21/10/2020

Os exercícios espirituais de Inácio de Loyola e a subjetividade contemporânea: diálogo com Roland Barthes e a psicanálise

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21/10/2020 - Maria Teresa Moreira Rodrigues

Exercícios... Quem não os precisa fazer? Em qualquer idade, em qualquer etapa de vida, somos chamados a fazer exercícios, pois eles nos ajudam a dar forma e força para nosso cotidiano, desde o corpo físico, a inteligência, a memória, até mesmo nossas emoções e o que está além de nós, o Divino, que em nós vive. E foi buscando o que me ajudasse em meu desamparo, e que eu intuía estar além de mim, que encontrei a Deus, nosso Pai, que me levou a também encontrar o homem Iñigo, que viria a ser o Sto. Inácio. 

O grande legado de Inácio de Loyola, há cinco séculos desvendado, é um pequeno livro chamado Exercícios espirituais (doravante EE). Foi escrito a partir de seus caminhos e descaminhos, emocionais e espirituais, numa peregrinação em que Inácio, ao buscar seus sonhos, vai experimentando um Deus que não responde a eles, mas revela nele um desejo mais profundo, numa plenitude insuspeitada. Após um acidente em campanha militar, impossibilitado de se mover e no aguardo impotente de sua recuperação, vai fazendo, sem se dar conta, um caminho de descoberta que não mais se centra nele, mas que sai para ir ao alcance de Deus e do que Deus deseja para ele. Despoja-se de um caminho pessoal e familiar já esperado e incorpora o desconhecido, entregando-se ao Criador, para que dele e nele, criatura, Deus fizesse o que Lhe aprouvesse: o que necessário fosse, para em “tudo amar e servir”.

Foi um caminho pelo qual e no qual peregrinou, resultando num método claro e objetivo que hoje conhecemos. Os EE são um método para ordenar os afetos, encontrar a liberdade e acertar na vida, para que assim se possa “louvar, reverenciar e servir” a Deus num encontro com Ele e na imitação de Cristo. É um processo que atravessa quatro semanas, mas que não são semanas cronológicas, e sim etapas com temas e caminhos diferentes, que tratam do que é o natural em nossas vidas, e nos levam a sobre isso refletir e sentir. Vejamos os temas:

1ª semana: o mal, o pecado que há no mundo e em nós. O amor de Deus e das pessoas é o que pode nos salvar desse desequilíbrio.

2ª semana: a liberdade, o seguimento: se quero e preciso melhorar o que em mim me atormenta e me prejudica, e eu prejudico aos demais, como devo viver e atuar? Aqui teremos o seguimento de Cristo, tomado como modelo de conduta de vida por tudo e todos.

3ª semana: a dor, a Cruz: Jesus seguiu seu caminho, em nome do amor ao Pai e de todos nós, mas padeceu injustiças e foi imolado na cruz.

4ª semana: o amor: pelo amor do Pai é que Jesus foi ressuscitado. Todos nós temos nossa “cruz”, mas a ela temos que dar sentido e direção, como Jesus o fez. E com fé, esperança e amor, recebemos o amor do Pai. Assim podemos contemplar a Deus em todas as coisas, e todas as coisas em Deus.

Entretecidas nessas quatro semanas estão várias regras, notas, adições. Algumas:

- Para conhecer e distinguir os vários espíritos-emoções que nos habitam e assim podermos encontrar a melhor medida, o melhor tanto-quanto delas, em nosso viver para nós e o próximo.

- Como nos ordenar em nossa alimentação-desejos, encontrando o que é necessário, conveniente e supérfluo, assim vivermos em melhor sintonia com o que é e está em nós e no mundo.

- Como distribuir esmolas, o que temos e somos: se é apenas para nosso proveito ou se está contemplando o próximo.

- Como compreender nossos escrúpulos-inquietações, para nos aquietarmos e assim melhor servirmos e amarmos, pois para isso viemos e estamos no mundo.

