07/01/2021

Escrevivendo pontes metafóricas

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07/01/2021 - Ana Claudia Oliveira Neri Alves

A literatura produzida por mulheres africanas e afrodescendentes aponta para o desejo de transformação histórica fruto das complexas articulações entre tradição e contemporaneidade, evidenciadas por meio da sua escrita. Neste texto, vamos tratar de duas autoras da literatura negra contemporânea com produções literárias representativas que versam sobre a questão do feminismo negro: Chimamanda Ngozi Adichie e Conceição Evaristo.

Segundo Elaine Showalter, em A literature of their own (1977), o texto deve refletir a experiência do escritor de forma que, quanto mais autêntica a experiência descrita, mais válido o texto é para o leitor. Nesse sentido, a vivência de Chimamanda como mulher, negra, estrangeira, que buscou educação fora de seu país e depois voltou à sua terra natal, refletem-se na representação ficcional das vivencias das personagens em sua obra e na apresentação dos valores da sociedade nigeriana.

A experiência das personagens, a princípio, pode parecer estritamente pessoal, mas Adichie descreve a condição feminina como o fruto de tensões sociais reveladas em sua luta diária contra o preconceito. Por meio das suas posturas, essas personagens denunciam as tensões sociais transindividuais que afetam, na contemporaneidade, a mulher negra, nativa e, de modo especial, a mulher diaspórica.

A escrita literária é reflexo da sociedade a qual o autor pertence, e por meio desse olhar, podemos vislumbrar os aspectos sociais, culturais e identitários e perceber o lugar de onde fala o escritor. Adichie divide suas obras em segmentos de formação de identidade das personagens que representam o processo da mulher negra pós-colonial e, assim, revela o compromisso e a identificação da intelectualidade africana com aqueles colocados à margem do que o discurso pós-colonial imperialista chama de progresso.

Chimamanda é hoje uma das vozes do continente africano na construção da sua nova identidade e atua na tentativa de desconstruir estereótipos acerca de seu povo, escrevendo sobre a África numa perspectiva transcultural, em que as diversas identidades dos sujeitos africanos são compreendidas nas relações de alteridade, nos conflitos internos marcados pela experiência da independência e pela influência externa do neoimperialismo e da globalização. Adichie usa o debate sobre a alteridade como um caminho que leva o leitor a compreender a contemporaneidade dos debates sociais e culturais africanos. A partir das relações pessoais e sociais vividas pelas personagens, a autora busca aproximar o leitor, familiarizá-lo e humanizar a visão que possam ter desses sujeitos africanos para, dessa forma, construir uma nova identidade para esses sujeitos perante os olhos do mundo.

Consideramos que é possível a obra (re)construir a vida, por meio de “pontes metafóricas”. Na trajetória de Adichie, observamos pistas de possíveis percursos e leituras de cunho biográfico que a autora utiliza na construção das suas obras. Ora em entrevistas, ora em ensaios e discursos proferidos por ela, conseguimos encontrar peças para a montagem do quebra-cabeça literário e biográfico presente em sua produção literária. A escolha das personagens femininas nos romances de Adichie não é mero acaso. Pela dupla marginalização, as mulheres inscritas em seus romances identificam outra sensibilidade, outra percepção do real, exteriorizado a partir de seu lugar subalternizado na sociedade (SPIVAK, 2010). Percebemos, portanto, uma narrativa impulsionadora de mudanças.

No ensaio, “Da Grafia – Desenho de minha mãe um dos lugares de nascimento de minha escrita” (2005), Conceição Evaristo, apresenta o conceito de Escrevivência, que consiste na escrita a partir das experiências que o autor obtém ao longo de sua vida. O ato de criar por meio da escrita pressupõe um dinamismo próprio do sujeito autor, de forma a proporcionar a esse sujeito a sua autoinscrição no mundo. Segundo Evaristo, a Escrevivência é consciência do vivido que faz da escrita compromisso como um lugar de autoafirmação das particularidades e especificidades do escritor, no seu caso, assim como no de Chimamanda, essa consciência é aquela de um sujeito-mulher-negra. A reflexão no campo individual resulta numa construção coletiva de significados que permeiam as subjetividades desses sujeitos-mulheres-negras. As rupturas que nascem das escolhas das escritoras trazem o espaço fundamental para colocar em pauta um possível diálogo das mudanças necessárias nos sistemas de discriminação de gênero institucionalizados. “A nossa escre(vivência) não pode ser lida como histórias para ‘ninar os da casa grande’ e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.” (EVARISTO, 2005, p. 3).

No encontro com a diversidade, ambas as autoras buscam representar um mundo onde os diferentes convivem cotidianamente, em relações que podem ser conflituosas, segregacionistas ou apaziguadoras. No universo de trocas que é a sociedade, as várias histórias sobre um mesmo tema podem ser encontradas nas vozes e ações de personagens de lados opostos e entre aqueles que escapam dos lados. Os textos de Evaristo e Adichie possuem em comum a missão política de idealizar outro futuro para si e para seu coletivo, o que lhes imbui de uma espécie de dever de escrita.

 

Surge a fala de um corpo que não é apenas descrito, mas antes de tudo vivido. A escre(vivência) das mulheres negras explicita as aventuras e as desventuras de quem conhece uma dupla condição, que a sociedade teima em querer inferiorizada, mulher e negra. (EVARISTO, 2005, p. 8).

 

Discutimos, aqui, como a escrita e a condição autobiográfica do sujeito autoral se articulam na obra de Chimamanda Ngozi Adichie. Por meio do conceito da Escrevivência, Conceição Evaristo nos possibilita perceber como Adichie, essa mulher negra nigeriana, busca inscrever no corpus literário contemporâneo uma forma de autorrepresentação individual e coletiva no contundente registro ficcional de questões raciais e de gênero apresentados em sua obra.

Consideramos essa possibilidade de reflexão sobre o papel da mulher negra enquanto escritora, verificando as operações estéticas a partir das quais se articulam o potencial da palavra e suas intervenções na vida prática. Essa proposta de leitura trouxe-nos uma nova perspectiva sobre a literatura, tanto de Adichie quanto de Evaristo: escritoras que vivenciaram vários estágios de um processo de afirmação identitária individual e coletiva e que não deixam de expressá-las em suas obras. Dessa forma, podemos inferir que, como propõe Evaristo, no seu conceito de Escrevivência, ambas, por meio da sua escritura, procuram se auto inscrever, não apenas como sujeito crítico, mas também como sujeito protagonista de uma mudança da realidade vivenciada, a de um sujeito-mulher-negra na sociedade pós-cultural globalizada contemporânea.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Da diáspora individual ao retorno redentor – a trajetória de Ifemelu em Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie.

Referência bibliográfica:

EVARISTO, Conceição.  Da Grafia – Desenho de minha mãe um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: ALEXANDRE, Marcos Antônio (org.). Representações Performáticas Brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 16-21.

EVARISTO, Conceição. Gênero e etnia: uma escre(vivência) de dupla face. In:  MOREIRA, Nazilda Martins de Barros; SCHNIDER, Liane (org.). Mulheres do mundo – Enia, Marginalidade e Diáspora. João Pessoa: UFPB, Idéia/Editora Universitária, 2005

SHOWALTER, Elaine. A literature of their own – British Women Novelists from Brontë to Lessing. New Jersey: Princeton University press, 1977.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.


 

Ana Claudia Oliveira Neri Alves é mestre em Literatura (UESPI), especialista em Língua Inglesa (UNESC), graduada em Letras/Inglês (UESPI), docente das disciplinas de Língua Inglesa e membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas - NEABI do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí-IFPI.