11/12/2020

Afirmar que negros são os mais lgbtfóbicos é racismo

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11/12/2020 - Pedro Ivo

Recentemente, ativistas brancos do Movimento LGBT publicizaram um perfil de segmentos populacionais mais lgbtfóbicos a partir de uma enquete feita nas ruas de São Paulo. Sem nenhuma surpresa, os discursos de alguns desses ativistas nas redes sociais logo concluíram que homens negros (cisgênero) são mais lgbtfóbicos.

Se utilizarmos um processo de indução argumentativa, em que questionamos: "qual o perfil racial de pessoas pobres em sua maioria? Qual o perfil de pessoas sem acesso à educação no Brasil? Quem são os que mais frequentam igrejas cristãs fundamentalistas?", caímos no sofisma de que os negros (homens negros) são os mais pobres, mais sem acesso à educação formal e os que são cooptados pelo fundamentalismo cristão que cerca essas pessoas e, por consequência, são os mais lgbtfóbicos. Reforçaremos, assim, o estigma do homem negro animalizado, não "civilizado", bruto e violento (para essa temática e debate mais a fundo, veja o meu livro Narrativas Afrobixas (2020), publicado pela editora Appris).

Por senso comum, sem pesquisa, sem dados numéricos comprovados, diríamos isso mesmo, porque o silogismo básico do raciocínio lógico é de duas premissas e uma conclusão, a partir do que é verossímil, provável... Mas o pressuposto em tela não é objeto de comprovação científica na academia; tampouco uma enquete de rua teria essa prerrogativa. Se falamos de números de negros que foram condenados por lgbtfobia, temos que levar em consideração os brancos que foram absolvidos, mesmo sendo culpados. Esbarramos no racismo jurídico. Pesquisas na área do Direito mostram como o sistema de condenação penal incide majoritariamente sobre corpos negros, em comparação a corpos brancos. Uma clicada só no Google acha isso. A advogada Gabriela Priori até citou com propriedade e referência as pesquisas acerca do tema, no vídeo da CNN Brasil, em 16/03/20, em que ela rebate acusações de Caio Coppola sobre tráfico e criminalidade de jovens favelados (negros).

Pensando nesse processo de comprovação estatística, pergunto: quantos brancos pobres foram entrevistados sobre lgbtfobia? E quantos brancos ricos? Quantos brancos estão nas grandes igrejas dos pastores deputados mais lgbtfóbicos e mais ricos? Seriam os negros parte considerável dessas grandes igrejas lgbtfóbicas da classe média e que abarcam milhares de pessoas? Quantas famílias pretas expulsaram seus filhos lgbt de casa? E quantas famílias brancas fizeram o mesmo? Existe esse levantamento distrital, estadual, nacional? E mais outras dezenas de perguntas... Só depois que todos esses números (e outros mais) estivessem compilados por região, num esquema em nível de IBGE, é que se poderia afirmar que, com base nas ações dos indivíduos de um grupo racial, existiria um perfil lgbtfóbico dessa ou daquela raça.

Se, de fato, conseguíssemos atestar, com propriedade científica, o perfil racial do grupo mais lgbtfóbico, no sentido da materialidade histórica do que temos hoje, do retrato deste grupo hoje, poderíamos, sim, refletir em como mudar esse senso discriminatório desse grupo. Poderíamos, inclusive, pensar em atitudes enérgicas, como a punição pela lei, mas não sem antes pensarmos numa mudança de pensamento e ações com base na educação.

Essa mudança só aconteceria se estivéssemos muito conscientes sobre qual o processo sócio-histórico que responde à pergunta: "por que esse grupo apresenta o perfil mais lgbtfóbico entre todos os grupos sociais?". Sem responder a essa pergunta, a punição seria apenas manutenção do controle e do poder sobre os corpos, na linha de pensamento do filósofo Michel Foucault (1975). Não seria educação; não seria a transformação social que almejamos.