Essas propostas para pensar e sentir e muitas outras são como “avisos” que Inácio nos deixou, para que possamos alcançar, conviver com o que é mais estruturante no nosso mundo interno e pessoal, no encontro com Deus e com nossa própria subjetividade. Embora esta seja uma palavra inexistente em tempos de Inácio, todo o processo (e notadamente as Regras de Discernimento, coração dos EE) leva ao encontro da subjetividade, favorecendo o conhecimento e a ordenação dos afetos, condição necessária para se tornar sujeito e criador de uma conversa e escritura próprias

É um texto de 500 anos que continua sendo atual por suas peculiaridades e especificidades próprias. Ou seja, é por tratar de temas que sempre existem: o mal, a liberdade, a dor e o amor, assim como por nos deixar avisos que nos ajudam a nos conhecer e nos ordenar, necessidade sempre presente, em qualquer tempo e lugar. É por isso que faço um percorrido não só pelo autor, mas também pelo texto; assim como faço um diálogo com quem o encontrou e o estudou (no caso, Roland Barthes e a Psicanálise), além dos próprios jesuítas. Considerá-lo atual não é negar seu momento e condições históricas. Muito pelo contrário, vamos vendo e descobrindo como o Cavaleiro Iñigo imprimiu suas marcas no texto de Inácio. Como Cavaleiro do Rei Temporal, naquela época, cabia ao rapaz cultivar um físico sempre forte e robusto, assim como um coração generoso. Batalhas e caças exigiam corpo ágil e disposto, que aprendera a desbravar densas florestas e a conviver com intempéries climáticas, submetido aos perigos reais das batalhas, dos criminosos foragidos, das feras e animais. Além disso, era necessário também ter controle emocional, pois era necessário enfrentar os perigos que nasciam do imaginário medieval, repleto de gnomos, dragões, bruxas e fadas.

Tudo isso habitava Iñigo, o que lhe foi útil para sempre, inclusive o ajudou a criar a Companhia de Jesus. Mas ter experimentado a queda e a impotência, levou-o a um lugar interno, desde o qual ele caminhou e encontrou a Deus e seu outro lugar no mundo, agora como Cavaleiro do Rei Eterno. Os EE trazem Inácio em seu tempo e lugar, como a mim e a tantos que oram e fazem seu caminho com ele. É importante ter presente que aqui estão os exercícios espirituais, desde o texto original. E isso pelo pressuposto já conhecido de que Inácio não fez dos exercícios espirituais um relato de sua própria experiência pessoal de Deus, mas, sim, a elaborou num método a ser seguido. É isso que permite que cada um, à sua maneira, ritmo e tempo, possa também fazer a escrita de sua própria subjetividade.

Roland Barthes: grande escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês.  Alguém fora dos muros eclesiais, que reconheceu, valorizou, estudou e desenvolveu um profundo e extenso trabalho sobre o texto dos EE. Para ele, texto é um objeto de prazer, não podendo ser imaginado apenas como um objeto intelectual. O gozo do texto muitas vezes é apenas estilístico: felicidades de expressão. Mas, outras vezes, esse gozo pode ser muito mais profundo: é quando o texto “literário” (o livro) transmigra para nossa vida; é quando a escritura do outro chega a escrever fragmentos da nossa cotidianidade; é quando se produz uma coexistência, assim leitor vira receptor do texto.

Em seu extenso trabalho, Barthes mostra-nos o porquê o texto de Sto. Inácio permite um encontro genuíno entre leitor e receptor e, sobretudo, porque os EE não são matéria para ser lida, mas para ser feita. E no bojo desse processo está exatamente o encontro consigo mesmo, na busca do encontrar algo que está além daquele que busca. Desde esse estudo e de outros, entendeu-se que os EE podem gerar outros leitores-receptores, além dos da tradição católica e cristã. E assim podem ser aplicados a crentes de diversas tradições e até mesmo a não crentes, pois qualquer um de nós deseja “acertar e ordenar a própria vida”, e para isto estão os “avisos” de Inácio de Loyola. Aceitar a figura de Cristo como modelo de melhor conduta e caminho tem sua lógica e tradição inegáveis.

Roland Barthes refere-se a Inácio apenas como Loyola, e junto com outros autores (Fourier e Sade) coloca-o como logoteta (aquele que define a palavra), fundado­r de uma nova língua, mas não a língua linguística, falada, a língua da comunicação. Os três autores vão formular uma nova língua, inventar uma escritura e operar um texto. Loyola é o fundador de uma nova língua, a da interpelação divina. Em palavras de Barthes: “Na busca da interlocução com a Divindade, o encontro consigo mesmo”.

É dentro desse quadro que destacamos a importância do livro dos EE: a importância de ser um texto capaz de gerar, no leitor-exercitante, uma “escrita própria e transformadora”. Ou seja, os EE estão além do tempo e lugar em que foram escritos; serão sempre atuais.

