24/03/2021

Esportes amadores: como atrair a atenção das empresas de tecnologia?

Tags: BLOG

24/03/2021 - Eduardo Cecconi

Clubes de futebol investem milhares (por vezes, milhões) de euros ou dólares em seus departamentos de análise de performance, seja ela técnica/tática ou física. Profissionais, softwares e aparelhos eletrônicos em constante atualização monitoram cada ação, minuciosamente, com precisão de milímetros e frações de segundo. Tudo é transformado em dados que abastecem indicadores transformados em informação relevante para dirigentes, treinadores e jogadores tomarem as melhores decisões.

Ainda em maior escala de integração entre performance e tecnologia, as franquias da National Football League (NFL) contam com departamentos altamente equipados e numerosos. Quem assiste às partidas de futebol americano já percebeu à beira do campo os jogadores estudando vídeos e fotos em dezenas de tablets, conteúdo produzido simultaneamente ao jogo pelos analistas do alto das cabines dos estádios.

Para não ter seu calendário impactado pela pandemia de Covid-19, a National Basketball Association (NBA) criou nas instalações da Disney, na Flórida (Estados Unidos), a “bolha do basquete”, centralizando os jogos no mesmo ginásio. O local foi aparelhado com câmeras de vídeo tracking, que recolhem automaticamente dados técnicos e físicos, e disponibilizam aos clubes incontáveis dados, gráficos, mapas e indicadores de forma instantânea.

Esses são apenas alguns exemplos de como os esportes coletivos de alto nível abraçaram a tecnologia da informação, investindo altas quantias para equipar ligas e clubes com inteligência artificial, big data, machine learning, entre outros conceitos de vanguarda. O que há muito já era realidade no meio empresarial e no mercado financeiro agora é usual também no cenário esportivo de ponta.

Afinal, essas instituições esperam converter o alto investimento tecnológico em resultados (vitórias, títulos, captação e formação de talentos), o que pode ser capitalizado com exposição da marca, patrocínios, direitos de transmissão, ampliação da rede de torcedores/consumidores, negociação de jovens etc. Mas e como ficam os esportes sem apelo comercial, ditos amadores, embora com grande número de praticantes?

Um exemplo desse dilema é o futevôlei, esporte nascido no Brasil, em ampla disseminação ao longo de todo o território nacional. Nem é preciso haver praia na cidade, basta erguer uma quadra com areia em local aberto ou fechado e em pouco tempo se observará a ocupação do espaço por dezenas de aprendizes e atletas.

Não havendo apelo comercial – sem exposição na mídia, sem quadro de torcedores, e ainda pleiteando o reconhecimento como esporte olímpico – o futevôlei está no limbo da tecnologia. As empresas não olham para uma modalidade que, apesar da grande adesão e do alto engajamento nas redes sociais, não consegue se tornar atraente para gerar dinheiro.

Como na maioria das vezes pagam despesas com recursos próprios, permutam patrocínios e vivem na esperança de conquistarem títulos locais para cobrir seus custos com a premiação em dinheiro, os jogadores também não conseguem investir em tecnologia. As escolas de futevôlei vivem de expansão da marca e de novos alunos, o que se tornou um desafio em meio a restrições impostas para conter o avanço da pandemia, não interessando a elas arcar com experimentos tecnológicos.

O desafio é atrair a atenção dos desenvolvedores de aplicativos para celular, startups interessadas em explorar um mercado de grande potencial em número de usuários, mas com baixa capacidade de investimento. Aplicativos para coleta de dados de desempenho simultânea aos jogos, por exemplo – um protocolo básico de scout com toques na tela, que ao final gera o relatório de desempenho – seriam de grande utilidade.

Aparentemente, esses aplicativos não demandariam grande complexidade para o desenvolvimento. Com baixo preço final, a vantagem estaria na quantidade de downloads. E trariam imediato impacto rumo ao profissionalismo, dando suporte a atletas e a treinadores na tomada de decisões técnicas e táticas, como fazem os grandes clubes de futebol, basquete e futebol americano citados.

E um joguinho para celular? A julgar pela quantidade de praticantes entusiasmados, posso imaginar o sucesso que faria um game baseado nas tarefas e gestos técnicos da modalidade.

Essas são apenas duas sugestões simples, sequer cogitei a utilização de vídeo tracking para medir distâncias e velocidades automaticamente, ou o processamento de indicadores de performance em big data. Apenas um protocolo de scout básico e um game, ambos para celulares, sem necessidade de envolver outras parafernalhas como câmeras e computadores.

Desenvolvedores e empresas estão sempre mirando no alto escalão, buscando espaço nos mercados mais ricos para tentar a sorte e faturar milhões em um grande negócio – o que, na maioria dos casos, não acontece. Quando os olhares da tecnologia vão focalizar os esportes amadores e encontrar soluções com retorno financeiro, que ajudem a desenvolver essas modalidades em direção ao profissionalismo?

Acesse a obra do autor neste link


 

Eduardo Cecconi é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é analista tático de futebol e autor do livro Futevôlei: compreender para jogar (melhor), publicado pela Editora Appris.