29/07/2020

Educação bilíngue eletiva no Brasil

04/04/2019 - Por: Sheylla Chediak

            A educação bilíngue refere-se aos seus diferentes contextos, amplamente ligados aos contextos de minorias linguísticas como a educação bilíngue de surdos, educação bilíngue de fronteira, educação bilíngue de imigração e educação bilíngue indígena. Além desses contextos, há um contexto global de internacionalização e mundialização que impulsiona o surgimento da educação bilíngue eletiva, aquela pela qual o estudante ou sua família opta, ou seja, “elegem” como a educação que querem. Sendo assim, ela não está posta da maneira como os demais tipos de educação bilíngue estão, mas se apresenta como uma demanda mercadológica e a urgência em preparar indivíduos conectados na teia global, desde a infância.

            O interesse pela Educação bilíngue eletiva no Brasil tem crescido bastante desde o início do século XXI. Isso se dá, em especial, devido aos processos de internacionalização e mundialização. A sociedade global, totalmente conectada em rede, requer um código de comunicação, ou seja, o uso das línguas mais faladas do mundo. Isso permite os intercâmbios em diversas áreas entre os países.

            O termo “educação bilíngue eletiva” é apresentado por Baker (2008), da língua inglesa elective bilingual education. Essa tendência surgiu em vários países de diferentes maneiras, muitas vezes ligada a contextos de minorias linguísticas ou de imigração. No Canadá, por exemplo, surge com o ato das línguas oficiais, momento em que o país oficialmente se declara bilíngue (inglês e francês). Surge então a necessidade de preparar indivíduos desde a infância, para que estejam inseridos nas demandas políticas e mercadológicas do país com o passar do tempo.  

            Na educação bilíngue eletiva, a criança está em contexto escolar regular e aprende várias disciplinas que são ministradas na língua alvo. Se a escola apresenta a língua portuguesa e inglesa como principais de seu currículo, por exemplo, a criança irá aprender Matemática, Ciências e Artes na língua inglesa. Geralmente, as escolas optam em ministrar 100% de seu currículo em língua inglesa na creche. Já na pré-escola, inserem gradualmente a língua portuguesa devido ao período de alfabetização escolar. Com o avanço dos anos escolares, torna-se necessário dividir a ministração do currículo nas duas línguas. Tal divisão considera fatores ligados ao próprio país e cultura. Estudos culturais, históricos e geográficos geralmente são ministrados na língua portuguesa, enquanto que Matemática, Ciências e Artes são ministradas em língua inglesa.

            Diversos termos podem ser relacionados à educação bilíngue eletiva na atualidade, como o Content and Language Integrated Learning (CLIL), termo utilizado na Europa para tratar da integração entre a aprendizagem dos conteúdos curriculares e a aprendizagem de uma língua estrangeira (COYLE, HOOD, MARSH, 2010). Outro termo é o Content-Based language teaching/learning, também utilizado para fazer referência ao ensino de conteúdos por meio da língua estrangeira (LIGHTBOWN, 2014). Independentemente do termo utilizado, notamos a forte tendência delineada pelos processos de internacionalização e mundialização, o de ministrar conteúdos curriculares em língua estrangeira, em todos os níveis de ensino, tanto em instituições públicas ou privadas, destacando-se às últimas devido aos recursos empregados.

            Nas instituições públicas de ensino no Brasil tem-se discutido a importância de ofertar disciplinas eletivas em uma língua estrangeira, geralmente inglês ou espanhol, para possibilitar parcerias entre universidades e institutos de diversos países. Assim, é possível realizar intercâmbio entre estudantes brasileiros e estrangeiros, como também possibilitar que estudantes brasileiros possam cursar uma disciplina em língua estrangeira e, assim, estar mais preparado para participar da teia global, que se dá, em primeira instância, através da comunicação.

            Não se pode deixar de destacar a predominância da língua inglesa como a mais adotada no processo de internacionalização das instituições e relacionar tal fato especialmente com a questão econômica mundial, a influência e imposição dos países mais desenvolvidos sobre os menos desenvolvidos. Participar do mundo internacionalizado requer falar a língua ou as línguas mais internacionalizadas.

Há muitos estudos que discutem as vantagens e implicações do bilinguismo na infância, como exemplo podemos apontar os estudos de Bialystok (2009) e Hakuta (1986). No passado o bilinguismo foi muito remetido à fatores negativos em alguns países, como nos Estados Unidos, conforme elucidado por Hakuta (1986). No entanto, com o tempo, percebemos a intencionalidade em relacionar o bilinguismo às questões negativas, as quais estavam muito mais ligadas à crença da superioridade de uma nação/etnia em relação a outra e aos interesses políticos entre nações e povos. As dúvidas perduram com o passar do tempo, embora os contextos históricos tenham se transformado, as formações discursivas permanecem e levam mais tempo para serem esclarecidas. No Brasil adotamos diversos discursos que ainda não temos experiência suficiente na oferta de educação bilíngue eletiva e de pesquisas na área.

            Estudos sobre o desenvolvimento cognitivo e linguístico da criança têm sido desenvolvidos por vários autores. Muitos concluem de maneira inconclusa, apontando para a necessidade de mais investigações em contextos diversos. Bialystok (2009) realizou pesquisas experimentais com crianças bilíngues e monolíngues que sugeriram algumas vantagens dos bilíngues, tais como a superioridade da flexibilidade cognitiva, demonstrada mediante testes de reorganização de símbolos e de conceitos numéricos. Segundo ela, a criança bilíngue tende a ignorar aspectos do teste que induzem ao erro, o que se refere à flexibilidade cognitiva, que é a capacidade do indivíduo de adaptar seu comportamento e julgamento a situações novas e não previstas para resolver problemas.  

