12/11/2020

Vamos abrir as câmeras?

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12/11/2020 - Harrysson Luiz da Silva  e Antônia Benedita Teixeira

No contexto da “pandemia do COVID-19”, e agora da “sindemia”[1], o sistema educacional mundial ainda está às voltas com a criação de um novo espaço didático e pedagógico: os ambientes virtuais de aprendizagem.

No Brasil, essa situação começa a ganhar contornos de permanência institucional, em função da publicação em 22 de outubro de 2020, no Diário Oficial da União, da Portaria nº 433, que institui o Comitê de Orientação Estratégica - COE para “Elaboração de Iniciativas de Promoção à Expansão da Educação Superior” através de meios digitais em Universidades Federais, no âmbito da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação - MEC.

A entrada pela escola física por meio de seu portão, agora deu lugar a um endereço virtual, onde todos entram por um link de um ambiente virtual.

A presença física e a troca de pensamentos, sentimentos e emoções, agora passa a ser mediada por um recurso de “áudio” e “vídeo” que nem sempre são acionados, por motivos diversos, dentre eles, pode-se citar: as questões financeiras de acesso a novas tecnologias e a resistência ao novo modelo de ensino implantado no contexto da pandemia, decorrente do embotamento das habilidades socioemocionais.

Diferentemente de uma sala de aula, onde o contexto é institucional, o ambiente virtual da sala de aula é um espaço demarcado, numa rede de informações, e a localização de cada aluno está em seus respectivos ambientes pessoais e contextos familiares.

O isolamento social tem promovido, por outro lado, um distanciamento ainda maior, não somente entre professores e alunos, mas também pela exposição de realidades e contextos pessoais mais precisos, que num contexto escolar passam desapercebidos, e onde o constrangimento se dilui, em nome da padronização institucional dos ambientes virtuais, onde as adversidades ficariam muito claras.

Assim, mesmo já tendo começado as aulas, muitos alunos continuam emudecidos, outros não querem ser vistos, e muitos timidamente respondem nos chats com frases curtas, até mesmo quando perguntados, nenhuma resposta é falada ou descrita, o que demonstra o extremo grau de adoecimento.

Nessa perspectiva, é preciso abrir as câmeras: a câmera do telefone celular/laptop; a câmera que declara a sua diversidade e a sua subjetividade, que até agora não foi apresentada no contexto escolar; as câmeras interiores que não se abrem de jeito nenhum, para sair do imobilismo e refreamento psicológico, a que todos estão sendo submetidos.

Mesmo que os autores dessa comunicação tenham coordenado e participado de um “Tutorial de Metodologias Ativas para Contextos de Eventos Extremos” para professores da rede de ensino do estado de Santa Catarina, ainda assim muitos professores, alunos, pais e comunidade escolar terão dificuldades de abrir as suas câmeras pessoais, demonstrando claramente que não estão preparados ou que estariam abertos para novas possibilidades, que agora estão associadas a cargas extremas de trabalho com diversas psicopatologias decorrentes do stress, que precisariam ser verificadas.

Diante disso, é preciso que as escolas, os professores, alunos e toda a comunidade escolar abram as suas câmeras e se posicionem num grande palco sociodramático, tratando de suas angústias e de como pretendem desenvolver as suas práticas pedagógicas de forma curativa numa perspectiva socioemocional.

O contexto que estamos vivendo em todos os setores de nossas vidas é psicopatológico, o que imprime um comportamento anômalo para todos, o mesmo acontecendo no ambiente escolar.

Para que possamos abrir as nossas câmeras é preciso que tenhamos certeza que seremos acolhidos pelos grupos aos quais pertencemos e que não sejamos julgados pelas características comuns que todos possuem e ignoram no contexto dos ambientes institucionais, que não são saudáveis.

Indistintamente de cargos, posições e titulações, não somos super-heróis, somos “simplesmente humanos” com capacidades limitadas de processamento e de trabalho.

Portanto, a escola deverá abrir as suas câmeras e falar dos seus problemas de gestão para toda a comunidade escolar.

Os professores deverão abrir as suas câmeras e demonstrar todas as suas angústias, dúvidas, falta de compreensão de toda comunidade escolar acerca do exercício de sua atividade num contexto de guerra biológica.

Os alunos deverão abrir as suas câmeras e, numa perspectiva de governança, deixar claro como deve ser a escola do século XXI.

Os pais e familiares devem abrir as suas câmeras e declarar que o “ócio criativo”, tão propalado por Domenico Demasi, acabou, inclusive com a própria tecnologia de comunicação e informação que liberaria a sociedade global para o processo criativo.

E, por fim, num ato sociodramático (grupal), a direção da escola, os professores, os alunos, pais e familiares deveriam abrir uma câmera comum para a escola do século XXI, partindo da criatividade, da espontaneidade e da sensibilidade, tão propalada pela Base Nacional Comum Curricular, que agora está sendo subtraída do contexto dos ambientes virtuais de aprendizagem e traduzida em psicopatologias diversas.

[1] Implicações recentes de que a pandemia deverá será analisada não mais de forma isolada, mas no contexto das doenças em geral em suas mais diversas interrelações.

Acesse a obra da autora: Habilidades Socioemocionais na Educação.  


Antônia Benedita Teixeira é especialista em Psicodrama socioeducacional pela Escola Lócus de Psicodrama de Florianópolis. Licenciada em Pedagogia pela Faculdade Anhanguera. Membro do Grupo de Pesquisa do Conselho Nacional de Pesquisa – CNPq Resolução Científica de Conflitos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Diretora de drama, sociodrama e teatro espontâneo. Confecciona bonecas temáticas para sociodramas. Vice-presidente da Associação Teatral Eternos Aprendizes. Fundadora e diretora da Ribalta Escola de Atores em Florianópolis. Pesquisadora colaboradora do Comitê Técnico Científico na Área da Educação da Defesa Civil de Santa Catarina. Desenvolve atividades profissionais de produção cultural com espetáculos, cursos e workshops para formação de atores com diretores consagrados do teatro e da televisão brasileira. Dentre seus projetos destacam-se: Mais Cultura nas Escolas; Teatro Educação; Drama na Sala de Aula (Escolas Públicas Estaduais e Municipais); O Boi e o Burro no Caminho de Belém (Município de Manoel Ribas-PR e Florianópolis); e a Brinquedoteca da Escola de Educação Básica Antônio Francisco Machado em São José-SC. No âmbito de projetos de extensão universitária, realizou: Projeto de Extensão pela UFSC: Sociodramas de Saúde e Bem-Estar: Investindo na Melhoria da Qualidade de Vida (Campeche-SC); Sociodramas para Formação de Lideranças em Comunidades em Áreas de Risco; Sociodramas para Formação de Equipes para Startups; Sociodramas com Gestores de Proteção e Defesa Civil no Estado de Santa Catarina. Atualmente dedica-se à pesquisa sobre desenvolvimento de habilidades socioemocionais numa perspectiva sociodramática com alunos e profissionais da educação, de empresas e instituições públicas e não governamentais. Esta publicação é resultado de pesquisa sobre desenvolvimento de habilidades socioemocionais com professores da rede pública de ensino do estado de Santa Catarina.