27/08/2020

Experiência, Cinema e Tecnologia

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27/08/2020 - Por: Júlio de Souza Santos

No contexto de Pandemia da Covid-19, evidencia-se a intensificação da “experiência” do uso de Tecnologias da comunicação e da informação, sobretudo, em virtude dos desdobramentos de medidas voltadas para o isolamento social. Em meio a essa “experiência”, as redes sociais, que já promoviam novas formas de interação social e virtual antes da atual conjuntura pandêmica, também foram potencializadas sem precedentes.

Dessa forma, ao vivenciar essa “experiência” de utilização ampliada dessas tecnologias e redes sociais, fui instigado a vasculhar “coleções” de minhas “memórias” sobre experiências vividas com o cinema na interface com a temática da tecnologia, moldando-se em narrativas que buscam contribuir para reflexão sobre problemáticas vivenciadas nesse atual cenário tecnológico.

No período em que cursei graduação em geografia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), vivi uma experiência tocante com ideias do geógrafo britânico David Harvey, através do livro “A Condição Pós-Moderna”. Neste livro, tive o prazer de ser apresentado ao filme Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982). Segundo Harvey (2008, p. 277): “A história de Blade Runner se refere a um pequeno grupo de seres humanos geneticamente produzidos chamados replicantes, que voltam para enfrentar seus criadores. O filme é situado na Los Angeles do ano 2019 e gira em torno da investigação do “especialista” Deckard, destinada a descobrir a presença dos replicantes e eliminá-los ou retirá-los de circulação (como diz o filme) como um sério perigo para a ordem social”.

Munido de profunda curiosidade, assisti esse filme e logo constatei que os replicantes (andróides) eram semelhantes, ou seja, quase idênticos aos seres humanos, sendo que uma das diferenças residia no fato de que, diferentemente dos seres humanos, os replicantes não possuíam uma “história real”. Assim, uma das cenas do filme que mais me chamou a atenção é também descrita por Harvey (2008, p. 280): “Rachel, a mais sofisticada replicante, tenta convencer Deckard de sua autenticidade como pessoa (depois de suspeitar que Deckard percebera seus outros artifícios) produzindo a fotografia de sua mãe e uma garotinha que diz ser ela”. Nessa toada, ao considerar a perceptiva análise da estética pós-moderna de Giuliano Bruno, Harvey (2008, p. 280) afirma: “as fotografias são feitas agora como prova da história real, pouco importando que possa ter sido a verdade dessa história”. Desse modo, percebe-se que a eventual história do replicante é reduzida à imagem.

A experiência com esse filme me levou a refletir sobre possíveis similaridades entre os replicantes e perfis de redes sociais na contemporaneidade. Nessa era da imagem e da informação, os referidos perfis, que privilegiam as fotografias e outros tipos de imagens, geralmente desvinculadas de “histórias reais”, possuem semelhanças com os seus proprietários, porém caracterizam-se como criações predominantemente alienadas de tradições, histórias e experiências verdadeiramente vividas e compartilhadas. Assim como os replicantes, essas criações virtuais são tão semelhantes aos seus proprietários que acabam por ser confundidas com eles, tornando-se difícil a diferenciação.

Assim, artifícios usados pelos replicantes para não serem descobertos por investigadores no filme Blade Runner – O Caçador de Andróides, como o silêncio, consistem em pistas para diferenciar perfis de redes sociais de seus proprietários. Mas de que silêncio estamos falando, considerando que vivemos em um contexto marcado pelo excesso de informação? Para dialogar com essa questão, torna-se necessário discorrer brevemente sobre o conceito de experiência, na perspectiva do filósofo judeu alemão Walter Benjamin.

De acordo com Benjamin (1989), a experiência apresenta o caráter coletivo, funda-se na arte de narrar e é transmitida de pessoa para pessoa, ou seja, a experiência diz respeito ao mundo das tradições, enquanto a vivência consiste na “experiência” vivida de forma solitária pelo indivíduo isolado.

Considerando essa perspectiva teórica, Benjamin (1994) afirma que as experiências estão em baixa e a arte de narrar está em vias de extinção na modernidade, uma vez que as pessoas não sabem narrar devidamente. Nesse sentido, esse autor relata que os combatentes voltaram silenciosos da Primeira Guerra Mundial (então Grande Guerra), em virtude das experiências desmoralizadoras, ou seja, voltaram pobres em experiências comunicáveis, com limitações na arte de narrar.

Associado às narrativas compartilhadas, recordo-me que venho há um certo tempo vivenciando uma “experiência” de “incômodo”, ao assistir determinados filmes do gênero de ação e suspense, porém não encontrava um sentido por esses filmes gerarem tal sentimento. Com o passar do tempo, passei a ficar mais atento e percebi algo em comum entre esses filmes: a existência de um personagem protagonista desumanizado e praticamente “sem história”.

Um filme que exemplifica o que estou narrando intitula-se “Assassino a Preço Fixo” (2011), uma refilmagem do filme homônimo de 1972. Nesse filme, Arthur Bishop é um assassino profissional de elite e vive solitariamente em uma casa de campo.  No enredo do filme, evidencia-se a presença de um personagem inteiramente desapegado com o passado e sem família.

Portanto, constata-se que a existência de Bishop está determinada pelo momento de duração do filme, pois o mesmo apresenta uma relação quase inexistente com o passado e dificilmente se extraem experiências compartilháveis nessa vivência de entretenimento.

Caro leitor, a partir dessas experiências com o cinema, evidenciamos que os desafios para a superação da pobreza de experiência e para a potencialização do narrador, perpassam pela reflexão sobre as dimensões da imagem e do silêncio, bem como pela ressignificação do uso de Tecnologias da informação e da comunicação e redes sociais para o compartilhamento de experiências.

Referências

ASSASSINO a Preço Fixo. Direção de Simon West. Los Angeles: Millennium Films, 2011.

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Obras Escolhidas; v. 3).

_____. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras Escolhidas; v.1).

BLADE Runner – O Caçador de Andróides. Direção de Ridley Scott. Burbank: Warner Bros, 1982.

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Edições Loyola, 1989.


Júlio de Souza Santos é doutor em Educação pela Universidade Federal do Espírito (UFES), professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória e autor do livro Experiências Geográficas e Educação, publicado pela Editora Appris em 2018.