23/09/2020

A constelação familiar e o universo indígena: uma possibilidade de redescobrir e harmonizar nossa história

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23/09/2020 - Por: Vera Lúcia Soares de Araújo

A conjuntura política brasileira apresenta, neste momento, um universo preocupante na questão da preservação do legado antropológico ligado às sociedades indígenas. Depois de um trabalho intenso para garantir os direitos de cidadania na constituição de 1988, continuamos a presenciar o desmonte de conquistas empreendidas com muito esforço, por organizações indígenas e seus apoiadores(as).

O avanço do estado neoliberal ameaça conquistas democráticas essenciais à proteção desses povos e à sua biodiversidade, induzindo, o recuo e o medo em suas organizações.   Notícias veiculadas em jornais e redes sociais registram um cotidiano de desrespeito e violação aos direitos dos povos autóctones. Ameaças de revisão de terras demarcadas, assassinatos de lideranças, retirada de recursos para proteção a saúde, ondas de invasões, queimadas em parques e espaços de proteção ambiental são alguns dos sintomas de uma sociedade doentia e violenta.

Esse fenômeno de violência, que retorna com bastante intensidade, reflete um campo de memória histórico, não muito distante, onde culturas foram dizimadas e a dor insiste em pulsar novamente... O padrão de comportamento se repete de forma quase padronizada. Percebendo a vida tão ameaçada na sua diversidade, surge algumas indagações na dimensão da própria existência humana: Que relação eu tenho com este universo?  Este legado antropológico tem sentido e pode contribuir com seus saberes para a minha dimensão pessoal e para a cultura do século XXI?  Existem abordagens de autoconhecimento que podem facilitar e contribuir com uma tomada de consciência mais profunda a respeito da vida?  Povos indígenas podem tomar a força por si mesmos saindo do lugar da violência? As constelações sistêmicas familiares podem facilitar uma sensibilização e um novo olhar para este processo?

Acredito que uma forma de olhar para isso pode ser, em um primeiro momento, por meio da nossa história pessoal.   Nesse sentido, podemos fazer mais algumas indagações:  quem sou eu? Quais as dificuldades que eu tenho para viver e amar? Quem são os meus ancestrais? Pai, mãe, avó, bisavó...? De onde vieram estas pessoas? Como se deu este encontro ou confronto cultural? Eram indígenas? Vieram como migrantes de outros países? O que acontecia historicamente ali? Guerras? Fome? Catástrofes ambientais? Violências físicas? Violências emocionais? Violências sexuais? Tráfico de pessoas para o mercado de escravos? Qual era o modelo político? Mulheres participavam? Como se dava essa relação de poder? Quem eram as classes trabalhadoras? E a religião?  Houve confrontos e imposição de uma expressão religiosa em relação a outra? O que isso revela no meu corpo físico e emocional? Ao me inserir no mundo do trabalho profissional ou assumindo o trabalho no mundo da política, o que revelo nas minhas ações? Incluo? Excluo? Qual é a minha relação com o corpo da terra? De exploração ou de cuidado?

A constelação Sistêmica Familiar de Bert Hellinger pode nos ajudar a compreender, ressignificar, reconciliar e reconectar com esse campo de memória. De acordo com o autor, nós somos regidos por três leis, que se não observadas, geram desarmonia e sofrimento nas relações.

A primeira lei é a do pertencimento. Todas as pessoas que nascem em um sistema (família... clã) precisam pertencer. Se alguém é excluído ou deixa de pertencer, posteriormente, um integrante daquele sistema pode passar a representar aquela pessoa que foi excluída. É como se estivesse faltado uma peça do “quebra-cabeça” naquele sistema. Isto é feito dentro de uma dinâmica de amor cego, incorrendo em alguma dificuldade pessoal (doença, práticas de atos de violências, dificuldades nos relacionamentos, desejo de excluir, chegando até a emaranhamentos mais profundos, tais como: exploração, assassinatos e vitimização nas mãos de terceiros). Na minha experiência de trabalho com as constelações sistêmicas é muito comum aparecer a dinâmica da violência indígena nas histórias dos clientes. Quando você abre a constelação, lá está a “vó pega no laço”; “A bisavô que enfrentou o confronto da violência contra suas terras e praticou o suicídio”;  “O bandeirante que estuprou a bisavó”; a etnia que foi dizimada, convergindo em doenças graves e em uma sequência de transtornos e depressões para membros posteriores. O alcoolismo que chegou como uma troca de presentes (entre portugueses e indígenas) e se enraizou tão profundamente no sistema familiar, produzindo, envolvendo uma sequência de gerações tomadas pelos vícios lícitos e ilícitos.

