05/10/2018

Nada Muda Tanto Quanto o Passado: Memória e Ditadura Militar

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05/10/2018 - Por: Gabriel Papa Ribeiro Esteves

 

Depois de 50 anos do golpe de Estado de 1964, a ditadura continua protagonizando, na sociedade brasileira, discussões importantes sobre as representações de sua memória. O espaço público da imprensa tem importante destaque na difusão dessa pauta e no posicionamento opinativo e informativo do assunto. Identificar o modo como, em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler é um pressuposto para a compreensão de como determinados grupos têm forjado as representações do mundo social. Por isso a necessidade de compreender a relação entre os discursos da imprensa, pois a percepção do social não vem de um discurso neutro, ela produz estratégias e práticas impostas à custa de outras, justificando suas escolhas e condutas.

No dia 30 de março de 2014, a Folha de S.Paulo publicou um editorial chamado “1964”1, nele percebemos a ambiguidade da linha editorial do jornal. O texto aponta que o regime militar é merecedor de repúdio e que a ditadura representou uma notória violência, porém acaba por indicar certas justificativas aos acontecimentos, dizendo que os golpistas de 1964 detiveram um impulso de mudança e participação social alegando estar impedindo seus adversários de instaurarem uma ditadura ainda pior, portanto a responsabilidade da violência, de acordo com o texto daquele editorial, distribui-se pelos dois extremos, pois parte da esquerda teria forçado os limites da legalidade na urgência de realizar reformas de base, que a Folha de S. Paulo chama de demagógicas, e posteriormente organizou-se desencadeando uma luta armada dedicada a instalar, segundo o editorial, precisamente aquilo de que era acusada pelos adversários, uma ditadura pior ainda do que aquela que viera a se estabelecer. O jornal pontuou que às vezes se cobra da Folha de S.Paulo o fato de ela ter apoiado a ditadura e esclarece que seu apoio se deu na primeira metade da vigência do regime, sendo na metade seguinte um veículo de críticas ao regime, em seguida o jornal reconhece que aquele apoio foi um erro aos olhos de hoje e que toda violência deveria ter sido rechaçada, mesmo que os responsáveis de outrora tenham agido como lhes pareceu melhor naquelas circunstâncias.

Em 31 de março de 2014, O Estado de S. Paulo publicou o editorial chamado “Meio Século depois”2, direcionando o discurso para o período do golpe e da ditadura para pontuar que havia, na época, aspirações de cunho socialista sem respaldo popular e que as violências de Estado e de oposição foram insensatas e resultantes das imposições da ala reformista do governo e da sociedade. O jornal não cita que apoiou o golpe e se isenta de uma discussão ética sobre o assunto. O Globo publica, também em 31 de março de 2014, o editorial “Para nunca mais se repetir”3, em que o jornal reconhece o equívoco editorial e arrependimento quanto ao apoio do golpe e exalta o Estado democrático de direito, no entanto não usa o termo “ditadura” e não menciona sua subserviência ao regime, sua apologia ao suposto sucesso econômico e ao governo militar autoritário.

A partir dessas declarações editoriais dos jornais, podemos perceber as diferentes ambiguidades da grande imprensa que, como vimos, apoiou o golpe e, ao menos numa primeira parte da ditadura, contribuiu na construção da memória social do golpe e do regime que dele se sucedeu por meio das representações que fizera durante o período histórico que ocorreu desde a instauração do estado de sítio até a redemocratização e a atualidade. Entender a representação da memória do golpe e da ditadura civil-militar brasileira nos dá margem para que a partir de então se alargue na esfera pública o debate real do que foi e do que é a sociedade em questão, para, dessa forma, emancipá-la e confrontá-la com seus equívocos e acertos. Tomamos a habilidade das mídias em transformar sua influência social em poder político, e apontar um espaço assenhoreado por conglomerados de comunicação associados a novas estratégias de manipulação das preferências das massas, refletindo os interesses e aspirações de poder daqueles que controlam os meios de comunicação. Assim, a esfera pública transforma o processo de legitimação democrática em uma questão de manipulação eficiente do campo simbólico.

A vida social é feita por indivíduos que perseguem fins e objetivos os mais variados. Assim fazendo, eles sempre agem dentro de um conjunto de circunstâncias previamente dadas que proporcionam a diferentes indivíduos diferentes inclinações e oportunidades. Esses conjuntos de circunstâncias podem ser conceituados como “campos de interação”:

Os indivíduos se situam em diferentes posições dentro destes campos, dependendo do tipo e da quantidade de recursos disponíveis para eles. Em alguns casos estas posições, quando institucionalizadas, adquirem uma certa estabilidade – isto é, tornam-se parte de um conjunto relativamente estável de regras, recursos e relações sociais. As instituições podem ser vistas como determinados conjuntos de regras, recursos e relações com certo grau de durabilidade no tempo e alguma extensão no espaço, e que se mantêm unidas com o propósito de alcançar alguns objetivos globais. As instituições definem a configuração dos campos de interação preexistentes e, ao mesmo tempo, criam novas posições dentro deles, bem como novos conjuntos de trajetórias de vida para os indivíduos que os ocupam (THOMPSON, 1999, p. 21).

