25/09/2020

Quem somos, professores e professoras, ao longo do tempo?

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25/09/2020 - Por: Sibéria Regina de Carvalho.

A profissão de professor oficialmente teve início em 15 de outubro de 1827, quando D. Pedro I decretou que “todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras”. No império, os professores eram contratados pelas famílias mais abastadas, portanto, somente os filhos dos ricos recebiam educação. Esses profissionais trabalhavam em escolas particulares ou disponibilizavam seu conhecimento àqueles que pudessem pagá-lo.

Durante o período imperial, o acesso à educação era restrito. Poucas pessoas podiam se valer do ensino, e, somente, a partir das primeiras décadas do século IXX, é que implantaram os grupos escolares, quando o ensino se tornou gratuito e passou a atender mais pessoas. Com a expansão dos grupos escolares, surgiram as escolas de formação de professores, as Escolas Normais. Essas escolas eram responsáveis pela formação de mestres para o ensino primário.  A partir de então, era necessário um profissional com o conhecimento de métodos de ensino, impostos pelo modelo educacional do Estado, visto que a maioria desses profissionais era leiga.

Essas escolas tinham como peculiaridade cursos muito simples, ministrados por até dois professores para todas as disciplinas e com duração de apenas dois anos, os quais não eram suficientes. Com um currículo elementar, abrangendo somente os estudos primários e elementar, também era a formação pedagógica, uma vez que oferecia uma única disciplina, Pedagogia ou Métodos de Ensino, de forma prescritiva. Esses cursos foram ampliados até o fim do império.

A partir da implantação dos grupos escolares e da necessidade da formação de professores aptos a lecionar nos cursos primários, a profissão de professor começou a ganhar destaque no cenário nacional. Ser professor vai muito além de dar aulas, pois seu papel no processo de transformação social é imensurável. O objetivo principal dos Grupos Escolares era acabar com o analfabetismo e divulgar os pensamentos republicanos, vinculados à ordem, ao progresso, à disciplina e à moral cívica para todas as pessoas.

As primeiras escolas normais não alcançaram muito êxito, pois a maioria das pessoas não se interessaram em ingressar nos cursos de formação de professores primários, devido à ineficiência didática e aos baixos salários oferecidos a esse profissional das primeiras letras. Para atrair esses docentes, o Estado recorreu aos concursos públicos, que compreendia as disciplinas dos cursos primários e seus métodos de ensino. A partir desses concursos, o que se viu foi a seleção de pessoas de baixo nível, com uma habilitação insuficiente, resultado da formação insatisfatória que receberam no curso de formação de professores primários.

Com a implantação dos grupos escolares, esperava-se a democratização do ensino e com isso sua renovação, ideais republicanos presentes no período. Com o advento da República, a educação da mulher ganhou destaque e foi vinculada ao desenvolvimento e à sua importância na sociedade, sobretudo no que diz respeito à escola primária.

Muitos professores, sobretudo para as mulheres, exercer a profissão em um grupo escolar significava o máximo do prestígio social, o sonho da época. Salientando que na época do império, as meninas eram ensinadas a serem donas de casa.

No fim do século IXX, as Escolas Normais apresentaram um tímido progresso, concretizado na formação de professores primários da época. Em razão do reconhecimento do papel que o professor representava no desenvolvimento do ensino, contrariando a ineficiência da escola, no início, foram instalados os grupos escolares e o curso de formação de professores primários.

Com a valorização das escolas primárias, aprimoraram os currículos, ampliando as exigências para o ingresso e ofereceram oportunidades para as mulheres ingressarem no magistério, uma vez que poderiam conciliar o trabalho doméstico e a função de professora. Assim, a mulher começou a embrenhar-se no mundo do trabalho, antes restrito aos homens.

O professor dessa época desempenhava um papel fundamental na educação das crianças ao valorizar a moral e a boa conduta, seguindo os princípios da ordem e dos bons costumes vigentes. Estava entre suas atribuições disseminar nas camadas mais baixas da população a civilidade. Não se cogitava a preocupação pela sua formação, apenas deveria ensinar a ler e escrever. Para exercer a função de professor, as exigências eram muitas, entre elas apresentar prova de moralidade e capacidade para exercer o cargo. Para as mulheres, as exigências eram ainda maiores, “As professoras devem exibir, de mais, se casadas, a certidão do seu casamento; se viúvas, a do óbito de seus maridos; e se viverem separadas destes a pública sentença que julgar a separação, para se avaliar o motivo que a originou. As solteiras só poderão exercer o magistério público tendo 25 anos completos de idade, salvo se ensinarem na casa dos pais e estes forem de reconhecida moralidade (Lei Couto Ferraz. Decreto n° 133, de 17/02/1854, art 16°)”

A educação do século IXX não faz mais sentido atualmente. A mera transmissão de saber pelo professor, que desconsiderava o conhecimento prévio do aluno, não encontra mais eco. É necessária uma educação dialógica, em que tanto os conhecimentos científicos como os conhecimentos procedimentais e atitudinais marquem presença nas escolas.