 Recentemente, atendi um caso na região norte do país.  Um empresário em uma situação extremamente difícil com sua família, queixava-se de uma falência inexplicável da sua empresa.... Depois de uma escuta refinada e de algumas indagações feitas por mim, ele admitiu com profunda coragem: “Eu venho de um familiar que não aceita perder, confesso que meu avô matou, e eu também tirei alguns índios do meu caminho aqui.” Essa dinâmica feita em uma dimensão pessoal, de acordo com a teoria do CAMPO DA MORFOGÊNESE ou mesmo do estudo da TRANSGERACIONALIDADE, ajuda o ser humano a tomar consciência do seu processo existencial, e de alguma forma, reverbera em todo sistema familiar, conduzindo a pessoa para uma reflexão de seus atos e entendimento do seu estado de espirito.

A segunda lei é a lei da hierarquia.  Aquele que entrou em primeiro lugar em um grupo tem precedência sobre aquele que chegou mais tarde. Isso se aplica para as famílias, clãs e para as organizações empresariais e educacionais.  Os povos originários, de um modo geral, são mais conscientes deste legado. As culturas modernas têm menos consciência deste universo. Vivenciam um dualismo entre saberes tradicionais e a ciência, esquecendo-se de que o conhecimento é acumulativo. Sendo assim, sofrem, não vendo sentido e valor nos conhecimentos e sabedorias dos povos indígenas.

Respeitar a ordem hierárquica ajuda a tomar a força da vida.  Isto é feito de modo especial em relação a quem te deu a vida: mãe e pai. É preciso estar no lugar certo de filho ou filha para fluir.  Viver e deixar viver. Como lei “natural”, quem chegou primeiro tem prioridade, cada membro do sistema tem seu lugar próprio que deve ser respeitado, os mais novos honram a memória dos mais antigos, e os mais antigos dão exemplos e apoiam os mais jovens quando precisam. Bisavós, avós, mãe, pai, primeiro irmão ou irmã são alguns dos exemplos de quem vem primeiro, e precisam estar no lugar certo para facilitar a força do sistema.

 Seguidamente, a terceira lei é a do equilíbrio. Todos devem dar e receber de forma equiparada. Somente nesta dinâmica há pessoas adultas e trocas equilibradas, consequentemente, projetos de vida mais fortes, relações mais intensas, duradoras, prazerosas e amorosas.  

Observando esse movimento de alma nos atendimentos pessoais, organizacionais, comunitários, penso que essa ferramenta pode contribuir para uma nova consciência pessoal e coletiva, facilitando uma relação mais amigável e afetuosa com o patrimônio antropológico que herdamos. Basta fazer uma árvore genealógica para perceber que muitas vezes nossa história pessoal traz contextos multiculturais, ou seja, somos indígenas, africanos e europeus ao mesmo tempo. Como dizia Darcy Ribeiro: “Somos um povo miscigenado”. É preciso fazer as pazes com essas raízes.

Os povos originários, e aqui, me refiro especificamente aos indígenas, têm muita coisa bonita a nos ensinar. As etnias sãs muitas! E tem abordagens bem especificas em relação à educação de crianças, às trocas na economia, à cura, à integração com a natureza, respeito à “mãe terra”, ou mesmo um intenso desejo de um estado mais próximo do “bem viver”. Valores inestimáveis para nosso século! Não podemos ceder a uma razão instrumental desordenada e sem compromisso com o todo da vida.

Para aquelas e aquelas que trabalham com cura holística e acreditam numa sociedade que se cura, a abordagem para a mudança passa essencialmente por uma pedagogia da memória, facilitando um despertar da consciência na esfera pessoal. Precisamos buscar recursos que possibilitem a melhoria da sociedade como um todo. Incluir se faz profundamente necessário nos dias atuais.

Todas as pessoas têm direito a um lugar na família, assim diz as ORDENS DO AMOR de Bert Hellinger. A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz: todo ser humano tem direito a vida, liberdade e segurança pessoal. O Estado Democrático diz: toda pessoa precisa gozar de sua cidadania com acesso aos direitos civis, políticos e sociais.

O Estado Democrático com suas instanciais de poderes padece de um certo descrédito. Mas precisamos insistir na ação política do bem comum para todas as pessoas. Precisamos de um mundo mais curado!  Facilitando a cura dos sistemas por meio da responsabilidade pessoal, podemos ter lideranças e profissionais menos violentos e mais afinados com projetos coletivos, onde todas as pessoas tenham um lugar para viver e expressar sua cultura.


 

Vera Lúcia Soares de Araújo

Filósofa e consteladora Familiar

Autora do livro:  A Sabedoria do Povo Aranã.

Atendimento online: 31 9 9901 2565

Instagram: @institutoterramovimentodeluz