04/09/2020

O cego sou eu?

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04/09/2020 - Por: Rosemari Silva da Veiga

Meu sonho não é utopia. Sonho ainda com uma educação que tome distância da escola tradicional excludente e se aproxime de um novo modelo educacional no qual o respeito às diferenças e às necessidades educacionais de todos sejam atendidas.

Assim, esse sonho marca encontro com novas expectativas, em que os profissionais da educação possam estar preparados para responder a essas demandas, aos objetivos e aos compromissos de uma educação para com a construção da escola inclusiva de qualidade.

Bom! Se cabe a todos nós auxiliar os alunos com Deficiência Visual a desenvolverem outras habilidades e sentidos remanescentes, teremos que ter bem claro que devemos dar suporte e auxiliá-los na construção de novos conhecimentos, facilitando a interação com os outros e deixando-os mais independentes e autônomos, diante de sua escolarização.

Para que tudo ocorra de forma eficaz, devemos estar inteirados no que diz respeito aos avanços tecnológicos como as novas metodologias de ensino, oportunizando o aprendizado e, sobretudo, permitindo-lhes uma condição de vida mais independente, proporcionando ao aluno uma aprendizagem prazerosa e significativa.

Mas! Quem é o cego? Ironizo ao iniciar este texto questionando o leitor: “O Cego sou eu?”. Faço isso para que, com um dedo na consciência, possamos fazer a transformação quando nos referimos ao termo “deficiência” e transformar em (d)eficiência. Às vezes, não queremos enxergar aquilo que dificulta e pede mais atenção em nosso planejamento amarelado de anos a fio, quando em nossa classe encontramos um aluno com deficiência e que nos desestabiliza. Preferimos a mesmice que nos acomoda do que ter que recorrer na busca de novas metodologias. Nesse caso, continua a questionar: “Quem é o cego?”.

A nossa cegueira vai desde a perda parcial da “visão”, quando apresentamos apenas reflexos da inclusão e, de vez em quando, lembramos que temos que atender aquele aluno que precisa de atividades diferenciadas, até a ausência total da “visão”, já que não queremos enxergar, preferimos repetir insistentemente que as aulas serão iguais para todos.

Sabemos que o mundo está cada vez mais visual. A mídia está focada nas imagens e vídeos reduzindo consideravelmente o uso de palavras e a quantidades de textos.

E o cego, como fica? O mundo está preparado para tornar seus conteúdos acessíveis para a sua diversidade de usuários?

Quando falo “mundo” refiro-me de modo especial à escola. Que não fique só no slogan de “Uma escola para Todos”. Tenho que aproveitar este texto e revelar que a escola ainda busca esse cenário. É necessário descrevermos nossas experiências com a inclusão para que possamos transmitir informações relevantes, e assim contribuir para que as mudanças sociais ocorram.

Todavia, acredito que a busca por informações experienciais torna-se um recurso que poderá auxiliar na promoção da inclusão, contribuindo para clarear definições de acessibilidade, igualdade e autonomia, podendo, assim, constatar que a teoria e a prática são diretamente impactadas pelas barreiras de acesso da exclusão.

Por fim, essa busca de informações contribui para fortalecer a inclusão para todos! Nessa procura por soluções, a preocupação com a educação inclusiva ocupa um lugar de destaque na tarefa de responder adequadamente a essa demanda social.

Existem também motivos de ordem prática para me dedicar a essa questão. Trago comigo a experiência de me dedicar ao atendimento com PCD em condição de vulnerabilidade, e dentro de limitações que remetem ao fato de uma percepção de um universo cultural que está construído em função de um padrão de normalidade e por sua vez, cria barreiras físicas, educacionais e atitudinais para a participação social e cultural da pessoa com deficiência.

Isso causa formas de segregação social, e principalmente educacional, com base em uma noção da proposição de formas de ensino centradas nos limites intelectuais e sensoriais que resulta na restrição das suas oportunidades de desenvolvimento. Cria-se, assim, um círculo vicioso no qual, ao não acreditarmos em suas capacidades de aprender, não lhe ofertamos condições para superarem suas dificuldades. 

