06/01/2021

Somos dependentes das más notícias?

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06/01/2021 - Benito Eduardo Maeso

Ao passearmos pelas redes sociais – e pelo funcionamento dos algoritmos que as regem – inevitavelmente seremos alvo de uma enxurrada de vídeos de gatos e cachorros. E de diversas notícias, vídeos e posts que parecem retratar o pior do ser humano ou a falência ética completa de nossa espécie.

À primeira vista, isso parece ser exatamente o contrário do objetivo principal das redes sociais e de sua construção narrativa de uma “vida de plástico” ou vida fake, onde não é permitido outro estado mental do que a felicidade pré-fabricada e o sorriso constante. A imagem projetada nas redes é o valor de troca do sujeito-mercadoria, aquele (ou aquela) que tem a si mesmo como “capital humano” em tempos de sociedade do espetáculo. Mas o palpite que permeia este texto é o de que a tristeza, a decepção e o permanente estado de alerta que as más notícias produzem no corpo social e na psique individual também são monetizáveis para os sujeitos-mercadoria. Mais do que isso, são viciantes, fazendo com que o indivíduo procure estar sempre devidamente abastecido de sua dose de “nuvens de tempestade” sobre sua cabeça.

Entender essa dinâmica passa por avançarmos no papel dos afetos e do desejo como elementos constitutivos, tanto da subjetividade como da sociedade. Se primeiro o indivíduo deseja – isto é, produz/sente/sofre/frui o estímulo emocional – para depois definir o objeto do desejo, conforme defendido por Deleuze e Guattari, a visão simplificadora de que uma pessoa desejaria somente afetos alegres, ou que teria a experiência do prazer somente por coisas boas que lhe proporcionassem um retorno feliz ou uma sensação positiva ao investimento emocional, deixa de lado o fato de que, em algum grau, toda pessoa recebe um “pagamento” na economia do desejo, independente do que lhe fornece tal retorno.

Dizendo de forma mais direta: o ódio, a tristeza, a angústia, os afetos tristes também podem provocar a sensação de recompensa emocional. Na sociedade neoliberal, na qual todos somos competidores uns contra os outros, é fácil oscilar entre a revolta com a informação recebida (devidamente mediada e pacificada pelas redes sociais e por ferramentas de pseudo-engajamento, dando a sensação de que nossa tristeza, indignação ou assinaturas virtuais fazem a diferença) e o secreto prazer de saber que ou você não é o único ou única que está em uma situação calamitosa ou que algo tão horrível ainda não ocorreu com você, num processo que pode ser chamado de socialização da desgraça. Como somos máquinas desejantes, produtores e consumidores constantes de desejos e estímulos emocionais, inconscientemente passamos a buscar o padrão mais fácil para satisfazer essa vontade. A partir do momento em que a experiência da tragédia e do inadmissível passa a ter valor emocional, estético e político, ou já não nos sensibilizamos com nada (1 ou 2 mil mortes por dia seriam a mesma coisa) ou precisamos da emoção constante da indignação, do lamento e do desamparo para dar sentido à existência. Ou seja, para termos algum tipo de recompensa pulsional em um tecido social absolutamente desprovido de sentido.

Da mesma forma que o otimismo perene e a tendência polianesca de sempre ver o lado bom de qualquer coisa é intragável em uma sociedade permeada de contradições, como se bastasse ter um mindset positivo gratiluz que tudo se resolveria, começar o dia com uma lauta quantidade de desgraças, violência, desrespeitos a direitos, frases ultrajantes e episódios inomináveis já no café da manhã (tática de guerra híbrida conhecida como firehosing ou sobrecarga) molda simultaneamente a apatia niilista e a incapacidade de reação, pois nada mais surpreende, tudo pode acontecer e é muito simples transferir o desapontamento e frustração com aquela ração de horrores no buffet das redes sociais (e ainda com a possibilidade de se escolher o prato principal da revolta mais de uma vez por dia) a todos os campos da vida pessoal, facilitando o processo de culpabilização que indivíduos fazem consigo mesmos e mesmas por qualquer insucesso ao lidar com as idiossincrasias do sistema.

Desenvolvemos o medo do fracasso, o medo do sucesso (pois poderemos fracassar mais tarde, então melhor evitar a decepção futura decepcionando-se agora), a sensação de que, caso algo dê certo para você, isto não está certo e, como em uma profecia auto-cumprida, inconscientemente agimos para garantir a auto-sabotagem e o reforço das estruturas de servidão, mas fazemos isso de forma voluntária. O efeito colateral do vício nas más notícias é a garantia de que notícias piores virão.

O segredo que eles não querem que você saiba para se tornar um “empresário de si mesmo”

Um truque simples e que funciona para você realizar seu sonho de ser uma empresa individual, mais eficaz do que sites de namoro 50+ que realmente funcionam ou pílulas que queimam a gordura e que os médicos não querem que você descubra!

