21/08/2020

Ler e contar histórias na infância

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21/08/2020 - Por: Karin Cozer de Campos

Ao pensar sobre o papel das histórias na infância, lembrei-me de uma passagem de um conto de Eduardo Galeano que se tornou um clássico conhecido por muitos. O pai leva o filho para conhecer o mar. O menino, ao ver aquela imensidão pela primeira vez, ficou emudecido de emoção e quando finalmente conseguiu falar, pediu ao pai “me ensina a olhar”.

Esse conto é um convite para pensar sobre como as histórias são para a criança, ou seja, assim como o mar, são uma imensidão de possibilidades de experiências que podem ser expressas à criança pela voz, pelo gesto e pelo olhar de alguém que conta, pela imaginação infantil a qual cria suas próprias imagens no pensamento, pelo livro e até mesmo pelas letras de cantigas infantis, que muitas vezes também contam histórias e são consideradas um dos primeiros contatos da criança pequena com narrativas, por exemplo, as cantigas de ninar.

Nessa relação entre as histórias e a infância, para a criança fica o desejo e a constatação de que é preciso que alguém lhe ensine a olhar as histórias, uma vez que a necessidade e o prazer pelas histórias precisam ser trabalhados e desenvolvidos com as crianças.

A partir da minha experiência como professora de crianças pequenas e como contadora de histórias e, de modo especial, pelas pesquisas que venho desenvolvendo há mais de 10 anos sobre essa temática, aponto que todas as experiências que a criança vivencia com histórias e com a literatura infantil de modo geral são significativas para sua formação.  

Ressalto que o hábito, a necessidade e o prazer pelas histórias precisam ser desenvolvidos junto às crianças desde o ambiente familiar. Isto é, precisamos ensiná-las como se olha uma história. Mesmo que a escola tenha essa atividade muito presente em suas práticas desde a educação infantil, ter em casa contato com histórias é muito significativo, pois, a criança ao ouvir ou contar uma história, está inserida num contexto que envolve, tanto dela quanto do adulto que participa da experiência, um vínculo afetivo sempre imbuído de atenção, disponibilidade e cuidado.

As histórias na infância, tanto no ambiente familiar quanto no escolar, lembram alguém (pais, familiares, professores ou crianças) contando histórias com o uso de um livro ou histórias contadas livremente de cabeça, algumas vezes até inventadas. Essa experiência é certamente muito rica na formação da criança, quando o adulto ou uma criança mais experiente serve de referência para inseri-la na cultura oral e escrita.

O uso do livro é muito importante para a criança, principalmente para as que estão iniciando uma relação com a linguagem escrita. Visualizar o livro (as imagens) e poder ouvir a voz do narrador durante a leitura da história é exemplo de práticas importantes e necessárias no cotidiano dela. Ter um leitor como referência é fundamental na sua formação inicial. Contar uma história com o livro trata-se de outra vivência para a criança, lembrando ainda a importância de poder ampliar as suas experiências, nesse caso, a imagem (ilustração) do livro torna-se muito significativa nesse processo.

Durante a “narração livre”, como chama Gilka Girardello, uma pesquisadora de referência sobre esse tema e também contadora de histórias, o narrador utiliza somente a memória, o corpo e a voz. Nessa experiência de a criança ouvir a história sem a presença do livro é possível ela criar (imaginar) suas próprias imagens, um processo que enriquece as experiências dela e seu processo imaginativo. Com relação a isso, é importante que quem estiver contando uma história à criança explore ao máximo os detalhes da narrativa para ampliar as possibilidades de criação e visualização das imagens pela criança, por exemplo, a descrição das cores, formas, tamanhos, o lugar, as pessoas, entre outros detalhes da narrativa.

O indicado é proporcionar a ela os dois momentos: a narração com o livro ou com outros recursos e a “narração livre”. Isso pode ser realizado com a mesma história, o que é muito importante para a criança, pois esta pode comparar suas imagens (imaginadas-criadas) com as ilustrações do livro ou até mesmo com as imagens do filme da história, por exemplo. Por isso, as duas experiências são importantes para a criança (a “narração livre” e com o uso do livro), de modo que ela também possa ter a experiência com um leitor que lhe apresente uma boa leitura.

Por outro lado, enfatizo, quanto mais simplicidade e espontaneidade haver ao se contar uma história, mais verdadeira e significativa será a experiência à criança. Quanto mais contamos histórias, mais vamos aperfeiçoando a prática de narrar, e para ela, quanto mais conhece histórias, ouvindo, lendo ou vivenciando, mais histórias terá para contar.