           Os estudos realizados pela autora também sugerem que as crianças bilíngue apresentam um conjunto lexical menor em determinada língua do que as crianças monolíngues, no entanto, apresentam maior controle das configurações mentais envolvendo a flexibilidade cognitiva, conforme explicada, a atualização de informações da memória ativa e a inibição, que é a capacidade de controlar respostas impulsivas ou inadequadas e usar a atenção e o raciocínio para elaborar respostas mais adequadas à determinada situação.

           Vygotsky (2005), ao discutir a contradição no desenvolvimento intelectual geral e da fala materna na infância em um texto de 1935, a partir de seu contexto histórico e geográfico, já apontava para a necessidade de estudos. Para ele, a contradição estava nos dados que apontavam tanto o comprometimento do desenvolvimento da fala na língua materna em crianças, em contextos não escolares, assim como havia também dados convincentes e válidos que mostravam o contrário, ou seja, elucidavam aspectos favoráveis no desenvolvimento intelectual geral e linguístico da criança.

             Dessa forma, estudar o desenvolvimento do bilinguismo e do biletramento em contexto escolar é de grande relevância, pois notamos essa crescente tendência no Brasil. A escola tem um papel fundamental que consiste em promover o desenvolvimento de maneira intencional, planejada e estruturada, o que a difere de um contexto bilíngue não escolar. Precisamos desenvolver pesquisas que considerem os contextos. Em nosso caso, pesquisas que considerem o contexto brasileiro – sua historicidade, sua atualidade, seu sistema educacional e contexto escolar – a partir de políticas que o estrutura. Somente assim poderemos avançar também nas metodologias, na elaboração e implantação de políticas públicas para regulamentar a disseminação de escolas bilíngues, sejam elas públicas ou privadas, e na formação de professores para novos contextos.

            Penso que, de maneira geral, ainda não superamos ou atingimos o ideal de aprendizagem de línguas para a formação de um cidadão plural, um cidadão que respeite a diversidade, viva bem com ela e a valorize. Se tivéssemos atingido esse ideal, não teríamos problemas relacionados à intolerância ou imposição cultural ou linguística. No entanto, não é bem isso que percebemos na sociedade global. Também é pertinente destacar que a escola não educa só, a família também não e nem a comunidade. Estamos em uma sociedade totalmente conectada em rede, como explica Castells (1999). Nossas crianças são educadas de maneira micro pela família, escola e a comunidade na qual estão inseridas. De maneira macro, ela é educada pelo mundo em que, atualmente, a formação humana tem sido mediada pelas mídias sociais. Muitas vezes esse micro não desempenha seu papel fundamental de educar para valores de tolerância, igualdade e respeito à diversidade, dando mais espaço para o macro educar de maneira diversa e, muitas vezes, divergente desses valores, educando para a polarização, intolerância, dominação e crença na supremacia de uma língua/povo para o detrimento, discriminação e desprezo de outros.

            Daí a importância da educação escolar, de maneira intencional e estruturada. Não podemos deixar de questionar: “que cidadão estou educando para a atualidade e para o futuro?”, baseada em qual concepção de mundo, de homem e de sociedade? Qual é a intencionalidade de ensinar um conteúdo por meio de uma língua estrangeira? Qual é o valor dessa língua no mundo e quem determina e o porquê e como esse valor é determinado? É possível a desvalorização da língua portuguesa como língua materna quando estou aprendendo por meio de uma língua estrangeira? Todas essas questões precisam ser elaboradas, responsavelmente amadurecidas e respondidas pelas instituições educacionais e bem esclarecidas em suas propostas pedagógicas. Da mesma forma, elas precisam ser discutidas com nossos educandos de maneira a formar bilíngues cidadãos do mundo, que saibam pensar as práticas linguísticas e culturais a partir de valores universais mais humanos em uma sociedade marcada pelas suas discrepâncias e antagonismos.

Leia mais em:

CHEDIAK, Sheylla. Biletramento na Educação Bilíngue Eletiva: aquisição do português e inglês em contexto escolar. Curitiba: Appris, 2019.

REFERÊNCIAS

BAKER, C. Foundations of Bilingual Education and Bilingualism. 4. ed. USA: Multilingual Matters Ltda, 2008.

BIALYSTOK. E. Bilingualism: the good, the bad and the indifferent. International Symposium on Bilingualism Lecture. Revista Bilingualism: Language and Cognition. Sponsored by Cambridge University Press, 12(1), 3-11, 2009.

CASTELLS, Manuel. Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

COYLE, Do; HOOD, Philip; MARSH, David. CLIL: Content and Language Integrated Learning (English edition). Cambridge University Press, 1st ed., 2010.

HAKUTA. K. Mirror of Language: The Debate on Bilingualism. New Youk: Basic Books, Inc. Publishers, 1986.

KABUTO, B. Becoming Biliterate: Identity, Ideology, and Learning to Read and Write in Two Languages. New York: Routledge, 2011.

LIGHTBOWN, Patsy. Focus on Content-based language teaching. Oxford, 2014.

VYGOTSKY, L.S. Sobre a questão do multilinguismo na infância. (Traduzido do russo, compõe o livro “O desenvolvimento intelectual das crianças durante o processo de aprendizagem”, 1929 – Tradução Zoia Prestes). TEIAS: Rio de Janeiro, ano 6, n. 11-12, jan./dez. 2005.


Sheylla Chediak: Doutoranda em Educação Escolar (UNESP-Araraquara); mestre em Psicologia (UNIR-RO); especialista em Língua Inglesa e suas Literaturas; especialista em Gestão Escolar. Professora de Língua Inglesa do Instituto Federal de Rondônia – IFRO. sheyllachediak@gmail.com