Dada a importância do professor desde o início, como vimos acima, Moacir Gadoti, em seu livro Boniteza de um Sonho, afirma que “Não há civilização sem professores. […] Não haverá uma nova civilização sem uma nova formação dos professores. […] Não há nação sem professores” (pag. 21).

Ser professor ou professora de anos iniciais, na atualidade, é sofrer com os dilemas da profissão, pois estão entre suas atribuições o cuidar das crianças, não somente de sua aprendizagem, mas também de todas as suas necessidades durante o tempo em que está sob sua responsabilidade. Com isso, esse profissional limita-se a reproduzir apenas o conhecimento desenvolvido por outros. O professor carece de boas formações, que o incentive a buscar novos conhecimentos e a criar a partir deles.

Ser professor ou professora de qualquer natureza hoje necessita ser diferente, pois com a velocidade com que as informações mudam, fazem-se necessárias constantes atualizações. Diante dessa permanente transformação, a formação continuada de professores é essencial para que os docentes se atualizem e possam atender às exigências desta nova era. Concordamos quando se afirma que o professor de hoje precisa mudar. Os tempos são outros. O professor não é mais o único dono do saber como no início. Precisamos nos preocupar, não somente com o que ensinar, mas também com o como ensinar e para que ensinar, além de cuidar da aprendizagem de todos os alunos. O aluno só aprende com emoção, por isso, a alegria deve fazer parte do processo de ensino e aprendizagem.

Os professores precisam fazer da escola um lugar prazeroso, um lugar em que a criança queira estar, portanto um lugar encantador, muito melhor e mais atrativo do que a televisão. O professor não é mais solitário frente a seu aluno como no passado. Hoje eles devem dividir o mesmo cenário, seu aluno também sabe e são parceiros na caminhada do ensinar e aprender. Este professor precisa perceber e dar sentido ao que propõe ao seu aluno. São muitas as maneiras de aprender. São muitas mídias, a tecnologia avança com tamanha velocidade e com ela surgem muitas novas aprendizagens. Muitas vezes nossos alunos sabem mais e muito mais do que nós. É preciso humildade para se colocar ao lado de seu aluno como parceiro, para trocar saberes e ter a certeza de que sempre serão aprendizes.

Moacir Gadotti afirma que o professor “como profissional do sentido, sua profissão está ligada ao amor e à esperança. Ela não se extinguirá enquanto houver espaço para a construção da humanidade”. Para isso, o novo professor precisa levar a esperança a seus alunos, ensinar com amor e ter paixão pelo que faz. O entusiasmo e o compromisso com a educação de todos os estudantes é o que fará a diferença na vida de cada um deles.

Como vimos ao longo deste texto, ser professor sempre foi uma profissão que representou um papel de destaque na sociedade, seja lá no início ao ensinar as regras de conduta e os bons costumes, ler e escrever; seja na atualidade quando exerce sua função, dando sentido ao que ensina; ensinando com amor as lições do dia a dia, indo além da tecnologia presente, pois seu encantamento vai além do virtual. Ele semeia alegria, esperança e leva seus alunos a sonhar com um mundo melhor.

Acesse a obra da autora: Da Ponta do Prego... Trajetória de uma Professora 

REFERÊNCIAS

GADOTTI. Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar e aprender com sentido. Feevale: centro universitário. Editora Feevale: Novo Hamburgo, RGS. 2003.

LEI: 15 de outubro de 1827, in Revista Educação em Questão, Natal, v. 36, n. 22, p. 240-242, set./dez. 2009. file:///C:/Users/siber/Downloads/3975-Texto%20do%20artigo-9083-1-10-20130806.pdf Acesso em 24.09.2020. 

LEI: Couto Ferraz. Decreto n° 133, de 17/02/1854, art 16°. https://www.fe.unicamp.br/pf-fe/publicacao/5089/art03_32.pdf Acesso em 24.09.2020.

TANURI, Leonor Maria. Revista Educação em Questão, Natal, v. 36, n. 22, p. 240-242, set./dez. 2009. file:///C:/Users/siber/Downloads/3975-Texto%20do%20artigo-9083-1-10-20130806.pdf Acesso em 24.09.2020.

RIBEIRO, Brenda do Prado; SOUZA NETO Samuel de. Ser professor: uma história no tempo e no espaço: a constituição da profissionalidade docente. file:///C:/Users/siber/Downloads/serprofessor%20(1).pdf Acesso em 24.09.2020.


Sibéria Regina de Carvalho: Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP; mestre em Semiótica, Tecnologias da Informação e Educação pela Universidade Braz Cubas, Mogi das Cruzes-SP; pedagoga e  ; orientadora pedagógica por 16 anos em escola de periferia e atualmente trabalha com assessoria pedagógica. Seus trabalhos centram-se no ensino de gêneros na aprendizagem da leitura e escrita e na formação de professores. É autora dos livros A escrita autobiográfica: por uma didática do ensino- aprendizagem e Da ponta do prego: trajetória de uma professora.