01/09/2020

Museu: etnicidade, representação e fronteiras

Tags: BLOG

01/09/2020 - Por: Nila Rodrigues Barbosa

O estudo acerca da representação de minorias em museus tem se demonstrado profícuo para a produção crítica em museologia e em estudos de processos museais, com ênfase na educação e acervos. Museus, em seus procedimentos técnicos, planos museológicos e atividades educativas costumam não considerarem a etnicidade. Talvez pelo fato de a etnicidade ser um conceito que não aparece sistematizado para o patrimônio cultural até os dias atuais.

Entendemos que, basicamente, etnicidade diz respeito à classificação, de si mesmo e dos outros, seja do ponto de vista subjetivo ou coletivo. Envolve identidades, e estas em disputa por representação. E por isso, podem ser contextualizadas em contextos sociais onde fronteiras podem ser observadas.

Elementos de etnicidade são abordados em temas como representação de diferenças e minorias, por exemplo. Porém, isso não diz respeito à cultura, mas, preponderantemente, diz respeito à política. Portanto, a política de representação é importante no estudo de museus e de etnicidade. Por causa destes estudos e tentando fazê-los dialogar entre si, pode-se verificar, na prática e estratégia dos museus, a despeito da vontade da gestão, das intenções legítimas e objetivos de sua criação, o erguimento de fronteiras junto ao público multifacetado com o qual lidam cotidianamente.

No Brasil, a criação de museus data de muito tempo e sempre foi a preocupação de Estado e alguns atores sociais coletivos ou individuais. A criação de museus como representação do nacional pode ser percebida como inerente a institucionalização de um serviço de patrimônio artístico, histórico e cultural como atribuição do Estado a partir de 1937, no Brasil. Porém, a proteção ao patrimônio cultural por intermédio dos museus acrescenta, ainda, o caráter de representação de forma muito mais contundente e imediata. Um museu pode se configurar em um lugar praticado para entendimento e confissão de identidade. Prova disso, a preocupação em reverberar para o sistema de ensino fundamental e médio as suas narrativas. Até os dias atuais, no Brasil a maioria dos museus possuem como público preponderante aquele advindo de escolas. O serviço educativo dessas instituições, frequentemente, se encarrega da mediação com esse público e o fazem com esmero e cuidado.

Porém, nenhum serviço educativo consegue, nem é sua atribuição, afrontar o discurso dos museus particularmente impresso nas suas exposições, de longa ou curta duração. Esse discurso possui uma força convincente, difícil, por vezes, de driblar com uma mediação que comporte em seu fazer a habilidade de encontrar e visibilizar contradições. Mas os museus possuem contradições, e ao verificá-las é possível perceber que elas são inerentes tanto à sua ação, como à sua concepção e institucionalização.

Uma das primeiras contradições que podemos encontrar no ambiente museal é no seu caráter de representação. Um museu criado para representar aspectos da nacionalidade brasileira, por exemplo, no período histórico do século XVIII, pode incorrer na representação de uma realidade social sem a resistência contraposta à violência e sem identidades de raça e gênero em disputa. Enfim, sem os(as) antagonistas contrapostos aos heróis e figuras do patriarcado como ícones da representação da nacionalidade no tempo.

Normalmente, se não somos um daqueles que atuam em museus, dificilmente nos atentamos para esses pontos acima colocados, mas possivelmente podemos não nos sentir representados nas exposições museais. É possível, inclusive, que nos sintamos excluídos ou mercantilizados dada a nossa descendência, por exemplo. Se assim nos sentimos, o problema não é nosso e sim da representação que o museu faz de uma nacionalidade que é idealizada, e para sê-lo chega a racializar, patriarcalizar, exclusivizar sua compreensão do social que representa.

Museus podem criar fronteiras em seus processos e discursos. Uma representação que evita contradições, explicita preferências, segue o ritmo de uma história única, não aborda a resistência como inerente aos processos de opressão e violência, não denuncia racismos, machismos, fascismos e outros males sociais. Simbolicamente, diz ao seu visitante não representado, obliterado, estigmatizado, esquecido, que o seu lugar não é ali, tanto no museu como na sociedade ou processo histórico representado. Reproduz o sistema opressor ao invés de afrontá-lo e contribuir para a justiça social.

Os movimentos sociais estão a colocar para os museus o desafio de identidades ainda não representadas ou sub-representadas em seus acervos, exposições e discursos. Nenhum museu pretende se esquivar desta discussão. Nesse sentido, constitui-se um bom exercício intelectual e ativista revisitar as origens dos museus e a sua constituição de identidades para reinventarmos novas formas de reconhecimento, representação e proteção que abarque nossa diversidade e nossa possibilidade de criação humana e societária.

Acesse a obra: Museus e Etnicidade - O Negro no Pensamento Museal


Sobre a autora: Mestre em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA).
Historiadora e pesquisadora do patrimônio cultural.


lattes: http://lattes.cnpq.br/0475668774676014

Instagram: https://www.instagram.com/nilarodriguesbarbosa/

Facebook: https://www.facebook.com/Nila.Rodrigues.Barbosa

Site: https://independent.academia.edu/NilaRodriguesBarbosa/Analytics/activity/documents

E-mail: nilapc2003@yahoo.com.br