Passemos agora a compreender o diálogo dos exercícios espirituais com a psicanálise. Os EE ocupam-se de encontrar o melhor caminho para com “ânimo e generosidade”, mais “amar e servir” a Deus e a todos (linguagem de Sto. Inácio). E para tal, é necessário um maior conhecimento de si mesmo, para “ordenar os afetos”, que é o objetivo das regras e avisos da obra. É desde essa perspectiva que se abre o diálogo possível com a psicanálise, que também visa a busca de si mesmo, por meio do conhecimento das emoções, recordações, capacidades, impulsos, para que os potenciais sejam mais e mais bem expandidos, propiciando melhor vida consigo mesmo e com os demais.

Para a psicanalista que me habita, era possível apreender o movimento psíquico que subjaz ao processo dos EE e que remete ao exercitante, não só a uma busca da vontade Divina para sua vida, mas também a uma busca de si mesmo. Desde o início foi possível apreender a movimentação psíquica que Inácio viveu e deixou entrevista sobretudo em suas Regras de Discernimento, avisos que deixou para nos ajudar na compreensão de nós mesmos, desde nossos afetos ordenados e desordenados. Freud, desde sua compreensão do funcionamento psíquico, estruturou uma teoria que nos permite entrever o que se passa internamente, em nossos afetos ordenados e desordenados. Inácio, desde sua vivência, estruturou um método que nos permite ordenar esses diferentes afetos, com a força psíquica que a motivação de buscar a interlocução com a Divindade é capaz de gerar.

É verdade e de fácil constatação que tanto Inácio como Freud fizeram de suas experiências pessoais e das particulares circunstâncias de suas vidas, assim como das vicissitudes de seu mundo interno, uma permanente fonte de inspiração, não só para si mesmos, mas também para muitos outros que, a partir do que eles deixaram, continuaram pensando, investigando e criando. Inácio deixou o que chamamos de “espiritualidade inaciana”, que tem inspirado a vida dos jesuítas e toda uma corrente de espiritualidade no mundo dos que creem. Freud criou a escola psicanalítica, e a partir de sua imensa produção científica, inspirou uma abordagem completamente nova do mundo psíquico, ao trabalhar teori­camente esse gigantesco “continente” que é o inconsciente, no universo mental do ser humano.

Podemos pensar que Inácio e Freud nos ensinam, desde suas perspecti­vas e convicções pessoais, a abertura ao novo, à revisão e ao questionamento do já vivido e afirmado, a busca incansável de novas perspectivas. Inácio formulará sua atitude como homem de fé, em termos de uma identidade espiritual marcada por uma contínua busca da vontade de Deus; e é por meio do discernimento que ele alcança discriminar aquilo que “é de Deus” do que “não é de Deus”. O discernimento é central na espiritualidade inaciana, exatamente porque Inácio experimentou nele, em inúmeras ocasiões, o quanto se pode enganar a si mesmo, acreditando que “é de Deus” aquilo que não o é e que não passa de um mero fruto das próprias circunvoluções mentais. Assim, podemos afirmar que Inácio apontou-nos a necessidade de “ordenar os afetos” (EE 21) para aquilo que trezentos anos depois Freud estruturaria numa complexa teoria: as motivações inconscientes.

Numa época ainda pré-científica, Inácio teve uma enorme percepção psicológica, como fruto de sua própria experiência interna. Na concepção inaciana, em nenhum caso a experiência religiosa pode acontecer à margem da experiência humana. Discernir é não confundir, mas nunca é isolar. Uma experiência religiosa pretensamente “pura”, ou seja, isolada do conjunto de experiências humanas, emotivas, existenciais e históricas daquele que crê, é simplesmente o mais próximo de um grande engano. Isso supõe que para Inácio todas as dimensões da pessoa estão necessariamente envolvidas na experiência religiosa.

Tanto para Inácio como para Freud, os grandes momentos e situações que definem as atuações humanas, e em muitos casos o próprio curso da história, estão incrustados nesse imenso continente oculto, e a nós cabe desvendá-lo. Inácio o fez à sua maneira e inserido em seu tempo, deixando-nos o método que está presente no processo dos EE. Assim, deu-se também com Freud, que, à sua maneira e tempo, deixou-nos sua escola psicanalítica.

Inácio sempre está a nos propor que se desenvolva um olhar para si mesmo; uma introspecção que se volta para o próprio ego, mas para poder pensá-lo à luz de outras possibilidades, de outro jeito de ser e proceder no mundo, tendo a Cristo como modelo de seguimento. Um processo de psicanálise, entre outras coisas, visa facilitar que esse processo se dê, sempre tomando a própria pessoa e seus valores, como referência para o crescimento e expansão de si.

