25/01/2021

Diferentes olhares e práticas sobre educação matemática

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25/01/2020 - Ana Maria Martensen Roland Kaleff - Professora titular da Universidade Federal Fluminense (anakaleff@id.uff.br)

Não quero acreditar em algo só pelo medo de não acreditar.
Não quero filosofar por medo que algo possa atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim;
por medo de errar, não quero tomar-me inativo.


Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável,
por medo de não me sentir seguro no novo.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de que senão poderia ser ignorado.
Por convicção e amor, quero fazer o que faço
e deixar de fazer o que deixo de fazer
Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor.

E quero crer no reino que existe em mim
Nego-me a me submeter ao medo que me tira a alegria de minha liberdade,
que não me deixa arriscar nada, que me toma pequeno e mesquinho,
que me amarra, que não me deixa ser direto e franco,
que me persegue,
que ocupa negativamente minha imaginação,
que sempre pinta visões sombrias.


No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo.

Eu quero viver, e não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por ter medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro e não
para encobrir meu medo.


E, quando me calo,
Quero fazê-lo por amor e não por temer as consequências de minhas palavras

Forjando a Armadura: Rudolf Steiner (1861- 1925)

Sabemos que o caminho pedagógico trilhado pela educação brasileira, há muito, apresenta-se sinuoso, com muitos obstáculos e muitas brumas; mas acreditamos que, como profissionais da educação, não devemos esmorecer, nem nos deixar engessar por nossos medos, nem permitir que nossos valores éticos e morais sejam transgredidos.

Refletindo sobre o pensamento do filósofo e educador Rudolf Steiner, acreditamos que as barricadas levantadas pelo “medo do medo”, pelo medo de errar como profissionais, podem nos “tornar inativo(s)”. Podemos nos impor algo que nos torne passivos socialmente, mas, segundo o poeta-educador, desse mesmo medo podemos “arrancar o domínio e dá-lo ao amor”

Também acreditamos que reconhecer a diversidade dos alunos na sala de aula e no ambiente educacional, até mesmo no de um laboratório de ensino, nos permite imaginar uma escola mais humanizada, onde diversidades e diferenças físicas, culturais e sociais sejam minimizadas.  Assim, uma escola mais humanizada pode ser um grande sonho para muitos e até considerada uma utopia por aqueles que não possuem um olhar para as diferenças, mas a busca por essa escola, no dia a dia das muitas realizações de nossas práticas, pode nos dar sentido e significado para o desenvolvimento da profissão que tanto amamos: a de professor de Matemática.

Sendo a Educação Matemática uma área de conhecimento que pode e deve ter papel primordial na escola, acreditamos que precisamos agir, sem medos e preconceitos, como professores educadores matemáticos integrais de nossos alunos em todos os níveis escolares para encararmos as diferenças, individuais e sociais. Devemos educar pela matemática escolar para a vida e seu cotidiano, e não somente para a realização da matemática científica

Acreditamos que a formação inicial ou continuada do professor, tanto a partir de um curso de Pedagogia, como o de uma licenciatura em Matemática, mereça a devida atenção por ser fundamental para um ensino de qualidade e para que o licenciando ou o docente produza resultados efetivos, também à luz de diferentes teorias de aprendizagem.

Foi sob essas considerações, nas quais acreditamos, que nós, Ana Kaleff e Pedro Carlos Pereira, reunimos pesquisadores e educadores matemáticos para comporem os textos organizados no livro Educação matemática: diferentes olhares e práticas, editado pela Editora Appris.

O livro tem por objetivo propor ao futuro pedagogo, ao licenciando em matemática e ao professor exercícios que gerem reflexões sobre práticas educacionais e sobre como elas se entrelaçam com o trabalho em sala de aula, no âmbito da formação pedagógica.

Os autores reunidos no livro são educadores matemáticos que participam da formação inicial de professores nas licenciaturas, em elaborações de recursos pedagógicos, e atuam como pesquisadores na Educação Matemática. Seus textos, como apresentados a seguir, tratam de conhecimentos construídos durante suas práticas, no ensino e aprendizagem da Matemática na sala de aula, tanto da
perspectiva do espaço de formação profissional quanto do entendimento sociocultural. Cada um desses educadores, em seus textos com abordagens inéditas sobre suas práticas, “[...] não fugiu de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não se sentir seguro no novo”.

Os capítulos do livro estão organizados em uma ordem epistemológica, a qual parte da apresentação de uma proposta pedagógica ampla e intensamente pesquisada, durante décadas, pela professora Nilza Bertoni para a aprendizagem articulada dos conceitos matemáticos ligados aos conjuntos numéricos mais elementares e suas operações. Nesse texto, é discutida a formação inicial dos professores e como práticas e caminhos considerados na proposta da autora ainda, em nossos dias, são desconhecidos, ignorados ou abandonados pelos responsáveis educacionais.

