31/08/2020

Andejo do andaço

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31/08/2020 - Por: Marcelo Guidi

Às vezes, o futuro se torna mais incerto, mais sombrio, mais inseguro. Às vezes, sabe-se pouco sobre “aquilo que está por vir”. Mesmo quando a rotina parece garantir um futuro seguro, nem sempre essa ilusão prevalece. De repente, tudo pode mudar. O tempo fecha, as nuvens se avolumam e os relâmpagos nos lembram, por seu brilho e por seu estrondo, de nossos medos mais arcaicos. Uma visita inesperada carrega sempre a marca de uma contingência. A surpresa pode afetar os hábitos de um indivíduo, de uma comunidade, de uma nação. Ser surpreendido é ser deslocado de seu eixo, de sua trivialidade, de sua aparente estabilidade. A emoção é a resposta mais imediata. Cada um reage de um jeito, mas ninguém passa indiferente a qualquer espanto.

Enquanto nas grandes cidades prevalece o imaginário da seguridade social ou o desejo de adquiri-la; o mesmo não acontece fora dela. Para mais além das pradarias, nas florestas, nos desertos, nos mares e nas montanhas a presença humana é minoria. E a natureza lá, reina sob outras leis. É sob o imaginário de diversos perigos e desafios que surgem todas as espécies de estórias, contos e mitos. Lendas distantes de heróis em suas jornadas para a conquista de donzelas e/ou grandes tesouros. Essa época passou. Mas o espírito desse imaginário sobreviveu e ganhou força no homem moderno (e anônimo) quando ele decidiu partir em busca de lugares inóspitos. A experiência de aventura estava lançada na história. Assumida por poucos, mas depois praticada por várias pessoas, a aventura virou esporte e se popularizou como lazer e turismo.

Homens e mulheres comuns, no seu tempo livre, começaram a partir em direção à montanha, enfrentando, às vezes, um desafio que parecia insano. Experiência de aventura na natureza. Eles estão equipados, mas não podem prever, “aquilo que está por vir”. O risco existe, o perigo é iminente, mas algo no cume lhes chama a atenção. Uma prática nova, para uma história antiga. Arquetípica? Ao tentar reescrever com o corpo a metáfora de uma epopeia, o indivíduo se lança a um caminho inesperado. O que ele busca?

Aquilo que afeta o homem em seus momentos mais sombrios pode fazê-lo buscar saídas nos lugares mais inóspitos (de si mesmo?). A coragem é inevitável, mas, às vezes, é também o próprio perigo. A jornada pode conter elementos de uma experiência sagrada, mas, segundo uma testemunha, somente se a caminhada se equivale a uma oração. “Profundo é aquilo que se encontra no cume”, disse alguém. Mas não apresse a prece, porque a visita inesperada não habita somente os vales sombrios ou as gargantas profundas dos desfiladeiros. Os abismos são só uma metáfora para “aquilo que está por vir” e que sempre nos deixará: abismados.

Conheça a obra do autor: Psicologia da Aventura: O Numinoso na Natureza Examinando os Livros de Montanha 


Sobre o autor: Psicólogo, especialista em Psicologia Analítica e do trabalho e estudioso da Psicanálise. Dedica-se, desde a graduação (2000), a explorar os aspectos psicológicos das experiências de aventura na natureza. Entusiasta da vida ao ar livre, já percorreu a travessia de Serra Fina e o Caminho de Santiago de Compostela, além de outros.