02/10/2020

Onde estão as mulheres no cinema?

Tags: BLOG

02/10/2020 - Por: Beatriz dos Santos Viana

Mesmo na era dos influenciadores digitais, o cinema persiste como um dos maiores formadores de opinião de nossa sociedade. Com sua visão masculina, branca e heteronormativa hegemônica, o formato tem perpetuado os mesmos recortes não-representativos de uma sociedade que demanda mudanças.

Uma pesquisa de 2020 da Annenberg Inclusion Initiative [Iniciativa de Inclusão de Annenberg], programa de pesquisa da Universidade USC Annenberg de Comunicação e Jornalismo, pode nos ajudar a refletir sobre uma das principais questões na falta de representatividade do cinema: a ausência de mulheres e demais minorias em cargos de liderança.

O grupo analisou 1.300 dos principais filmes lançados nos Estados Unidos, de 2007 a 2019, documentando a diversidade e inclusão dos 100 principais filmes de cada ano analisado. Nestes relatórios anuais, examinam-se a representatividade de gênero, raça/etnia, grupos LGBTQ e pessoas portadoras de necessidades especiais nos filmes.

A pesquisa traz uma informação não tão acessível ao espectador: a falta de representatividade por trás das câmeras. Por isso, também analisa a presença de minorias nos cargos de direção, produção, roteiro, composição, entre outras áreas técnicas.

Os dados são alarmantes. Nesse recorte de 13 anos, entre 1.300 dos filmes de maior bilheteria nos EUA, apenas 70 foram dirigidos por mulheres. Algumas, inclusive, trabalharam em mais de um projeto, reduzindo os cargos individuais de direção para apenas 57.

Para facilitar a visualização: 696 homens diretores trabalharam nos demais 1.230 filmes relacionados na pesquisa. A escala obtida é de 12.2 homens contratados para cada mulher. Uma disparidade gigantesca que é inconcebível na realidade que vivemos.

Analisando mais de perto, 1.518 profissionais trabalharam como diretores, escritores e produtores dos 100 principais filmes de 2019. Apenas 22,3% de todos esses cargos de liderança eram preenchidos por mulheres.

As mulheres estavam disponíveis para compor essas equipes, mas foram excluídas de projetos de alto orçamento e grandes premiações. Por consequência, com a falta do olhar feminino na fase de criação, personagens representativas também são apagadas dos filmes.

A porcentagem de personagens femininas em posição de liderança nos filmes aumenta significativamente quando uma diretora é vinculada ao projeto. Nos filmes dirigidos por mulheres, 45,1% das meninas e mulheres tinham papéis com falas e 83,3% delas eram

 

líderes ou co-líderes. Nos filmes exclusivamente dirigidos por homens, as respectivas porcentagens caem para 32,5% e 37,5%.

Considerando os Estados Unidos como grande motor da indústria cinematográfica mundial, como não haveria espaço para as mulheres atuarem em áreas técnicas? Muitas das principais empresas do segmento, como Warner Bros, Paramount Pictures e Lionsgate parecem ainda não se preocupar com a questão; sequer tiveram filmes dirigidos por mulheres em 2019. Isso sem falar nos cargos de roteiro e produção ocupados por mulheres, que também não possuem números expressivos.

Porém, nem todas as notícias são ruins. Algumas empresas entenderam essa lacuna e têm se esforçado para preenchê-la. A Netflix, sozinha, relacionou 12 diretoras (20.7%) entre seus filmes baseados nos Estados Unidos, em 2019. Ainda é um número baixo, mas apresenta uma nova possibilidade: será que as empresas de streaming, com suas novas tendências e nichos de mercado, conseguem reverter esse quadro de desigualdade?

Entre essas e outras reflexões sobre igualdade nos meios de comunicação, o livro A mulher jornalista no cinema se aprofunda nas lacunas a serem preenchidas no cinema e jornalismo, mostrando como o mercado norte-americano, que é o maior influenciador do espectador brasileiro, pode ser mais representativo e inclusivo em seus projetos. Para saber mais informações sobre o assunto, consulte a obra.


 

Beatriz dos Santos Viana é jornalista, escritora, pesquisadora em Comunicação, Gênero e Cultura e professora em formação. Atua na área de pesquisa científica, com participação em congressos e simpósios de comunicação. É alumni da Universidade de Coimbra, em Portugal, onde especializou-se em Jornalismo. Integra a 22ª Delegação Brasileira de Jovens na ONU, onde apresentou projetos pela Igualdade de Gênero e demais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na Youth Assembly [Assembleia da Juventude], em Nova Iorque.