22/09/2020

De verdade, o que significa a palavra amor?

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22/09/2020 - Por: Luciano Lagares

Falar de amor é algo arriscado.  Ou se afunda na pieguice, ou pior, despeja-se o assunto numa ladainha de emoções imaturas e descontroladas. Por isso, resolvi abordar o tema de um modo um tanto imaginativo.

Pois bem, muita gente gosta de flores, não é? Com alguma orientação, escolhe-se um tipo específico, compra-se o vaso ideal, vê-se a terra certa, o adubo (se for o caso); aprende-se como manter a terra úmida, sobre a quantidade adequada de água, e por aí vai. Espera, amor ainda não é isso, mas vamos chegar lá. Vou pular para outro exemplo rápido: animais de estimação. Tá, cuidar de um cãozinho (ou outra espécie de animal) é trabalhoso, tem que dar banho, alimentar, dar água, limpar os cocozinhos (se for pequeno), levar ao veterinário de tempos em tempos, ficar atento às vacinas, enfim, haja amor... Há ainda quem seja devoto dos cuidados da casa, de equipamentos, de livros, de coleções, de sapatos etc. Cuidar, nesse contexto, diz respeito aos exercícios quase constantes de dedicação, certo de que, ao fazê-lo, dá-se aos beneficiados a oportunidade de exibirem suas melhores características. Quando as qualidades únicas dos objetos ou de criaturas são manifestadas, há em nós um forte desejo de que elas permaneçam. Se é flor, que exale cheiro, avive a cor e cresça. Se é a casa, que seja confortável, desejável. Sendo um cão, que corra, pule, fuce a casa atrás de brinquedos, demonstrando altivez e saúde. A forte conexão estabelecida entre ambos, beneficiador e beneficiado, resulta em sentimentos nobres de orgulho, encantamento, afeto, confiança, ou seja, provoca sensações positivas.

E o que dizer das relações entre pessoas? É também possível com o devido esforço extrair a melhor característica de alguém. Qualidades que, por vezes, possam estar escondidas por falta de interesse ou de hábito. Um pouco de atenção já é o suficiente para fazer reluzir um brilho tímido em alguém desacostumado a isso. Vamos dar um outro nome a esse brilho: que tal alegria? É de se admirar como recursos simples fazem resplandecer a alegria, algo como um sorriso, algumas palavras de apoio, gestos positivos (não necessariamente presentes ou extravagâncias), um abraço, e outras coisas mais.

O irresistível desejo de fazer com que as pessoas exalem suas melhores qualidades pode, talvez, ser uma excelente definição da palavra amor. Pois não há necessariamente uma recompensa ou retribuição posterior. Busca-se que outro propague o seu melhor, sem se importar a quem ou a que. Um brilho que muitos vão apreciar. Pense no engano que é quando se ouve dizer que alguém matou por amor.

Há muito que a palavra “amor” tem sofrido desgaste e perda de significado. Não raro, as pessoas expressam seu amor para coisas, um aparelho de celular, um jogo, um filme, um livro, um bolo etc. É possível até entender a analogia, mas o sentido da palavra amor, nesse contexto, manifesta-se como algo egoísta no lugar de altruísta. Nos tornamos amantes do que ou de quem tem a capacidade de nos satisfazer. Afirmações do tipo “eu amo este carro” ou “eu amo esta lasanha” são declaradas abertamente sem que haja o mesmo peso da emoção. É o amor dos porquês, ou seja, motivado por algum benefício.

Amor, quando egoísta, torna a alegria alheia pequena e, por vezes, sem importância. E o exercício de extrair a melhor característica de outros parece cansativo, além de consumir tempo. Sem muito que pensar, descarta-se o sujeito opaco e o substitui por algum que traga alegria de fábrica. A relação estabelecida entre os dois é curta e sem profundidade. Troca-se a flor por uma que viva por mais tempo sem dar tanto trabalho. Prefere-se um animal menos “bagunceiro” e quase independente. Mantém-se perto pessoas úteis, bem-dispostas, que demonstrem alegria por razões alheias, e não pelo meu esforço. Parece ser algo bem prático nesses dias complicados e, se bem o considerar, ninguém ganha nada, mas também não perde.

O que o amor poderia fazer por mim?

Quem sabe este não seja o grande segredo! O amor é manifestado nas atitudes direcionadas a terceiros, por isso é altruísta. Podemos buscá-lo nos confins da Terra, mas ele não virá antes de nos doarmos a quem quer que seja, a quem precise de mais ou de menos amor. Ao oferecer amor estaremos aptos a também recebê-lo, pois sua presença emana brilho, um sinal que desperta admiração e alegria em quem nos rodeia. Quem sabe outras pessoas, ou o seu animal de estimação, ou alguém que você menos espera, estejam se desdobrando agora mesmo para extrair o melhor de você? Nem sempre é fácil permitir, mas é fácil se acostumar, afinal estamos falando de amor, de alegria, o que pode ser mais desejável que isso? Com o devido tempo, pode até se tornar felicidade (outra palavra que sofre perda de significado).

Acesse a obra do autor: A história de cima


 

Luciano Lagares  é artista plástico, ilustrador, diretor cinematográfico e roteirista.