28/07/2020

Mídia do interior: para além do senso comum

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20/03/2019 - Por: Jacqueline Deolindo

A mídia do interior, e por interior podemos entender pequenas e médias cidades não metropolitanas, muitas vezes é vista como artesanal, deficitária economicamente e dependente politicamente, tanto por quem mora nesses lugares quanto por quem vive em centros urbanos de grande porte. No entanto, essa visão pode ser resultado de um senso comum e da ausência de um olhar mais atento para essa realidade.

Diversas pesquisas ao redor do mundo – e podemos citar trabalhos sólidos e comprometidos de acadêmicos dos Estados Unidos, da Alemanha, da Inglaterra e de Portugal, entre outros países – têm procurado compreender melhor como jornais, sites de notícias e emissoras de rádio e TV de cidades interioranas funcionam, como se sustentam, por que obtêm ou não obtêm sucesso na tentativa de serem competitivas e relevantes para sua comunidade. E o surpreendente é que todas as pesquisas indicam que, salvo raras exceções, esses meios de comunicação não diferem em quase nada nem da grande mídia nem entre si, no que se refere aos modos de operar nos mais diversos países. Ou seja: a mídia, seja qual for o lugar de seu funcionamento, terá sempre dois objetivos, que constituem sua natureza dual: como empresa, seu objetivo é ser lucrativa para se manter financeiramente, pagar seus funcionários, atualizar seus equipamentos, ampliar seu mercado; e como serviço público, prover a sociedade com notícias e informação, essenciais para o trânsito da democracia.

Obviamente, há casos em que a mídia vai servir a um projeto ideológico que nada tem a ver nem com o mercado nem com o ethos jornalístico, fundado desde o século XVIII, mas, nas situações em que gestores e profissionais se esforçam para realizar um trabalho sério e comprometido, encontramos excelentes estudos de caso.

Um caminho interessante para compreendermos essa dimensão empresarial dos meios de comunicação do interior é conhecermos sua estrutura de mercado (como se comportam em situações de monopólio, oligopólio etc.), sua conduta (como é seu comportamento diante dos concorrentes, quais são as estratégias de negócios, como lidam com seus funcionários, como diversificam seus produtos, por exemplo) e seu desempenho (que resultados financeiros e econômicos obtêm, qual sua performance diante dos demais operadores).

Uma abordagem desse nível não reduz a mídia do interior ao discurso corrente e tem o potencial de revelar uma dimensão microeconômica pouco considerada pelos pesquisadores da mídia em funcionamento nos pequenos e médios centros urbanos fora das regiões metropolitanas. Tem o potencial, ainda, de produzir subsídios para o desenvolvimento de projetos e políticas públicas que contemplem esses veículos visando a sua maior autonomia e qualificação para atender às demandas por notícia e informação em nível local e regional. Trata-se, sem dúvida, de uma nova pauta de pesquisa. Promissora.

Para saber mais, conhece a obra O negócio da mídia no interior.


 

Jacqueline Deolindo é jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Autora do livro O negócio da mídia no interior, é professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense e do curso de Jornalismo do Centro Universitário Fluminense, em Campos dos Goytacazes. Faz parte do Grupo de Pesquisa Geografias da Comunicação da Sociedade Brasileira de Ciências da Comunicação (Intercom) e seu interesse pesquisa é comunicação local e regional desenvolvida em pequenas e médias cidades do interior brasileiro.