PUC-PR, de Engenharia e Gestão Ambiental pela IEP-PR, e com mestrado e doutorado na área de Silvicultura pela UFPR. Atuou como professor pela Unicentro/Irati, nas áreas de Proteção da saúde florestal. Professor pela UTFPR-DV, nas áreas relacionadas à Política e Legislação florestal. Desenvolve pesquisas continuadas sobre legislação florestal e perícias ambientais; valoração econômica de serviços ecossistêmicos; silvicultura na pequena propriedade rural. Atua em perícias ambientais criminais; tradutor da Ética da Terra de Aldo Leopold; autor da série literária Ética da Conservação Florestal. Compõe o Conselho Científico do Instituto LIFE e desenvolve seu trabalho com ênfase na conservação do pinheiro brasileiro (Araucaria angustifolia Bertol. O.K.), sua vulnerabilidade às mudanças climáticas e a iniciativas de uso racional do bioma Mata Atlântica.