A seguir, Ettiène Guérios nos leva a refletir sobre como os professores que ensinam Matemática na educação básica compreendem o cotidiano e sua realidade, isto é, os afazeres dos professores nas atividades de formação continuada, em aulas nos cursos de licenciatura em Matemática e Pedagogia, ou em outra circunstância em que professores e futuros docentes tenham voz. 

Por sua vez, a professora Edite Vieira volta o nosso olhar para o ensino fundamental ao apresentar uma experiência com alunos do 3º ano, analisando o nível do pensamento geométrico dos alunos e seus conhecimentos prévios, a literatura infantil, a tecnologia digital e materiais didáticos manipuláveis para a sala de aula.

Com esses textos iniciais, buscamos permitir ao leitor um vigoroso olhar sobre a formação do professor e sobre o ensino básico, que desemboca no capítulo de interesse relevante para o momento atual da educação, no qual Nelson Lage e Teresa Piva apontam para algumas das vantagens da inserção das mídias digitais no ensino da Matemática ainda na escola básica

Em seguida, é apresentado o relato de Ana Kaleff e Fernanda Rosa sobre como um laboratório de ensino pode ser um local onde teoria e prática são discutidas para a criação de situações pedagógicas desafiadoras na formação do professor. Também apresentam as influências das ações insubordinadas criativas realizadas na criação de laboratórios de ensino e de Educação Matemática; bem como na implementação de disciplinas dessa área em um curso de licenciatura, nas quais foram incluídos temas sobre Educação Inclusiva de pessoas com deficiência visual. Dessa maneira, adentramos no campo sinuoso das políticas acadêmicas, suas brumas e incertezas, permitindo estabelecer o entendimento de como é possível criar relações entre diferentes áreas do conhecimento.

O texto seguinte, de Clélia Nogueira, permite voltar o olhar para a interdisciplinaridade entre Educação Matemática, Matemática, Educação Inclusiva e Educação Especial, para se poder compreender os interlocutores envolvidos no processo educacional e no questionamento do que, de quem e para quem se fala quando são abordados conteúdos da Educação Matemática Inclusiva.  A seguir, Fernanda Rosa enfoca a formação do docente que ensina Matemática frente à Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Essa reflexão possibilita reconhecer a diversidade e a heterogeneidade nas nossas salas de aula e no ambiente educacional, buscando, assim, antever uma escola realmente mais inclusiva, com a inclusão dos indivíduos, sem distinção.

Os dois capítulos seguintes nos ampliam o olhar de como buscar uma escola sem distinção dos indivíduos, mas agora sob a perspectiva da
Etnomatemática. As reflexões trazidas por Cecília Fantinato questionam quais caminhos têm sido trilhados pelas pesquisas nessa área e se é possível um trabalho pedagógico nas séries iniciais sob tal perspectiva. Enquanto que Sandra e José Roberto Linhares de Mattos possibilitam ao leitor adentrar a outro tipo de inclusão ao relatarem como a Etnomatemática pode ser relacionada a processos interdisciplinares escolares, focando o da educação escolar indígena e alguns dos aspectos políticos aí envolvidos.

No final da caminhada da leitura, não poderíamos deixar de olhar os saberes docentes ligados a um dos momentos mais emblemáticos e amedrontadores de uma licenciatura: o da criação do trabalho de conclusão de curso. Esse capítulo é de autoria de Pedro Carlos Pereira, Gabriela Barbosa e Renato Aquino

A partir dos capítulos apresentados e voltando a Rudolf Steiner, ousamos dizer que os seus autores têm agido “por convicção e amor” e podem “pisar firme” nos caminhos percorridos por suas práticas, porque estão “seguros e não para encobrir” seus medos. “E, quando” se calam, querem “fazê-lo por amor e não por temer as consequências” de suas palavras.

Esperamos que esse livro possa suscitar sonhos, devaneios, crenças, constatações, reflexões, raciocínios, bem como novos olhares e outras práticas.

Acesse a obra Educação matemática: diferentes olhares e práticas neste link.


 

Ana Maria Martensen Roland Kaleff possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1968), mestrado em Matemática pela Universidade Federal Fluminense (1972) e doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2004). É professor associado IV do Departamento de Geometria da Universidade Federal Fluminense. É professora do curso de pós-graduação lato-sensu Novas Tecnologias no Ensino da Matemática; da Universidade Aberta do Brasil – UAB. Tem experiência nas áreas de Matemática e Educação, com ênfase em Educação Matemática, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino de geometria, laboratório de ensino, materiais concretos e virtuais, ensino básico, visualização e educação inclusiva do aluno com deficiência visual.