A atividade simbólica é contínua, intensa e fundamental nas relações sociais, pois os indivíduos constantemente se expressam em formas simbólicas e interpretam simbolicamente expressões e ações usadas pelos outros, ou seja, estão em comunicação entre si e numa troca ininterrupta de conteúdo simbólico no espaço social. No fomento dos conteúdos simbólicos, os indivíduos, grupos ou instituições se utilizam do capital cultural que possuem e de seu prestígio acumulado, o capital simbólico que lhe dá condições de exercer o poder simbólico, para agir de modo a intervir no curso dos acontecimentos, podendo influenciar a ação dos outros e desencadear eventos advindos da produção e transmissão das formas simbólicas (THOMPSON, 1999). O campo do simbólico é pertinente aos nossos estudos, uma vez que a memória social, coletiva ou individual da história do país nada mais é do que uma construção simbólica realizada em diversos campos, e um deles é a mídia, da qual a Folha de S. Paulo, o Estadão e O Globo fazem parte e figuram como protagonistas do setor.

Nelson Werneck Sodré (1998) demonstra que a imprensa brasileira surgiu com o Capitalismo e acompanhou seu desenvolvimento, e, sendo assim, o processo de oligopolização, característico do sistema capitalista liberal, ocorrido na economia surtiu efeitos oligopolizantes na área da imprensa, principalmente no Brasil (devido às suas condições históricas), causando uma inversão de valores na mídia em geral, pois esta vivia da opinião de seu público e buscava servi-la, mas o relacionamento estreito mantido com o setor econômico, principalmente pelo fato de a imprensa passar, como instituição privada que é, a funcionar como uma empresa, levou-a a dispensar a opinião do público e a passar a servir aos seus anunciantes, transformando a informação em mercadoria. A mídia se tornou, portanto, uma comerciante de informações. Como agravante, temos o fator de que a mídia brasileira é constituída de oligopólios, ou seja, o poder de controlar o que é ou não divulgado passa pelo crivo particular de poucos conglomerados e entidades privadas, em outras palavras o poder está alocado aristocraticamente e a mídia é nada menos do que o nexo que concentra esse poder funcionando como uma engrenagem mantenedora do status-quo de um sistema que beneficia poucos (consequentemente os proprietários de meios de comunicações e seus aliados econômicos e políticos) em detrimento de muitos, mediante uma dominação que se utiliza da propaganda e do convencimento para influenciar e condicionar as massas.

Michel Foucault (1979) nos ajuda a entender as relações de formação de um discurso tido como verdadeiro pela grande mídia, de forma a constituir uma opinião pública permeada de interesses econômicos e políticos, opinião essa que se fundamenta naquilo que é difundido como verdade pelos grandes meios de comunicação, principalmente por estes construírem seus discursos retoricamente embasados em afirmações pseudocientíficas e científicas, ou melhor, tidas como verdades pelo corpo social. A partir disso podemos argumentar que a formação dos saberes requer que se atente para práticas discursivas e não discursivas e ao funcionamento entrelaçado delas, com efeito, o saber e o poder se apoiam e se reforçam mutuamente numa racionalidade de legitimação (FOUCAULT, 1979).

Consideramos essencial, portanto, pensarmos como a memória do golpe de 1964 e do regime ditatorial que dele se formou foram construídos, do pós-golpe à atualidade, por meio de representações, e sobre quais bases históricas, ideológicas e políticas se sustenta. Afinal, a memória dos vencedores silencia aspectos fundamentais do passado. E é, também, o que está silenciado que nos interessa.

Bibliografia:
CHARTIER, R. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990.
COSTA, S. Contextos da construção do espaço público no Brasil. Novos Estudos, n. 47, 1997.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
MACHADO, R. Introdução. In: FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
SODRÉ, N. W. História da Imprensa no Brasil. 4. ed. Rio de janeiro: MAUAD, 1998.
THOMPSON, J. B. A Mídia e a Modernidade: uma teoria social da Mídia. 2. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

[1] Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/03/1433004-editorial-1964.shtml

[2] Disponível em: http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,meio-seculo-depois-imp-,1147202

[3] Disponível em: http://oglobo.globo.com/opiniao/para-nunca-mais-se-repetir-12022298


Foto: Arquivo pessoal do autor

  Gabriel Papa Ribeiro Esteves: Doutorando do Programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (Unesp), mestre em Ciências Sociais pela mesma instituição, onde graduou-se bacharel e licenciou-se em Ciências Sociais. Tem experiência nas áreas de Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Teorias Sociais, História, Cultura e Sociedade. Atua principalmente nos seguintes temas: memória, identidade, eleições, mídia e ditadura civil-militar brasileira. E-mail: gabrielpapa@icloud.com - gabriel-papa@hotmail.com