24/03/2021

Caleidoscópio da Fronteira: um olhar para unir o que se fragmentou

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24/03/2021 - Leonam Lauro Nunes da Silva

Esses escritos são fruto de um longo processo de imersão social e cultural junto às comunidades de Fronteira. Do interesse em nível acadêmico às vivências pessoais, o caminhar nessa seara une teoria e prática, baseando-se, sobretudo, nas observações e interações com as populações que vivem a fronteira diuturnamente. Sociedades que sentem os impactos concretos de ações que nascem por meio das políticas públicas concebidas pelos Estados ou mesmo se desenrolam a partir do anseio de autoridades regionais, que acabam por ocupar espaços de poder em face da ausência do aparelho estatal.

Tal feição tem raízes profundas na história e na forma como se aplicou o conceito de Fronteira, via de regra com o viés de separação, distanciamento, com clara feição bélica, na qual “o outro”, que vive para além das mal traçadas linhas imaginárias, é entendido como um ser exógeno, tido como potencial ameaça.

Essa visão, lamentavelmente, dissemina-se no seio da sociedade brasileira, que crê firmemente ser a Fronteira um lugar, por natureza, hostil, perigoso, situada nos confins da “civilização”, ficando, assim, suscetível às práticas entendidas como representativas da “barbárie”.

Vivendo na região há mais de uma década, faço das minhas ações plataforma para impulsionar um novo olhar para esse lugar, concedendo aos leitores e ouvintes a possibilidade de questionar representações erigidas ao longo do itinerário histórico e difundidas por meio de instituições não formais de ensino. Esse esforço militante em prol de uma visão positivada sobre a Fronteira e suas gentes só foi possível quando me dispus a cruzar as fronteiras da zona de conforto, do senso comum, passando a problematizar a longeva narrativa concebida, dando voz e protagonismo àqueles que, de fato, têm suas histórias entrelaçadas a esse rico e instigante universo.

A concepção sobre Fronteira que prepondera se constituiu por meio de um contexto de disputas e enfrentamentos, que remontam ao período colonial, quando os interesses geopolíticos em jogo eram os das coroas portuguesa e espanhola.

Ao partilharem entre si as terras habitadas pelos povos originários, exercitando a alteridade com a intenção de dominar, exercer o poder, subjugar, furtaram-se a aprender lições de como estabelecer vínculos profundos, baseadas no respeito ao “modo de ser” do outro. A carência desse aprendizado deixou sequelas às gerações posteriores, que cada vez mais se preocuparam e construir “muros” ao invés de “pontes”, enviesando a compreensão sobre o ser fronteiriço, desprovendo-a de seu sentido mutável, vivaz, e lhe atribuindo uma face dura, inflexível e repleta de estigmas negativos – muitas vezes lidos como verdades inexoráveis.

Fazendo analogia com o meio judiciário, é como se colocassem o mesmo “réu” reiteradas vezes a julgamento, com o veredicto previamente estabelecido, formulado a partir uma determinada “visão de mundo”, dando pouco ou nenhuma margem ao salutar exercício do contraditório. Almejamos por meio deste humilde escrito “reabrir o caso”. Afinal, a história fronteiriça nos reserva surpresas. Ao se deparar com o outro, tendemos a focar nas diferenças, porém há espaço para o reconhecimento de familiaridades, por vezes inimaginadas. E quando esse exercício de alteridade ocorre em plena guerra? Vamos conhecer mais?

Acesse a obra do autor neste link


Leonam Lauro Nunes da Silva é professor efetivo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT), Campus Pontes e Lacerda – Fronteira Oeste. Possui doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso, instituição na qual cursou o mestrado e a graduação, também em História. Coordenador do Projeto de Pesquisa intitulado “Costurando o invisível: representações positivadas da Fronteira Oeste”, executado na mesma instituição em que desenvolve seu labor.

E-mail:  namlauro@gmail.com