12/01/2021

Orixás, poliamor e ancestralidade

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12/12/2020 - Pedro Ivo

Por ser ancestral, a não monogamia existiu e perdura em diversas culturas. Atento-me neste texto às culturas ancestrais negras em África. Tatiana Nascimento, minha amiga, escritora e poeta, falou-me de um livro chamado Niketche, uma história de poligamia, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, que retrata bem essa existência ao contar a história de três esposas de um mesmo polígamo se unindo. Por sinal, já está na minha lista de leituras. Também histórias mitológicas dos Orixás, como a de Xangô e suas três esposas, Oya (Iansã), Oxum e Obá, retratam a não monogamia como ponto pacífico ancestral de outra cultura em África, a iorubana.

Mas se vamos falar seriamente sobre não monogamia e poliamor, vamos também falar seriamente sobre hierarquia – que também é ancestral – e como ela existe, sim, em relações não monogâmicas (poligâmicas, abertas, poliamorosas etc.).  Estava refletindo hoje sobre como é ilusório afirmar que não existem graus de diferenciação entre múltiplos parceiros amorosos, como me disse esses dias um crush poliamorista. Ora, foi ele mesmo que me disse, semanas antes, que acha tensa a relação de trisais em que um indivíduo entra muito tempo depois na relação dos dois primeiros. Apesar desse ponto de vista ser condizente com o que acontece na relação de vários trisais, há aqueles que estão muito bem, mesmo o terceiro tendo entrado na relação dos dois primeiros algum tempo depois.

Para muitos trisais, entretanto, isso não funcionou; uma hora o elo com um ou outro se quebrou. Por que isso acontece? A reflexão que iniciei se deu numa conversa com a Tatiana, a amiga que citei. Eu relatei a ela o que me disse esse crush, que “não tem isso de um ter mais importância que outro, todos têm valor igual”, contradizendo o que ele mesmo havia refletido sobre trisais, conforme mencionei. Ela me respondeu assim: “imagina que você tá namorando há dois anos com ele e conhece outro agora. Beleza, tesão, maravilhoso, lindo, mas, mano, tem dois anos de partilha, intimidade, contato, convívio... Isso de não haver hierarquia faz muito sentido em culturas brancas, onde a figura do mestre de saber, que é típica de culturas tradicionais, é apagada. Pro povo de Santo, todo mundo entende que hierarquia não é uma arbitrariedade, mas construção coletiva da percepção do valor da trajetória de cada qual ao longo dos seus anos de experiência e dádiva naquela comunidade”.

De imediato tive um insight sobre aquele itan de Xangô e suas esposas que citei no início. Itans são histórias mitológicas dos Orixás em versos de poemas em que há uma construção narrativa sobre aspectos muitos humanos dessas forças sagradas, muitas delas representadas por reis, rainhas, guerreiros, caçadores, sábios do povo iorubano.

No itan em questão, Xangô reinava tranquilo com suas três esposas, Oya, Oxum e Obá. Houve um momento, porém, em que Oxum, a segunda esposa, decide tirar Obá, a terceira, do caminho: diz que a comida preferida de Xangô, o amalá, seria muito mais bem recebida se Obá colocasse uma parte dela mesma na comida, e sugere a orelha. Obá, então, corta sua própria orelha e coloca sobre o amalá, causando a repulsa de Xangô, que a expulsa do reino. Obá se debulha em lágrimas e vira rio; não morre, encanta-se. Vira Orixá. 

Ora, Xangô rejeitou Obá, mas sequer teve consideração para entender o que a levou a fazer aquilo. Apenas a rejeitou e expulsou! Não importaram as explicações de Obá de que havia sido enganada por Oxum; ele simplesmente se livrou de quem lhe causara tanta repulsa! Oxum, por outro lado, conseguiu seu objetivo e ficou ao lado dele e de Oya. Um tempo depois, porém, decidiu sair da relação também e seguir sua vida de rio, de fluidez, de liberdade – que é o que essa Orixá também representa. Sobrou Oya como esposa de Xangô, a que estava desde o princípio e que continuou. Interessante perceber que, em outro itan, Xangô foi quem lutou e brigou e venceu a disputa por Oya, tirando-a dos braços de Ogum.

