29/07/2020

Crianças invisíveis

Tags: BLOG

04/04/2020 - Por: Vinicius Furlan

Significativo número de nossas crianças e adolescentes tem vivido acolhidas em lares de abrigamento, afastadas de suas famílias de origem. Órfãs? As pesquisas apontam que não. A maioria dessas crianças e adolescentes possui família, mas foram afastadas de seu convívio por questões judiciais.

Identifica-se que a pobreza marca a realidade dessas famílias, embora esse não seja fator legalmente justificável para o afastamento das crianças e adolescentes da convivência familiar.

Afastadas de suas famílias, vivem à margem da sociedade. Estigmatizadas, são excluídas do convívio social. Concebidas, ideologicamente, por não conviverem num seio familiar, como potenciais marginais, com potencial para desenvolver psicopatologias e com tendências a delinquência e irresponsabilidade individual.

A institucionalização, embora constitua uma condição concreta que fornece experiências e dá sentidos e significados àqueles que ali viveram, não se impõe como o único fator determinante no processo de constituição dos sujeitos, e pode ainda possibilitar as condições para sua autodeterminação.

A intervenção para o afastamento da criança e do adolescente de seu convívio familiar revela a lógica da estrutura social, que impede as famílias de cuidarem de seus filhos por falta de investimento significativo em políticas públicas, capaz de proporcionar a essas famílias o apoio necessário para que possam superar suas vulnerabilidades e exercer suas funções de cuidado, proteção e socialização de seus filhos. Revela ainda a violação dos direitos por parte do Estado, que não garante o direito à convivência familiar, tendo a institucionalização como principal medida para a resolução dos problemas familiares, e assim cria-se uma cultura de institucionalização de crianças e adolescentes.

Desse modo, o abrigo revela-se como lócus da exclusão social, na medida em que desvela a pobreza presente na realidade das famílias e a marginalidade em que se colocam as crianças e adolescentes em acolhimento institucional.

Essas crianças e adolescentes estão aí, na invisibilidade, ninguém as percebe. São crianças invisíveis, pois revelam a nossa falha, como sociedade, em nosso dever de cuidá-las, como um eclipse permanente que obscurece a vida.

Para saber mais sobre esse assunto, leia a obra Infância institucionalizada: identidade e acolhimento institucional, publicado pela Editora Appris (2020).


 

Vinicius Furlan: Foi professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e é professor da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Doutor em Psicologia Social pela PUC-SP, mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará e psicólogo pela UNIMEP. Recebeu Prêmio Psicologia e Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia.