30/09/2020

O outubro é rosa, mas as mulheres continuam manchadas de vermelho

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30/09/2020 - Por: Janaína Silva

Outubro chegou e com ele uma explosão de distintas tonalidades da cor rosa, em todos os cantos frases de motivação nos apontam o quanto mulheres têm valor e como é necessário que se cuidem. Enquanto mulher sinto-me de fato lisonjeada pela iniciativa, mas permaneço na eterna dúvida do quanto realmente somos importantes. Acabamos de passar pelo setembro amarelo e pouco se falou sobre a depressão gestacional ou sobre a depressão pós-parto. Você sabia ser grande o número de mulheres que desenvolvem a ansiedade aguda por conta da dupla jornada de trabalho? Esses são alguns dos assuntos que deveriam estar nos holofotes, mas permanecem escondidos atrás das cortinas do machismo estrutural que assola nosso país.

Não quero dizer com isso que não seja importante cuidar da saúde física de nossas mulheres, até porque na psicologia costuma-se dizer que o corpo fala o que a mente cala. Nesse sentido, o câncer de mama pode não ser uma doença de cunho apenas físico, mas pode significar também a sintomatologia de uma vida de silêncios e submissão não reconhecidos. Precisamos compreender que as vivências femininas são muito mais amplas do que imaginamos. Os números e as estatísticas nos mostram isso diariamente, veja a seguir.

No Brasil, a cada 7 horas morre uma mulher vítima de feminicídio, crime motivado apenas pelo gênero da vítima.

São Paulo registrou no mês de janeiro deste ano 263 casos de estupro consumado contra o gênero feminino, além de 69 tentativas não consumadas.

Segundo pesquisas apresentadas pela Fiocruz, entre 2006 e 2015 morreram mais de 700 mulheres realizando uma tentativa de aborto clandestino.

Ainda segundo a Fiocruz, uma a cada 4 mulheres apresenta depressão pós-parto em um período de até 18 meses após o nascimento do bebê.

Segundo a lei de planejamento familiar de 1996, a mulher em união estável que desejar realizar uma laqueadura ainda necessita apresentar uma autorização por escrito do parceiro para ter acesso ao procedimento.

O Inca aponta que em 2018 uma taxa de 13,84% a cada 100.000 mulheres foram diagnosticadas com o câncer de mama.

Para todos esses exemplos a condição social e financeira das mulheres tende a agravar seu sofrimento ou potencializar o risco de morte, no caso de abortos clandestinos, por exemplo, são as mulheres que não possuem condições financeiras que passam por clínicas pouco seguras e por profissionais não qualificados. Mulheres trabalhando em subempregos e/ou pouco remuneradas são as que acumulam mais horas de trabalho por meio da dupla jornada de trabalho, potencializando o surgimento de cansaço extremo, ansiedade e depressão. Algumas dessas estatísticas e informações podem ser acessadas por meio do livro Pode uma mãe não gostar de ser mãe? As controvérsias acerca do feminino, publicado pela Editora Aprris.

Ainda que o câncer de mama seja dentre os vários tipos da doença o responsável pelo maior número de óbitos femininos, é preciso reconhecer que se somarmos as mortes causadas por vários outros tipos de violência contra a mulher, teremos um número tão impressionante quanto os mencionados neste mês tão rosa, mas que reflete a cor vermelha.

Acesse a obra da autora: Pode uma Mãe não Gostar de ser Mãe? : As Controvérsias Acerca do Feminino 

REFERÊNCIAS:

ALVES, Xandu. Por hora, oito mulheres são mortas, agredidas ou estupradas no estado. O vale, 2020. Disponível em: https://www.ovale.com.br/_conteudo/especial/2020/03/98798-por-hora--oito-mulheres-sao-mortas--agredidas-ou-estupradas-no-estado.html. Acesso em:

INCA. Conceito e magnitude do câncer de mama. Inca, 2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/controle-do-cancer-de-mama/conceito-e-magnitude#:~:text=A%20taxa%20de%20mortalidade%20por,mulheres%20em%202018%20%5B3%5D. 

VALESCO, Clara; CAESAR, Gabriela; REIS, Tiago. Mesmo com queda recorde de mortes de mulher, Brasil tem alta no número de feminicídios em 2019. G1, 2020. https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2020/03/05/mesmo-com-queda-recorde-de-mortes-de-mulheres-brasil-tem-alta-no-numero-de-feminicidios-em-2019.ghtml. 

VEIGA, Edson. As maiores vítimas de aborto no Brasil. Uol, 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/02/21/as-maiores-vitimas-do-aborto-no-brasil.htm.