29/07/2020

Música e cultura na Irlanda de James Joyce

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01/04/2019 - Por: Magda Velloso F. de Tolentino

Quando se fala em colonização e descolonização, pensa-se imediatamente em países da África ou Ásia, já que a descolonização da América do Norte realizou-se na época das grandes revoluções no final de século XVIII. Pouco se fala da colonização e descolonização da Irlanda, talvez em nosso país pelo pouco interesse e pouca convivência até bem poucos anos do Brasil com aquele país. Ou talvez seja pelo fato de que, de longe, nunca pensamos em Irlanda colonizada pelo fato de que colonizadores e colonizados não apresentavam diferença de cor, como era o caso dos habitantes da África ou da Índia. No entanto a Irlanda foi um dos primeiros países colonizados pela Inglaterra após a última invasão das terras britânicas em 1076 pelos normandos e a definitiva instalação do trono inglês.

Provavelmente pela proximidade geográfica, a Inglaterra, ainda no século XI iniciou suas incursões pelas terras irlandesas, cujos habitantes tinham etnia, cultura e costumes diferentes dos anglo-saxões. As primeiras incursões naquelas terras foram feitas de forma suave, quando os novos donos, principalmente ao noroeste da ilha, adaptaram-se à vida irlandesa e misturaram-se ao povo celta que ali habitava, fazendo casamentos entre um e outro, o que constituiu uma colonização mais tranquila.

Foi só no início do século XVI, no reinado da Rainha Elizabeth I, que os ingleses tomaram em definitivo as terras irlandesas para si, iniciando ali um ciclo de mudanças religiosas, culturais e até linguísticas, onde a língua inglesa foi imposta em substituição à língua gaélica, ali falada durante muitos séculos, própria dos povos celtas que haviam se arraigado àquelas terras e ali permaneceram desde alguns séculos antes de Cristo até aquele momento.

Em consequência de um imperialismo dominante e violento em que, a cada lei passada no parlamento de Westminster, o povo irlandês, de maioria católica, perdia seus direitos, ao passar dos séculos o povo irlandês começou uma série de insurgências com vistas a retomar a Irlanda para si novamente como nação autônoma.

O livro Música e cultura na Irlanda de James Joyce vai descrever o contexto histórico e cultural irlandês do final do século XVIII até os meados do século XX, quando se iniciaram as revoluções no mundo ocidental, com a Revolução Industrial na Inglaterra, a Revolução Francesa e a Revolução Americana. Muito se começou a discutir nessa época sobre nação e nacionalismo, que era a força predominante nesses movimentos revolucionários. A Irlanda sofreu grande influência dessas investidas, mas levou mais de um século para que suas lutas tivessem algum resultado.

Na segunda metade do século XIX, quando metade da população foi dizimada pela terceira leva da praga das batatas, que trouxe a Grande Fome, febre tifoide e outras doenças para a população, sem que a coroa inglesa fizesse qualquer movimento para diminuir a pobreza, a fome ou a doença nessa parte de seu território, novas lutas iniciaram-se em resposta à revolta da população com tanta penúria.

Associações foram criadas, tanto em nível intelectual, como a Liga Gaélica, cujo objetivo era retomar o uso da língua gaélica pela população, quanto em nível político, com associações que discutiam formas de tomar o poder e em que algumas se armaram, embora muito precariamente, em prol de uma revolta armada. Havia a Irmandade Republicana Irlandesa, os Voluntários Irlandeses e muitas outras.

Na Páscoa de 1916, quando se intensificavam as penalidades aos habitantes da ilha, que eram cercados de proibições sociais, educacionais, religiosas, com proibição de propriedade da terra, os grupos se reuniram e fizeram a primeira rebelião armada, onde conseguiram segurar pontos estratégicos da cidade por quase uma semana, tendo hasteado a bandeira da república e divulgado o manifesto que tornava a Irlanda um país livre e republicano, em que os irlandeses seriam seus legítimos donos. Eles aproveitaram a Primeira Guerra Mundial, que estava em curso, pensando que os ingleses estariam muito ocupados no conflito mundial para se preocuparem com a Irlanda.

A Gran Bretanha, no entanto, não se conformou com a perda daquele território e reuniu alguns batalhões para conter a rebelião, que foi dominada. Os 16 líderes da rebelião, incluindo-se aí os signatários do manifesto, foram julgados e executados nos primeiros dias de maio daquele ano.

