26/08/2020

Todo sofrimento merece atenção!

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26/08/2020 - Por: Angela Maria Corrêa Gonçalves

Os transtornos depressivos constituem um problema de saúde pública devido à sua alta prevalência e impacto psicossocial e, segundo a Organização Mundial de Saúde, será a doença mais comum no mundo em 2030.

Porém ressalta-se nos serviços de saúde uma dificuldade para distinguir entre depressão, a doença, e tristeza, o estado de ânimo.

No entanto o que faz uma pessoa ao perceber-se triste, culpada, desanimada? Em geral, é uma combinação de diversos fatores que vão determinar o diagnóstico. A grande maioria das pessoas, então, recorre à “pílula da felicidade”, pois querem na verdade amortecer esse sofrimento.

Distinguir depressão de tristeza parece ser uma tarefa difícil. Constata-se que há um preconceito diante desse diagnóstico, o que leva a crer que esse seja o motivo de as pessoas não buscarem tratamento.

            Os comentários pejorativos desqualificam o portador de depressão, pois são um sinal de fraqueza, acreditando-se que o indivíduo é capaz de superá-los por conta própria, sem necessitar de ajuda profissional. É importante destacar que há diferença entre a tristeza comum, que vem em resposta a um evento estressor, e a típica de indivíduos deprimidos.  

Muitas vezes alvo de chacotas, a depressão acaba sendo um tema de pouca relevância entre os familiares e amigos, mas que pode trazer consequências drásticas, por exemplo, a vontade expressa de morrer. A vida deixa de fazer sentido, o que pode interferir até mesmo no autocuidado e na negligência da aparência. Na depressão, o sentimento é contínuo e não alivia com a ajuda de outros.

No tocante à tristeza, há que se considerar que é um sentimento intrínseco ao ser humano e que todas as pessoas estão sujeitas a ela.

Cabe destacar que a tristeza normal – que pode ser intensa – é uma resposta natural a um acontecimento real como perda, derrota, desapontamento e outras adversidades, que não impedem de o indivíduo realizar suas atividades cotidianas, e tende a desaparecer com o tempo ou quando a causa for removida. É um sentimento rico, que dá à pessoa muitas informações sobre ela própria as quais são importantes para o seu desenvolvimento. Nessa perspectiva, “medicar a tristeza” pode levar a tratamentos injustificados, medicalização desnecessária e estigmatização, roubando do indivíduo o tempo indispensável para superar seu sofrimento.

Nesse contexto, a medicação surge como solução que produzirá apenas resultados paliativos, porque não decodifica os verdadeiros problemas que causaram o mal-estar.

Não se trata de rejeitar todo e qualquer uso de psicofármacos, visto que são inegáveis alguns de seus efeitos positivos, e é oportuno lembrar que o sofrimento traz graves consequências à saúde física e mental.

Em relação ao diagnóstico de depressão, os pacientes podem ter preconceito e descrença em relação ao tratamento; já os médicos podem apresentar dificuldades por falta de treinamento, falta de tempo, descrença em relação à efetividade do tratamento, além de reconhecimento apenas dos sintomas físicos da depressão.

A confusão com outros possíveis diagnósticos como quadros ansiosos ou reações de ajustamento, assim como o não seguimento do caso para reavaliação, é fonte de equívocos possibilitando o aumento do erro diagnóstico.

Todo sofrimento merece atenção! Há que se considerar que no atual sistema de trabalho, em que se exigem metas e determinado número de consultas a serem realizadas, é bem mais difícil estabelecer vínculo com os usuários, pois isso demanda tempo, qualidade de atendimento e não consultas de dez minutos.

Torna-se fundamental compreender as aproximações e afastamentos, no vivido psíquico, entre indivíduos que sofrem de depressão clínica e tristeza, intensa ou não, assim como outros diagnósticos.

Conclui-se que uma das razões para a confusão entre tristeza e depressão está relacionada ao fato de que os sintomas são semelhantes e o tratamento é muitas vezes praticamente o mesmo.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Tristeza ou depressão: Do que sofrem as mulheres? publicada pela Editora Appris.


 

 

Sobre o autora: Possui doutorado em Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestrado em Enfermagem pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), graduação em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Trabalhou por 18 anos em hospital psiquiátrico feminino. É professora associada da Universidade Federal de Juiz de Fora, atuando na Faculdade de Enfermagem, nas disciplinas Enfermagem em Saúde Mental e Práticas Educativas em Saúde.