 

Ao pensarmos em poder x resistência, com base no que expõe Foucault (2000 [1975-76]; 2014 [1976]) em obras como Em defesa da sociedade ou no primeiro volume de História da Sexualidade, dentre outras, observaremos a evidência de que o controle cis-heterossexista da sexualidade e o racismo são dois dentre diversos dispositivos de poder sociais do Ocidente para controle dos corpos. Se contemporaneamente os descendentes dos povos colonizados pela branquitude europeia reproduzem os elementos controladores desses dispositivos de poder, é em razão da perpetuação hegemônica desse código moral, ético, estético eurocêntrico, que é patriarcal, colonial, racista, cis-heterossexista. Código este que adentrou por séculos o tecido social nas colônias e que permaneceu no imaginário populacional, reproduzindo-se constantemente nas relações interpessoais (essa discussão é aprofundada no meu livro Narrativas Afrobixas (2020), publicado pela editora Appris).

Afirmar levianamente que o perfil do grupo social mais lgbtfóbico é de negros (homens negros), porque são pobres, porque não têm acesso à educação, porque são cooptados por grupos evangélicos fundamentalistas, nada mais é que desdobramento discursivo das estruturas do racismo. Em razão disso, nossa atenção deve estar voltada à identificação das artimanhas das ideologias de grupos detentores dos privilégios da hegemonia ocidental para estarmos conscientes do processo de imposição cultural de seus valores hegemônicos, evitando que a ignorância acerca dessa construção de opressão ratifique a subjugação social de minorias (ANZALDÚA, 1999).

É preciso compreender ainda que, por vezes, são essas artimanhas e valores que cooptam muitos ativistas LGBT ou de grupos negros ou das demais dissidências, levando-os a causar intrigas e confusões internas em nome do dinheiro, do ego e do “palco” das redes sociais e da mídia, reproduzindo o que querem os grupos hegemônicos, incitando a divisão por diferenças raciais, sexuais ou de identidades de gênero.

O entendimento sobre essas estratégias hegemônicas vem se construindo há décadas, como já expunha a pesquisadora, ensaísta, poetisa negra e lésbica estadunidense Audre Lorde (2009 [1983], p. 237, tradução nossa): “o estandarte do cinismo da direita é encorajar membros de grupos oprimidos a agir uns contra os outros, e por tanto tempo somos divididos por causa de nossas identidades particulares que nós não podemos nos juntar em uma ação política efetiva”. Ante essa perspectiva, entendo que a reprodução de opressões no âmbito individual se dá porque o poder é manifestado pelo discurso que estabelece o controle do imaginário social coletivo, de forma que inativa mudanças pontuais – individuais ou de pequenos grupos – a atingir estruturas sociais opressoras sedimentadas.

Acredito que uma saída dessa lógica social opressora seja estabelecer estratégias contra-hegemônicas pautadas no princípio da unidade na diversidade, dialogando entre nossas diferenças plurais para uma efetiva ação, a fim de construirmos valores capazes de orientar novos rumos às práticas cotidianas para a transformação social esperada. Com isso, talvez seja possível certa conscientização coletiva sobre a constituição dos dispositivos de poder para a desarticulação de seu controle social (FOUCAULT, 2000).

Assim, talvez, seja possível o enfrentamento de desdobramentos discursivos reprodutores da lógica hegemônica social, como o de que homens negros são mais lgbtfóbicos. São discursos como este – e outros similares – que reforçam e evidenciam a manutenção estrutural do racismo como dispositivo de poder na sociedade ocidental.

REFERÊNCIAS

ANZALDÚA, Gloria. Towards a new consciouness. San Francisco: Aunt Lute Books, 1999.

FOUCAULT, Michel (1975-1976). Em defesa da sociedade. Tradução de Maria Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FOUCAULT, Michel (1975). Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Lígia Vassallo. Petrópolis: Vozes, 2008.

FOUCAULT, Michel (1976). História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

LORDE, Audre. I am your sister: collected and unpublished writings of Audre Lorde. Oxford: Oxford University Press, 2009.

SILVA, Pedro Ivo. Narrativas Afrobixas. Curitiba: Appris, 2020.


Pedro Ivo é mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias (UEG), docente do Instituto Federal de Brasília (IFB), escritor/poeta e produtor cultural em Brasília/DF, membro do Coletivo de Escritorxs LGBT do DF (CELGBTDF) e do Coletivo Afrobixas/DF. Nagô em diáspora. Dissidente.