24/09/2020

Experiência, Cinema e Conhecimento

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03/09/2020 - Por: Júlio de Souza Santos

Na contemporaneidade, evidencia-se a recorrente discussão sobre as diferenças entre informação e conhecimento. Considerando que não tenho a pretensão de contribuir para essa visão dicotômica, prefiro discorrer sobre essa problemática, sobretudo, a partir de minhas experiências vividas com o cinema.

No filme Meia-Noite em Paris (2011), uma cena em que o personagem Gil Pender está visitando o Museu Rodin, na “Cidade Luz”, juntamente de sua noiva e um casal de “amigos”, marcou-me profundamente. Nesta cena, a guia do museu, personagem vivida pela cantora e ex-primeira-dama da França, Carla Bruni, está discorrendo sobre a escultura O Pensador, de Auguste Rodin, quando é interrompida por Paul, amigo da noiva de Pender, o qual afirma que muitas obras de Rodin foram inspiradas pela sua esposa, Camille Claudel. De forma elegante, a guia confirma a informação de que Camille inspirou o famoso escultor, porém ressalta que ela não era esposa de Rodin, mas amante. Paul não concorda com essa afirmação, porém a guia afirma que estava muito segura sobre o que havia dito. Assim, constatamos a existência da personagem especialista, que consiste naquela que possui conhecimentos especializados; e do personagem pedante, que se caracteriza como o sujeito ostentador de conhecimentos e pseudoconhecimentos.

Além disso, Meia-Noite em Paris nos reserva uma outra cena em que Gil Pender, a sua noiva e o casal de “amigos” estão diante de um quadro do pintor espanhol Pablo Picasso no Museu da Orangerie, na cidade do poeta francês Charles Baudelaire. Nessa cena, Paul mais uma vez exibe os seus conhecimentos ao falar sobre essa obra, quando subitamente é interrompido por Pender, o qual traz outra visão sobre o quadro a partir de uma experiência (fantasiosa) vivida por ele com o próprio Pablo Picasso e a escritora estadunidense Gertrude Stein na década de 1920. Desse modo, além da presença da especialista e do pedante, constamos também a emergência de uma terceira figura nesse filme. Trata-se do narrador, aquele que vive e compartilha experiências.

Após um certo tempo, vivi uma experiência singular com uma cena incrível do filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977). Nessa cena, o personagem Alvy Singer está na fila do cinema com a sua companheira, Annie Hall, sendo que atrás deles há um homem que fala alto com a sua acompanhante sobre diversos assuntos, ostentando supostos conhecimentos, inclusive sobre a teoria do filósofo canadense Marshall McLuhan.

Diante disso, Alvy Singer, que já estava extremamente irritado com a situação, vira-se para o espectador, quebrando a quarta parede, e pergunta: “Que é que se faz quando se fica entalado na fila do cinema com um cara destes?”. Ao perceber isso, o sujeito pedante sai da fila, caminha também em direção ao espectador e questiona: “Mas não posso dar a minha opinião? Isso é um país livre.” Então Singer responde com indignação: “Tem de ser tão alto? Não tem vergonha de se expor assim?”. E o mais engraçado é que não faz ideia nenhuma do que diz o McLuhan”. Em seguida, o sujeito da fila exibe o seu currículo acadêmico: “Eu lecionava em Columbia sobre ‘TV, Mídia e Cultura’. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Diante da irredutibilidade do pedante, Singer afirma: “Ah, acha? Engraçado, porque tenho aqui o sr. McLuhan”.

De repente, algo surreal acontece. Alvy Singer busca o filósofo Marshall McLuhan em pessoa, que estava atrás de um cartaz, e o chama para esclarecer a situação. Então, o filósofo declara de forma contundente para o sujeito pedante, que escuta atônito: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. Considera que toda a minha falácia está errada. É espantoso que deixem lecionar uma cadeira do que quer que seja”. Satisfeito com o desfecho, Singer se dirige para o espectador e diz: “Se a vida fosse assim!”.

Depois de assistir essa magnífica cena, vivenciei outra experiência surpreendente ao assistir uma aula espetáculo realizada pelo escritor brasileiro Ariano Suassuna, quando o mesmo descontrói ideias do filósofo Marshall McLuhan. Segundo Suassuna, uma pessoa disse para ele parar de escrever, porque McLuhan havia provado que a televisão tinha tornado o livro ultrapassado. Então, Ariano perguntou para essa pessoa: “Você tomou conhecimento das teorias de McLuhan como?”. E a pessoa respondeu: “Ele escreveu um livro”. Em seguida, Suassuna afirma de maneira enfática: “O sujeito para dizer que o livro é ultrapassado, escreve um livro. Por que ele não sustentou num programa de televisão? É porque ele sabe que a televisão é efêmera e o livro fica se prestar. Daqui há vinte anos ninguém vai saber mais quem é McLuhan e Cervantes vai continuar, e Dostoiévski vai continuar”.

Considerando que também não pretendo estabelecer uma suposta verdade absoluta nesse suposto conflito entre ideias de McLuhan e Suassuna, busco dialogar com essas experiências a partir de reflexões do professor alemão Bernhard Fichtner (2012) sobre o conhecimento. Para esse autor, a perspectiva de união entre conhecimento científico e a pessoa é fundamental numa sociedade moderna marcada pela separação entre atitude pessoal e o conhecimento, pela experiência linear com o conhecimento, bem como pela redução do conhecimento às formas técnicas, máquinas e sistemas de instrumentos que se podem imediatamente usar e usufruir.

Por outro lado, para não reproduzir a lógica de reprodução e transmissão de conhecimentos e pseudoconhecimentos nessa narrativa, destaco que no encontro pessoal com o professor Fichtner, vivi a experiência com um modelo vivo da união entre as atitudes dele e o “seu” conhecimento, ou seja, conheci aspectos de sua “essência” enquanto pessoa e não apenas a sua obra alienada de sua vida.

Fino leitor, acredito que viver e compartilhar experiências podem nos tornar modelos vivos da união do conhecimento com a atitude pessoal, na perspectiva de superação da prática de ostentação de conhecimentos e pseudoconhecimentos desvinculados daquilo que “somos” enquanto pessoas. A vida pode ser assim.


Júlio de Souza Santos é doutor em Educação pela Universidade Federal do Espírito (UFES), professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Campus Vitória e autor do livro Experiências Geográficas e Educação, publicado pela Editora Appris em 2018.