Aquele que busca os EE traz, quer queira quer não, uma história psíquica que o condiciona, bloqueando ou libertando. Fazer os EE é colocar essa sua história humana dentro desse itinerário que o transformará, integrando todas suas dimen­sões pessoais. Uma espiritualidade, em dias de hoje, tem que possibilitar àquele que crê a consecução de uma identidade espiritual que leve em conta necessa­riamente os desafios da realidade externa e do dinamismo do mundo psíquico pessoal, para assim poder formular, em comunhão mútua com outras pessoas, aquilo que chamamos vontade de Deus.

Pois é assim que tanto Inácio como Freud nos dão o testemunho de uma busca infatigável da verdade, da autenticidade no encontro consigo mesmo e com os demais. Na perspectiva de ambos, o que possibilita uma relação autêntica é a possibilidade de discriminar o eu e o outro; ou seja, é a possibilidade de interpenetrar-se, sem perder-se de si. A identidade psi­cológica e espiritual situa-se nesse estreito espaço em que se dá o registro dessa diferença.

Ao longo deste trabalho apresentei uma descrição dos EE que contempla sua condição de atualidade. Mas é possível avançar ainda mais e continuar perguntando-nos, desde o que caracteriza o processo dos EE, o que o pode fazer atual. A subjetividade e a liberdade são dois temas atuais, com os quais o homem de hoje está especialmente defrontado: ser ele mesmo e encontrar liberdade, a despeito de tudo o que o estimula e o afasta de si, dentro de uma sociedade que precisa consumir. Coloquemos os EE ao lado dessas questões.

Entremos no tema da subjetividade. É interessante observar hoje que nossa sociedade está menos marcada pelo ateísmo, e mais por uma crescente privatização e individualização de fé, que se recorta num horizonte à maneira do que a cada um lhe parece e apetece. Os EE respondem a isso, propondo-se como alternativa, sobretudo porque não são uma resposta teórica, nem uma série de princípios. Os EE são um exercício, que vivido no íntimo do sujeito, proporcionará a este um contato experiencial, contínuo e metódico consigo mesmo, com seu mundo interior, suas angústias e fantasias (quase que à maneira de uma psicanálise), mas a partir do acontecimento da vida, morte e ressurreição de Cristo como ambiente, exemplo, motivo e força para eleições práticas e difíceis da vida. Dessa maneira, a pessoa é chamada a entrar em si mesma, em sua interioridade, mas tendo no horizonte algo fora dela, que lhe marca a subjetividade, alargando-a e tirando-a de um centro que poderia mantê-la fechada em si mesma.

Entremos no tema da liberdade. Como os EE são uma lectio divina continua, eles convertem-se num exercício interior de oração, de confrontação com Cristo e consigo mesmo, que traz à luz afetos desordenados e nos ensina a reconhecer as tentações que podem nos afastar de uma liberdade própria. Liberdade que não é arbitrariedade e possibilidade de fazer qualquer coisa, mas é a redescoberta de valores humanos mais profundos, que despertam a capacidade autônoma de eleger o bem, e desatam a liberdade de condicionamentos internos. Desse modo, os EE preparam para essa vida interna mais plena, que se reflete numa vida externa mais própria e comprometida com tudo e todos.

Os EE tocam temas fundamentais da vida em geral, dando um itinerário para uma maturidade. E segundo P. Adolfo Chércoles SJ, isso é valioso e necessário não apenas para o crente cristão, mas para todo e qualquer um que deseje “acertar na vida”, até mesmo um ateu. Cardeal Martini chega-nos como alvissareiro, pois muito realizou o diálogo com os não crentes. Não só é fundamental darmos expressão às nossas diversas vozes internas, como também é fundamental escutar o crente e o não crente que há em cada um de nós, na dinâmica do aprender a discernir e a descobrir as atitudes e lutas internas. A distinção que fazemos entre nós não é entre crentes e não crentes, é muito mais entre gente que pensa e gente que não pensa. E visto que todos devemos ser gente que pensa, confraternizemo-nos no caminho.

E esse é o meu desejo:  que nos confraternizemos!

E para saber mais sobre o tema, conheça a obra: Os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola e a Subjetividade Contemporânea: Diálogo com Roland Barthes e a Psicanálise

 


Maria Teresa Moreira Rodrigues: Mestre em Ciências da Religião pela PUCSP. Psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Psicóloga pela PUC-Campinas. Atende em seu consultório de Psicanálise adolescentes, adultos, casais e famílias. Orientadora e acompanhante de retiros espirituais, na Espiritualidade Inaciana (Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola).