26/10/2020

Superficialidade dentro das relações amorosas

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26/10/2020 - Edjane Silva

Será que sem encontro, confronto e sacrifício é possível manter um relacionamento amoroso? Muitos podem ser os questionamentos quando falamos de relacionamentos amorosos, mas quero fazer um convite a algumas reflexões.

Estamos em uma era em que os contatos que prevalecem são os digitais, não somente pelo momento atípico que vivemos, mas por toda facilidade que existe nesse contato mais “superficial”. Quero chamar atenção aos relacionamentos em específico, claro que muitos amores sobrevivem a distância por meio da tecnologia, mas não me refiro a esse tipo de aproximação, sabemos que da mesma forma que o contato digital aproxima, também gera afastamento, mas por que será que o mundo digital tem se tornado mais atrativo a ponto de deixar o mundo “real” sem graça? Enfim, esta pergunta pode gerar diversas respostas, mas as que eu quero que fixe são: por que temos a necessidade de viver uma realidade que não nos compete, assim como desistir de pessoas como se fossem descartáveis, sem ao menos dar possibilidades para confronto e sacrifício? Será que o amor não existe mais ou nunca existiu? O que nos faz querer aventuras, prazeres de modo desenfreado? Por que temos tanta necessidade de consumo, de achar que precisamos de tantas coisas, sem ao menos nos dar conta de que o que temos pode ser o suficiente?

Essa busca pela vida, amor, família, trabalho, dinheiro, amigos, ideais geram cegueiras para aquilo que de fato é real, tem pessoas que idealizam a vida inteira e esquecem de viver, quando se dão conta da própria realidade se frustram, deprimem e assim perdem chances de aprenderem com os próprios erros.

O vazio tem ocupado muito espaço dentro das pessoas, e a necessidade de preenchê-lo, seja como for, acaba conduzindo-os para uma via, às vezes, sem volta. A forma como se tem procurado o amor, em coisas e em prazeres superficiais, a busca por felicidade sem consistência, só revelam a vulnerabilidade que se é construída ao longo da vida. Chamo isso de “síndrome do algodão doce”, que é o termo que encontrei para definir as relações superficiais, quando um problema acontece a primeira coisa que fazem é sumir, “surtar”, buscar por novos parceiros, afundar-se em drogas e álcool ou em outros prazeres, a última coisa que pensam ou fazem é resolver os conflitos de forma madura, sem causar mais transtornos.

Acredito que se dentro de uma relação as pessoas não são mais felizes, elas têm o livre arbítrio de separarem e iniciarem novos relacionamentos, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer, vemos pessoas forçando a outra em manter uma relação que não existe, apenas para satisfazer o próprio ego narcisista, aqueles que não conseguem se enxergar fora da relação, por mais que não esteja feliz, prefere continuar e acreditar nas crenças que sem esse relacionamento não poderá ser feliz ou encontrar alguém que a(o) faça.

Vemos padrões se repetirem ao longo das relações, pessoas que sofreram algo em um relacionamento terminam e encontram parceiros diferentes, porém com mesmas atitudes, mas será que o “problema” está com quem troca ou com quem é trocado? Podemos pensar aqui em projeções, conforme projetamos nossas frustrações ou idealizações em alguém, estamos propensos a encontrar pessoas que reforcem essa projeção, fortificando-a e cooperando, neste caso, negativamente, as projeções acontecem de maneira inconsciente, por isso muitas repetições acontecem nos relacionamentos e na vida.

As coisas nunca acontecem fora de nós, sempre internamente, então se partirmos desse princípio, podemos hipotetizar que os conflitos não estão com as pessoas com quem se relacionam, e sim com elas mesmas, por não conseguirem enxergar aquilo que fazem mal, por não terem o autoconhecimento e saberem o que é relevante dentro de uma relação.

Quantos fins de relacionamentos estamos vivenciando, isso sempre aconteceu e não é estranho para mim, mas o que é estranho, se assim posso dizer, são as formas como eles terminam e como acontecem novamente, pautados na cegueira do prazer superficial, do prazer momentâneo, daquilo que vai me dar “retorno” imediato.

Vimos acontecer diversos relacionamentos “miojos”, aqueles que iniciam e terminam com uma rapidez inacreditável, enfim, não estou julgando a forma como cada um se relaciona, mas simplesmente quero propor um olhar para esses relacionamentos. Quem já ouviu aquele dito popular “da mesma forma que entramos na vida de alguém e deixamos nossas marcas, outros passam por nós e deixam a deles” em relacionamento “miojo” fico me perguntando qual marcas, se é que deixa, fica nessa relação?

Sim, eu sei, são muitas perguntas e talvez nenhuma resposta, pode ser também que tenha confundido muito mais do que esclarecido, não tem problema, acredito que não temos respostas para tudo, estamos aprendendo como bons seres humanos que somos, justamente por não termos respostas para tudo é que devemos nos questionar a respeito do que fazemos no automático, das coisas que compramos, das pessoas que “usamos” e da realidade em que vivemos.

Sou grata à tecnologia, porque só foi possível continuar trabalhando e ajudando outras vidas devido à internet, redes sociais, por isso não quero ser interpretada como aquela que é contra o mundo digital, porque não é verdade.

Quando me refiro que a tecnologia afasta, isso não é culpa da ferramenta em si, as pessoas estão com mais dificuldade de diferenciar-se do “eu” digital e do “eu” real, tornando-se cada vez mais suscetível e vulnerável às situações diárias, não sabendo resolver os conflitos quando aparecem, intolerantes aos nãos que recebem da vida e fracos de personalidade.

Por mais que não pareça, todos querem apenas uma coisa em toda a vida, amar e serem amados, porque precisamos desse calor, desse acolhimento que só o amor pode fornecer, para nos sentirmos verdadeiramente vivos e completos.

Acesse o livro da autora: Relacionamento Amoroso: Um Caminho para Individuação.

 


 

Edjane Silva é graduada em Psicologia (UNIP), especialista em psicossomática (Instituto Freedom) e em Psicoterapia Junguiana (UNIP). Formação em Auriculoterapia (HOLOS). Experiência como psicóloga clínica, trabalhando com pessoas ansiosas, contribuindo para o autoconhecimento e para a qualidade das relações.