Outra consideração importante nesse processo de ler e contar histórias na infância é a seleção das narrativas, a qual deve ser coerente aos interesses  predominantes da faixa etária. Enfatizo que um dos critérios para a seleção da história deve ser, sobretudo, a qualidade literária do texto, sua originalidade e se contribui para o desenvolvimento da imaginação infantil.

A autora Betty Coelho apresenta alguns indicativos orientadores para a escolha de uma história, e indica que para as que têm até 3 anos (fase pré-mágica) são sugeridas histórias de bichinhos, brinquedos, objetos, seres da natureza (humanizados) e histórias de crianças. Para as de 3 a 6 anos (fase mágica) são indicadas histórias de repetição, acumulativas e histórias de fadas. Já para o grupo dos “escolares” (7 a 10 anos em diante), a autora indica histórias que envolvam crianças, animais, encantamento, aventuras, histórias de fadas (dependendo o grupo com enredo mais ou menos elaborado), fábulas, mitos e lendas, histórias com humor, que sejam vinculadas à realidade das crianças e que explorem invenções (COELHO, 1994).

Na mesma perspectiva, apresento outros indicativos importantes sobre como aproximar as crianças com as histórias (o livro e a leitura) durante a infância, especialmente as pequenas. Trata-se de um estudo organizado por pesquisadores que discutem algumas especificidades relacionadas às crianças de 0 a 6 anos. Filho, Kaercher e Cunha (1998, p. 42-67) indicam que:

Do nascimento até os 6 meses é a fase de sensibilização para o contato com o objeto-livro. Sugere-se livros de borracha, infláveis e coloridos, com imagens e formas diferenciadas que possam inclusive ser explorados durante o banho.

Dos 6 meses a 1 ano, indica-se além dos livros de banho, os livros de pano com gravuras grandes agrupados num mesmo eixo temático (animais, objetos, paisagens etc.) com poucas palavras e sem uma sequência narrativa. Para uma maior interação, esses materiais podem oferecer algum tipo de som, por exemplo, de animais. Ainda, os livros de papel (ou papelão) mais resistentes.

De modo geral, para a criança de 0 a um 1 e meio, são sugeridos também livros que contenham agrupamentos temáticos (ex: animais, frutas, casa, objetos etc.) e que ainda não desempenham um papel narrativo, mas que apresentem uma sequência de gravuras ou imagens sem ter como objetivo específico contar uma história.

Entre 1 e 2 anos inicia-se uma nova fase de desenvolvimento, em que o livro também precisa ser adaptado com novos formatos (de casa, animais, objetos conhecidos), com texturas macias e agradáveis, com dobraduras, possibilidades de abrir e fechar, amarrar, desamarrar, esconder, achar, entre outras.

De 3 a 6 anos, sugerem-se as histórias com enredo breve, com linguagem simples e que explorem a sonoridade das palavras. Enredos que envolvem lobos, bruxas e fadas. Também a poesia com versos curtos e com rimas. Letras de músicas para explorar, além da melodia e do ritmo, a história que a letra da música conta, antes mesmo de cantá-la.

Esses indicativos são apenas sugestões para orientar a escolha de uma história para a criança, no entanto, é importante considerar que cada criança tem suas características de desenvolvimento e que estão muito relacionadas ao ambiente social e cultural onde está inserida.

Por fim, retomo novamente um trecho do conto de Galeano, “me ensina a olhar”, e ressalto que assim devem ser nossas práticas com as histórias que apresentamos às crianças. Isto é, ensiná-la a olhar as histórias e absorver as melhores experiências. Tais experiências que devem vir com gratuidade e sem a exigência de ter que depois fazer explicações sobre o que a história significou. A experiência da história é para cada um guardar no coração e manifestá-la de seu modo, e as crianças o fazem muito bem, uma vez que falamos de arte, linguagem e infância.

Referências

COELHO, B. Contar histórias. Uma arte sem idade. São Paulo: Editora Ática, 1994.

FILHO, G. A. J.; KAERCHER, G. E.; CUNHA, S. R. V. Convivendo com crianças de zero a seis anos. In: CRAIDY, C. M. O educador de todos os dias: convivendo com crianças de 0 a 6 anos. Porto Alegre: Mediação, 1998.

GIRARDELLO, G. Voz, presença e imaginação: a narração de histórias e as crianças

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Sobre o autora: Karin Cozer de Campos é Doutora e Mestre em Educação, graduada em Pedagogia, professora do curso de graduação em Pedagogia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).  Integrante do Grupo de Pesquisa Educação, Criança e Infância (GPECI -UNIOESTE) e do Núcleo de Infância, Comunicação, Cultura e Arte (NICA -UFSC). Tem experiência na área da Educação Infantil, Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Formação de Professores. Pesquisa, principalmente, os seguintes temas: narração oral de histórias, infância, cultura, Literatura Infantil e formação de professores.