31/07/2020

Experiência, Cinema e Literatura

Tags: BLOG

04/04/2020 - Por: Júlio de Souza Santos

Quando muito moço, tive a oportunidade de conhecer, por meio do filme Sete Anos no Tibet (1997), as aventuras do alpinista austríaco Heinrich Harrer em sua tentativa de escalar o pico da Cordilheira do Himalaia, o “Topo do Mundo”, no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial. Ao retratar narrativas de coragem, de ousadia e, ao mesmo tempo, de medo e de frustração do jovem alpinista, em meio às adversidades históricas, políticas e geográficas, esse filme me proporcionou uma experiência singular com um mundo diferente, desafiante e desconhecido.

Com o intuito de compreender os sentidos de minha identificação com a trajetória desse jovem alpinista, sou levado a recordar de uma experiência vivida em minha infância em Vitória[1] por volta de 1990, quando e onde folheava páginas de livros didáticos de Geografia, os quais recebi como presentes do meu pai e que mostravam paisagens de lugares e povos da África, da Ásia, da Oceania e da Europa. A curiosidade que ainda tenho sobre o motivo para o meu pai ter me presenteado aqueles livros de Geografia é semelhante à curiosidade que tinha naquela época em conhecer mais profundamente as paisagens ilustradas.  

No início dos anos 2000, a experiência de ingresso no curso superior de Geografia me leva novamente a “rememorar” experiências vividas em minha trajetória e a busca de elaboração de narrativas de sentidos para as minhas “escolhas” acadêmicas e profissionais. Nessa “rememoração do passado”, as minhas experiências marcantes, como as vividas com o filme Sete Anos no Tibet e com os livros didáticos de Geografia, emergiam como possíveis causas para a escolha desse curso.

Após a conclusão da graduação, ingressei no mestrado em Educação e realizei um estudo com lavradores de um município do interior do Espírito Santo, porém a perspectiva geográfica ficou latente na investigação. Posteriormente, retomo os estudos, com a realização do doutorado em Educação e sou desafiado e instigado a me debruçar sobre as relações entre experiência e geografia, que emergiam não apenas como uma questão científica, mas também existencial e vivencial.

Nessa trajetória, tive “encontros” proveitosos com ideias de Walter Benjamin (1989), sobretudo, relacionadas à “experiência”, caracterizada como acumulada e coletiva; e “vivência”, compreendida como experiência vivida de caráter individual, evento assistido pela consciência. Além disso, outras ideias desse pensador me instigaram nesse contexto, como a sua abordagem da figura do flâneur, tomando como referência a análise da perspectiva do poeta francês Charles Baudelaire. O flâneur emergiu a partir do surgimento das multidões dos centros urbanos, com a industria­lização europeia nos séculos XVIII e XIX, porém alheio a essas transfor­mações nessas sociedades, como se não aceitasse essas mudanças. Segundo Passos et al. (2007, p. 6), o flâneur é “[...] um observador que caminha tranquilamente pelas ruas, apreen­dendo cada detalhe, sem ser notado, sem se inserir na paisagem, que busca uma nova percepção da cidade”.

Após a conclusão da pesquisa do doutorado, vivenciei uma experiência marcante com o filme Meia-Noite em Paris (2011). A identificação com o personagem principal desse filme, o escritor Gil Pender, foi imediata. As experiências desse jovem escritor, que resolve passar um tempo em Paris, juntamente de sua noiva, com a intenção de se inspirar nessa cidade para a escrita de um romance, levou-me a recordar o conceito de experiência, de Walter Benjamin. Mais do que isso, logo percebi que Gil Pender personificava o flâneur, de Charles Baudelaire, ao transitar tranquilamente pelas ruas de Paris, na tentativa de viver experiências com a cidade. Ao flanar, o personagem vive uma situação fantasística de volta ao passado, quando não estava satisfeito com o presente. Primeiramente, na década de 1920, quando vive experiências com intelectuais e escritores da chamada “Geração Perdida”, como Ernest Hemingway e Francis Scott Fitzgerald. Depois, retorna à Paris do final do século XIX, no período da Belle Époque. Essas experiências foram importantes para Gil Pender perceber que as gerações admiradas por ele não consideravam os seus tempos como áureos, pois a geração perdida dos anos 20 considerava a Belle Époque como época do ouro, enquanto a geração da Belle Époque considerava a Renascença como o período dos anos dourados.  

Na experiência de flanar no “presente” e no “passado”, aprendi que viver experiências com o cinema e a literatura é tão importante quanto obter conhecimentos sobre essas artes. Assim, entre a multidão que ostenta conhecimentos e o flâneur que vive experiências, assumo-me como esse último na esperança de tornar o presente e os meus lugares satisfatórios e prazerosos.

Para vivenciar novas experiências com o tema, com ênfase na abordagem das experiências de educadores, conheça a obra Experiências Geográficas e Educação (Editora Appris, 2018).     

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Obras Escolhidas; v. 3).

MEIA noite em Paris. Direção de Woody Allen. Culver City: Sony Pictures, 2011.

PASSOS; F.; GOUVÊA, M.; TOSTI, R.; POLITO, R. O novo flâneur: Personagem da Era Moderna, o flâneur ainda incita o pensamento urbano contemporâneo. Eclética, s/v., n. 17, p. 6-10, jul./ago./ set./out./nov./dez. 2003.

SETE anos no Tibet. Direção de Jean Jacques Annaud. Culver City: Tristar, 1997. 1 DVD (136 min.).

 

[1] Capital do estado do Espírito Santo.


Júlio de Souza Santos é doutor em Educação pela Universidade Federal do Espírito (UFES), professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória e autor do livro Experiências Geográficas e Educação, publicado pela Editora Appris em 2018.