Ser um empresário de si não é apenas adotar tecnologias de gerenciamento que, ao fim e ao cabo, servem para fazer cada um e todos adaptarem-se docilmente aos ditames do sistema. Sob um certo prisma, cuidado de si e gerenciamento de si são gêmeos siameses e apontam ao mesmo objetivo: se mudar o mundo parece impossível, mude a si mesmo para sobreviver, nem que para isso você acabe por se adaptar ao que mais detesta. 

Conheça os quatro passos necessários para o sucesso desta empreitada:

Passo 1 – o que é um empresário:

Se você é um empresário de si, é dono de uma empresa, a empresa é você mesmo.

O que essa empresa produz? Você.

Um produto não é nada se não for bem comercializado. Para isso ocorrer, deve ser mais do que um produto, deve ser uma mercadoria, sem conexão com o processo de produção e que se mostra como deificante e deificada a quem a cobiça.

Logo, você não pode aspirar nada além de ser a mercadoria que a sociedade espera que você seja.

Passo 2 – fundamentos de economia:

Como uma empresa funciona? Pela obtenção de mais-valor a partir do trabalho de outrem.

Mas se a empresa é você mesmo, quem é contratado? Você.

Quem é explorado? Você.

Quem é o explorador? Você.

Quem é o burguês e o proletário de si mesmo? Você.

Quem, no fundo, só tem a força de trabalho do corpo e da mente para “trocar” por menos capital do que gera para os acionistas dos aplicativos, mas supostamente por mais status do que ser um “trabalhador com direitos”, esse “perdedor? Você.

Quem é o escravo que faz essa dialética entre dominantes e dominados funcionar para sempre? Adivinhou, não é mesmo?

Passo 3 – ordem na casa:

Lembre-se: aceite sem questionar quaisquer ordens disfarçadas de incentivo, principalmente as contra sua própria integridade física e mental. “Vencer” exige disciplina e opressão, principalmente contra você mesmo. Seja seu próprio fascista: qualquer coisa que seu corpo ou psique der a entender que é excessiva ou que é impossível de ser feita, pois vai contra sua dignidade ou coloca em risco sua sobrevivência, deve ser sumariamente reprimida, mas sempre de um jeito “feliz”, otimista e incentivador. Elimine o outro, inclusive você mesmo, com um sorriso no rosto. Imite o que dizem que é o certo para você ser, e não se preocupe em ser quem você é: esse tal de “você” é chato, as pessoas não querem saber dele. Só precisam saber o que você mostra nas redes, sua última série no crossfit e seu ressentimento contra tudo e todos, todas e todes, que você foi ensinado a achar que são a causa dos seus problemas, ainda que tais pessoas ou fatos nada tenham a ver com a sua vida.

Passo 4 – saiba lidar com a concorrência:

Achou estranho, engraçado ou levemente petulante o autor deste texto ter usado chamadas que parecem ter sido tiradas de sites caça-cliques (clickbait) de internet para construir trechos deste texto? Imagina só quando você se der conta de que é exatamente por meio dessa linguagem martelada incessantemente em sua cabeça, que simultaneamente adula o seu ego e alimenta desconfiança em relação a qualquer pessoa – ops, concorrente –, que você recebe sua dose diária de estímulo para reproduzir essa lógica social de competitividade e intolerância com qualquer outro que não seja esse ideal projetado de como você deve ser, o que é muito diferente de como você é? Pense bem: você já não ouviu em algum lugar que as pessoas à sua volta são obstáculos para você atingir o segredo do sucesso? Já parou para pensar que essas pessoas também ouvem a mesma coisa a respeito de você? Progressivamente, você é ensinado ou ensinada a achar que não há família, amigos, colegas, apenas inimigos. Ninguém sabe mais que você, principalmente aqueles que estudaram. Nem você mesmo será tão bom um dia quanto como o mercado quer que você seja.

Lembre-se: tudo o que está acima é simplesmente impossível de ser atingido ou realizado por uma pessoa com o mínimo de sanidade ou amor-próprio. Mas não se preocupe: se você fizer qualquer questionamento em relação a esse padrão inalcançável, rapidamente você será convencido que a culpa é sua por não conseguir. Não importa que ninguém no mundo consiga, a culpa é apenas sua. E você irá acreditar nisso sem piscar.

Dica final, para quem leu este texto e entendeu de quem e do que realmente estamos falando:

Quer saber mais sobre como te ensinam a ser “normal” em um mundo psicopata? Conheça seus inimigos e também saiba com quem você pode contar. Leia As Diferenças em Comum.


Benito Eduardo Maeso é professor no IFPR, doutor em Filosofia Política Contemporânea e mestre em Estética e Filosofia da Arte. Integrante ativo do Grupo de Pesquisa em Filosofia Contemporânea (USP), do Grupo de Estudos Espinosanos (USP) e do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Ensino (UTFPR/UFPR/IFPR). Além de lecionar em universidades desde 2011, ousou mudar de uma carreira consolidada em comunicação e marketing para a Filosofia, visando estudar as consequências de sua área de origem sobre a sociedade e o indivíduo. Hoje, pesquisa as mutações das sociedades contemporâneas na economia política, na cultura, nas subjetividades e nas tecnologias de informação e comunicação.