09/12/2020

Docência: formação e identidade

Tags: BLOG

09/12/2020 - Aline Mori Ferreira

Na área educacional, recorrentemente, professores e gestores se deparam com metodologias, didáticas, projetos, diretrizes e documentos que chegam sem aviso prévio às suas rotinas.

A cultura de que professores saem prontos dos cursos de Pedagogia e licenciaturas específicas para a realidade escolar e sua dinamicidade é histórica e sempre estivera visível, mas se tornou escancaradamente concreta no ano de 2020 com a reviravolta que a pandemia da covid-19 impôs a todo o planeta: o trabalho home office, as aulas remotas, as preocupações econômicas, a expectativa de envolvimento do aluno com a instituição e seus professores e vice-versa.

Sejam escolas públicas ou privadas, com variação sobre o mesmo tema sem sair do tom, o desafio envolveu famílias, estudantes e professores em todos os segmentos educacionais. E é a partir dessas situações que reflexões sobre a qualidade do ensino, a ruptura com um modelo estigmatizado de ensino e os valores em torno dele aconteceram.

A relevância de tais reflexões em torno das dificuldades de adaptação, tanto de docentes quanto de alunos e famílias ao novo quadro imposto a todos, revela a importância do autoconhecimento e delineamento da identidade docente enquanto profissional, partindo do pressuposto de que há lacunas na formação docente inicial que favorecem o desgaste emocional e físico dos professores.

As autoras Ferreira e Teixeira (2020) associam de maneira intrínseca o fracasso escolar e a formação docente inicial. Segundo as autoras, o professor sai do ensino superior sabendo mais sobre suas áreas específicas de formação que sobre Educação propriamente dita, deixando os docentes à mercê de aspectos pessoais intuitivos frente aos desafios diversos e dinâmicos do mundo escolar.

E, então, a pergunta que fica é: o que fazer? Infinitas formações continuadas que dificilmente saem do senso comum?

O primeiro passo para o entendimento e a construção da identidade do professor é dado e a chave de ouro é a resposta individual para a seguinte pergunta: professor, qual o motivo de ter escolhido a docência como profissão?

Ah, sim... Essa reflexão é muito importante para a carreira educacional em vários e diferentes aspectos. Ela contém significados que perpassam aqueles sentidos de senso comum, porque pode ser/estar atrelada ao estado emocional, social e até físico dos professores e – admirem-se – dos estudantes também. Estranhou essa colocação?

Bem, vamos entender melhor isso voltando muito brevemente na história da educação brasileira.

A Educação no Brasil se iniciou com os jesuítas que, sem formação para ministrarem aulas, assumiram a incumbência de doutrinar os povos nativos. A Educação desde o início, então, foi o meio – e não a finalidade – num processo de interesse em impor mais que a doutrina cristã aos povos nativos, mas também a cultura portuguesa, descartando a cultura local já existente e viva (FERREIRA JR.; BITTAR, 2005).

Por longo tempo, no Brasil, a formação do professor não foi deveras uma preocupação, já que bastava querer, saber ler e escrever e ter domínio das Sagradas Escrituras para se lecionar. Essa é a razão de o ensino ter se mantido vinculado por anos a fio ao ensino religioso e ao fato de padres estarem à frente das salas de aulas, pois cumpriam os requisitos básicos para lecionar (FERREIRA; TEIXEIRA, 2020).

Assim, segundo as autoras supracitadas, não é de hoje que momentos e circunstâncias, assim com liderança partidária, novas eleições e/ou motivos desconhecidos, projetos e sistemas educacionais locais, estaduais ou federais, mudam de nome, de função, de objetivo ou – não raras vezes – simplesmente deixam de existir, e a pergunta que persiste é: e o professor como fica?

Pois saibam, meus caros, que essa é uma herança histórica no Brasil em que a preocupação com a formação do professor e com o aluno são linhas paralelas que não se encontram e, desde o Império, a cada mudança de estado no domínio político alterações na nomenclatura, frequência ou existência de projetos e sistemas educacionais acontecem. É fácil compreender isso ao pensar que os próprios jesuítas foram forçosamente retirados da função e do território sem se calcular o que fora até então construído – acertadamente ou não – com os povos nativos, que precisaram ter a confiança ganha (SCACHETTI, 2013).

Diante dessas informações é que se torna tão importante tomar ciência do motivo que leva o professor à escolha da profissão, já que para se tornar professor – hoje – não basta mais aleatoriamente querer, saber ler e escrever e nem conhecer as Sagras Escrituras para poder lecionar.

Diferentemente do passado, o professor precisa de formação específica e universitária para exercer a profissão, mas está sempre em meio a cursos e formações continuadas que poderiam lhes trazer instrumentos complementares caso a formação básica, inicial, em sua graduação, tivesse-o instrumentalizado nas disciplinas Didática e Metodologia, tal como com programas de estágio obrigatório mais práticos que teóricos, como trazem as autoras Ferreira e Teixeira (2020). Por isso, aqui, o foco é o professor e a construção de sua identidade profissional.

Com a identidade pedagógica docente delineada, compreendida, situações desafiadoras como as atuais – que a pandemia escancarou – a capacidade de flexibilidade poderia ter evitado muitos transtornos e tensões que a insegurança pessoal intensificou.

A intencionalidade e a escolha da profissão – em qualquer meio/ramo – tudo têm a ver com fracassos e sucessos pessoais e profissionais e, embora compreender intimamente o(s) motivo(s) que levam/levaram todos à escolha da profissão docente não ser o único e exclusivo caminho para sanar ou amenizar desgastes próprios da profissão, essa compreensão apoia a busca por outros entendimentos que podem ser libertadores. Na Educação não é diferente, pois motivos e intenções interferem – devem interferir – na prática pedagógica que se adota e, consequentemente, nos resultados que se obtém.

Como? Entendendo e compreendendo que o seu motivo pode se atrelar a tendências – Tendências Pedagógicas – que oferecem sistematicamente um porquê, um como, um para que, um para quem exercer sua prática docente.

Porém, por hoje, atentar-se ao motivo pessoal que o levou a escolher sua profissão é o caminho libertador na iniciação da construção do seu perfil profissional com identidade, personalidade e determinação.

Acesse a obra da autora: Fracasso Escolar e Formação Docente Inicial: intrínsecas Relações