Os itans nos mostram, com isso, que Oya foi a primeira escolha de Xangô e a que continuou, ou seja, seu poliamor estava muito bem hierarquizado: Oya, Oxum e Obá. Por que será que Oxum não tentou tirar Oya do seu caminho, ao invés de Obá? Talvez, porque, além de Oxum e Oya já terem se relacionado, como conta o livro Mitologia dos Orixás, e por isso partilharem alguma simpatia, Oya estava há mais tempo na relação com Xangô. O elo fraco do amor de Xangô era Obá, a terceira. Depois de despachar Obá e vendo que não destronaria Oya, Oxum mesma decide ir embora; ela cansou! Oxum é a prefiguração do autoamor; e quem se ama não se submete àquilo que não mais lhe faz bem...

É bom saber que, no Candomblé, entendemos que amor verdadeiro não se pede a Oxum, mas sim a Obá, que foi a injustiçada por amar e acreditar que a intensidade do seu amor por Xangô era a mesma que Oya e Oxum também partilhavam. Então ela acreditou que qualquer uma das duas jamais provocaria a chateação do Rei, sabendo que ele amava as três de maneira igual. Obá acreditou que Oxum respeitava essa igualdade e que não mentiria para ela sobre cortar sua orelha. Mas, no fim, foi enganada!

Mais doloroso ainda foi descobrir que o amor Xangô não era tão horizontal como imaginava... Obá descobriu, com dor e lágrimas, que também existia hierarquia no poliamor do Rei e que Oxum já tinha entendido isso há muito tempo! Será que, por isso, Oxum também foi ser rio e desaguar em todo mar, ao invés de ficar presa no aquário do amor de Xangô?

O que quero dizer, com essa ilustração de uma história ancestral e mitológica negra, é que a hierarquia não é arbitrária e injusta; tampouco é incompatível com a não monogamia contemporânea, de relação abertas e/ou poligâmicas e/ou poliamorosas. Ainda mais se envolvem pessoas pretas, que carregam sua ancestralidade como bagagem para entender seu lugar e seu agir de maneira afrodiaspórica e afrofuturista (para mais desdobramentos dessa discussão, veja o meu livro Narrativas Afrobixas (2020), publicado pela editora Appris).

Tomando por base os itans mencionados, fica muito evidente que Oya estava no topo da hierarquia de Xangô, não porque ele a amasse mais que as outras, dessa maneira simplista que as pessoas tentam falar sobre (poli)amor, mas porque houve uma história na construção desse amor. Também houve uma história de construção dos amores por Oxum e por Obá, porém foram histórias que vieram depois de Oya. Logo, pela conceituação e entendimento hierárquico ancestral, no sentido do valor da trajetória, da experiência e da dádiva, como a Tatiana Nascimento tão assertivamente pontuou, cada uma das esposas sabia o seu lugar e o da outra na relação com seu amado, ainda que essa consciência tenha vindo em momentos diferentes. O Rei também tinha plena consciência do lugar de cada uma das suas três esposas na relação, sendo o primeiro de Oya.

Isso ainda se confirma, tradicional e popularmente, quando nós, que cultuamos Orixá, dizemos/cantamos que “Iansã virou rainha da coroa de Xangô”.

Acesse a obra do autor: Narrativas Afrobixas


Pedro Ivo é mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias (UEG), docente do Instituto Federal de Brasília (IFB), escritor/poeta e produtor cultural em Brasília/DF, membro do Coletivo de Escritorxs LGBT do DF (CELGBTDF) e do Coletivo Afrobixas/DF. Nagô em diáspora. Dissidente.