31/10/2020

Uma atração inquietante: o perene apelo do vampiro na literatura

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31/10/2020 - Por: Thiago Sardenberg

 

“Love and pain” (1895), por Edvard Munch. Fonte: Wikimedia Commons.

O mês de outubro costuma operar uma palpável e soturna mudança nas prateleiras das livrarias, salas de cinema e na própria oferta de entretenimento doméstico por meio das plataformas digitais, algo que remonta a uma tradição que atravessa os séculos. Acreditava-se que na noite do dia 31 de outubro (que, para os povos celtas, demarcava o fim das colheitas de verão e o início da obscura temporada invernal), o limiar entre o mundo dos vivos e dos mortos tornava-se fluido, e toda sorte de seres sobrenaturais poderiam cruzá-lo (não por acaso celebramos, ainda hoje, o Dia de Todos os Santos, no dia 1º de novembro, e o dia de Finados, no dia 2; o Cristianismo se apropriou de muitas datas comemorativas das religiões pagãs). O ritual do fantasiar-se, algo tão difundido e característico da festa que conhecemos hoje como Halloween, remete a uma forma dos vivos se ocultarem nesse período fronteiriço, não chamando a atenção dos seres do além para si próprios.

Um desses seres que, invariavelmente, regressa todos os anos de sua tumba metafórica é o vampiro: seja na literatura, no cinema, na televisão, nos quadrinhos ou jogos de videogame, ele continua a reinventar-se para a contemporaneidade de diversas formas, atravessando múltiplas expressões artísticas e gêneros. Não mais apenas relegado ao status de vilão em películas de suspense ou terror, já protagonizou séries cinematográficas de ação como “Blade” (1998-2004) e “Anjos da Noite” (2003-2016); séries televisivas ancoradas em seu apelo romântico e potencialmente heroico, como “The Vampire Diaries” (2009-2017); e até mesmo dramas como “Amantes Eternos” (2014), do aclamado diretor indie norte-americano Jim Jarmusch.

A verdade é que a sede por essas criaturas de presas afiadas parece não ser facilmente saciada, algo que, talvez, possa ser explicado pelo fato de que um olhar mais aprofundado para além das cruzes, caixões e litros de sangue que frequentemente permeiam as narrativas vampirescas poderá nos revelar questões complexas que nos falam ao íntimo; no universo narrativo, essas mesmas questões são tão (ou ainda mais) ameaçadoras que a presença do vampiro em si, e podem causar sérias perturbações no status quo.

Se, por um lado, uma rebeldia e algo de transgressor costumam ser inerentes ao vampiro, por outro, ele segue em constante mutação. O vampiro apropriado pela cultura popular de massa do século XXI pouco tem a ver com a criatura essencialmente maligna e repugnante de outrora (tal como a descrevera Bram Stoker em sua obra seminal, “Drácula”), no que sempre estabelece um diálogo mais coerente com as novas questões e formas de pensamento suscitadas por ares contemporâneos a ele. Poderíamos argumentar que se, em algumas narrativas, o vampiro não é digno nem mesmo de um reflexo no espelho, isso poderia se dar devido ao fato de que ele é, em si próprio, o reflexo, sempre em devir, da humanidade por meio da qual obtém sustento. Nessa perspectiva, torna-se interessante a imagem do personagem que, perplexo ao buscar sem sucesso o vampiro no espelho, somente encontra a si mesmo.

Eis então que o vampiro se move, transfigurando-se por meio das décadas e refutando o acorrentamento a quaisquer ideias pré-concebidas sobre si, inclusive à própria condição de ser fundamentalmente “mal”. Observar como a figura rompe com esse confinamento enrijecido e maniqueísta torna-se particularmente interessante, pois é sintomático das mudanças de pensamento, atitudes e ansiedades de um determinado momento bem localizado no tempo e no espaço.

Sendo simultaneamente superfície refletora e catalisadora do que reside no íntimo humano (e por isso, o olhar para o vampiro pode ser tão desconcertante: é como um umbral para dentro de nós mesmos, especialmente para aquelas partes que gostaríamos que permanecessem na escuridão, pois foi construída como perigosa e/ou indesejável), a figura mítica passa, nas últimas décadas, a espelhar até mesmo a construção das identidades contemporâneas, que se apresentam mais fluidas e interessadas em favorecer aditivas (um constante “sou isso ‘e’ isso...”) em detrimento de alternativas (um binário “sou isso ‘ou’ isso”), assim como em verificar as coincidências de opostos ao invés de meramente polarizá-los (característica essa fundamental nas famosas “Crônicas Vampirescas”, de Anne Rice, que reinventou o vampiro na década de 70 com “Entrevista com o Vampiro”).

Assim, no que assume o protagonismo de suas narrativas e passa a buscar valorar-se por seus próprios sistemas, o vampiro continua abrindo caminhos para novas (re)interpretações, mantendo-se atraente sem jamais deixar de ser inquietante, relevante e revelador, no que nos convida a partilhar de suas experiências irresistivelmente arrebatadoras em seu baile à sombra do mal. Garantida estará, assim, sua presença nas artes e nas festividades de muitos mais outubros sombrios por vir.

Para se aprofundar na fascinante jornada do vampiro nas literaturas de língua inglesa, conheça a obra do autor: O Vampiro à Sombra do Mal: a fluidez do lugar da figura mítica na literatura.


  Thiago Sardenberg é doutor em Estudos de Literatura, mestre e especialista em Literaturas de Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professor de Língua Inglesa da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. É entusiasta, ensaísta e pesquisador do gótico e das múltiplas faces do vampiro na literatura, tendo várias publicações sobre o tema em periódicos e revistas acadêmicas, assim como falas em palestras, simpósios e conferências nacionais e internacionais.