Para que se chegasse a essa rebelião, muito movimento foi feito, desde manifestações populares até o envolvimento da intelligentsia literária local. Muito da conscientização popular em torno da necessidade de se retomar a pátria como do povo foi feita mediante canções entoadas pelas ruas e nos saraus dos salões onde se podia ouvir música. A cada novo movimento, usava-se uma harmonia existente para nela colocar novas palavras de louvor à terra ou de horror à ação criminosa dos donos estrangeiros. Muitas das canções eram dedicadas a uma mulher e choravam a perda da amada, esperando que um dia ela voltasse a ser sua, essa mulher servindo como metáfora da pátria. Essas estratégias são todas desenvolvidas ao longo do segundo capítulo do livro em questão.

Ao lado dessas manifestações populares, ao final do século XIX, um grupo de literatos, liderado pelo grande poeta (laureado pelo prêmio Nobel de literatura em 1923) W. B. Yeats, juntamente a Lady Gregory fundaram o Teatro Nacional Irlandês, que se propunha a mostrar peças somente de autores irlandeses e que lidavam com questões irlandesas. São dessa leva peças como Cathleen ni Houlihan, The Countess Cathleen, Diarmuid and Grania (Yeats), Deidre of the Sorrows e The playboy of the Western world (John Millington Synge), The Canavans (Lady Gregory); mais tarde foram enriquecidas com peças de outros autores como Sean O’Casey: The Shadow of a GunmanJuno and the PaycockThe Plough and the Stars.  Todas essas peças eram de tom patriótico, mesmo que disfarçado em um romanticismo piegas.

James Joyce, o autor que o livro em questão foca, é hoje considerado o maior autor irlandês, tendo seu grande romance Ulysses sido citado em todas as listas de melhor romance do século XX que a última passagem de século elaborou.

A princípio Joyce foi favorável ao Renascimento Literário Irlandês, e chegou a assinar um manifesto pela sua realização. Com o desenvolvimento das apresentações de peças, começou a considerar o movimento muito retrógrado, pois considerava que as peças cultuavam o passado da Irlanda, ao invés de olhar para seu futuro.

Joyce foi acusado de não ter se ligado a qualquer dos movimentos que se desenvolveram na Irlanda em prol da independência do país, também criticado por não ter escrito qualquer coisa sobre as revoltas irlandesas ou as guerras que testemunhou, ainda que de longe, na Europa, em comparação com seus contemporâneos que, em verso, prosa e drama manifestavam-se contra a tirania inglesa.

Este livro pretende, após as considerações sobre a história, a música e a cultura irlandesas, abordar as obras de Joyce sob um ponto de vista diferente. Pretende mostrar que sua obra é sim política, e que todo o tempo, embora tenha publicado todos os seus livros (2 de poemas, 1 drama, 1 de contos e 3 romances) quando já morava no continente europeu, situou seus escritos em Dublin e abordou as questões irlandesas, a seu modo, certamente.

No livro de contos abordou a paralisia dos dublinenses, que se pode ler como a letargia que tomou conta do povo após tantos séculos de dominação britânica, mas, em sua maneira peculiar, pretendeu levar os irlandeses a pensar em si mesmos de forma afirmativa, olhando para o futuro, tendo compreendido que não há volta ao passado sem se considerar todas as mudanças pelas quais um povo passa após anos de colonização forçada, em que língua, cultura e religião imprimem uma marca na população.

O desenvolvimento dos argumentos em favor dessa leitura foi baseado em teorias de Homi Bhabha, que em seus escritos sobre nacionalidade, aborda as duas formas de pertencimento em uma nação: a pedagógica, que se baseia na história e na tradição, e a performática, que considera a ação cotidiana de pertencimento àquela nação.

Todas essas questões são abordadas de forma mais detalhada ao longo do livro, exemplificando com trechos das obras que venham a confirmar o ponto de vista da autora. Acesse: Música e cultura na Irlanda de James Joyce


Magda Velloso F. de Tolentino: Autora do livro Música e cultura na Irlanda de James Joyce e professora aposentada das Universidades Federais de Minas Gerais e de São João del Rei  (UFMG e UFSJ) em momentos diferentes, na área de Inglês, Literaturas de Língua Inglesa e Teoria Literária.