Cumpre ressaltar, contudo, que não se trata de afirmar que uma função compense outra prejudicada ou que a limitação numa parte do organismo resulte na hipertrofia de outra. Pensamos numa reação do sujeito diante da deficiência, no sentido de superar as limitações criando oportunidades para que a compensação social efetivamente se realize de modo planejado e objetivo, promovendo o processo de apropriação cultural por parte do aluno com deficiência.

Não obstante, precisamos estar alicerçados em um contexto que favoreça as oportunidades para que o aluno alcance os mesmos fins que o processo educacional das pessoas consideradas normais. Para que isso aconteça é preciso emergir uma séria revisão dos objetivos e métodos da educação em nosso país, envolvendo todos os atores educacionais na proposta de uma sociedade inclusiva que delete, de uma vez por todas, as formas de exclusão que o processo pedagógico produz, valorizando as diferentes formas de mediação pedagógica possíveis.

Pesquisas apontam que 80% de nosso conhecimento baseiam-se na visão. Essa subtração da experiência visual reduz a pessoa cega a uma condição que produz a reestruturação de toda atividade psíquica, conduzindo as funções psicológicas superiores a assumirem um papel diferente daquele desempenhado nos videntes. Essas informações apontam para importantes diretrizes na intervenção junto a alunos com deficiência visual.

Devemos priorizar o desenvolvimento das funções de atenção concentrada, memória mediada, imaginação, pensamento conceitual, canalizando os esforços para a formação de sistemas funcionais que favoreçam ao aluno cego a apropriação do conhecimento e o desenvolvimento de competências que resultem em sua autonomia. Agregando mediante vias alternativas do uso de formas de percepção, tendo por base significações que conferem às sensações corporais e às pistas ambientais um papel diferenciado daquele desempenhado na condição vidente.

Cumpre ainda destacar, além dessas questões, que o objetivo da educação de pessoas com deficiência visual, mesmo por vias alternativas em razão de suas necessidades educacionais específicas, deve ser o mesmo das pessoas videntes.

Atualmente, o excesso de leis e discursos que sustentam a educação inclusiva não esclarece as condições para sua consolidação na prática. Adverte-se que precisamos de pistas concretas para a implementação de experiências educacionais que favoreçam a autonomia e a cidadania das pessoas com deficiência, seu desenvolvimento e participação social, reconhecendo-os em suas especificidades, e não por suas limitações.

Porém, para despertar de um sonho, precisamos sair da estagnação, precisamos desatar muitos nós, desamarrar as amaras reverter conceitos já elaborados. Somar, multiplicar, jamais diminuir. Concretizar.

Não podemos deixar a vida simplesmente passar, precisamos deixar nossas marcas. Sonhar é preciso, mas temos que conquistar, realizar, materializar. A concretização de um sonho advém de um encadeamento entre causa e efeito. A flecha é lançada e atinge o alvo e o sonho vira realidade.

Nossas conquistas são movidas pelo potencial da ação que cada um de nós traz inato e faz modelar. O tom que pintamos depende das cores que escolhemos, os sons que fazem o vibrar que orbitam no campo áurico e nos permitem viajar num impulso refletido em nós mesmos. Jamais perder o brilho. Jamais desistir.

Não! Eu enxergo além da visão. Eu enxergo gente. Gente que se faz gente de direitos e deveres. Somos diferentes sim. Isso nos torna semelhantes. Caminhamos passo a passo e cada um no seu ritmo, fornecendo a vibração necessária e contribuindo para um mundo melhor, criando valores com uma visão para o futuro. Pintamos a nossa tela com as cores que escolhermos.

Conheça o livro da autora: Inclusão: Uma Questão de Atitude.


Rosemari Silva da Veiga é Mestra em Docência Universitária/UTN/BA/Argentina. Psicopedagoga/FACISA. Especialista em Deficiência da Visão pelo IBC/RJ. Pedagoga/URI/São Luiz Gonzaga.