30/08/2021

A América Latina e o Brasil em um contexto de disputas pela hegemonia

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30/08/2021 - Por: Lívia Peres Milani

A influência de potências estrangeiras é, historicamente, um aspecto condicionante para as decisões e as possibilidades de autonomia dos países latino-americanos. Desde a formação nacional, com a colonização e contínua influência europeia, passando pelo período formativo da hegemonia estadunidense, até o pós-Guerra Fria, as decisões em política econômica e em defesa nacional foram influenciadas pela intensidade das relações com os EUA e com a Europa, que eram destino das exportações e os principais fornecedores de equipamentos e de doutrinas militares para a região. No contexto atual, esse diagnóstico torna-se mais complexo frente à expansão econômica chinesa, que inicialmente gerou maiores margens de manobra, porém, atualmente, é contrabalanceada pela reação estadunidense. Os EUA têm buscado manter e rearticular sua hegemonia, incluindo pressões para que os países latino-americanos afastem-se da emergente potência asiática. Nesse contexto, adotar uma estratégia de Política Externa que saiba se equilibrar entre as duas potências, garantir benefícios e minimizar pressões de ambas, tornou-se central para os países latino-americanos.

A hegemonia dos EUA e a expansão chinesa na América Latina

As relações China-América Latina tornaram-se mais importantes para a região a partir dos anos 2000, quando o comércio bilateral cresceu de forma exponencial, impulsionado pela demanda chinesa por matérias-primas e por sua oferta de produtos industrializados. Esse processo foi acompanhado pelas visitas de alto nível e pelos investimentos e empréstimos, quebrando o predomínio exercido até então pelo FMI e pelo Banco Mundial. Desde então, a China divulgou dois documentos nos quais detalha seus interesses na América Latina, que incluem desde a aproximação diplomática, até os intercâmbios culturais e a cooperação entre os militares, e participou da criação do fórum Comunidade dos Estados Latino Americanos (Celac) – China, atribuindo uma dimensão multilateral às relações com os países da região.

Ainda assim, as relações da China com a América Latina não são homogêneas, mas variam a depender do país em questão. Para citar alguns exemplos, cabe pontuar que grande parte dos investimentos é destinada a Venezuela, Brasil, Equador e Argentina e que, enquanto alguns países sul-americanos registraram períodos de superávits com a China na década passada, o México conviveu com déficits importantes e o seu comércio continuou centrado nos Estados Unidos. Em todos os casos, no entanto, trata-se de um comércio assimétrico, marcado pela exportação de matérias-primas e importação de produtos industrializados, que foi um passo inicial para a aproximação em outros temas, impactando na situação anterior da região, que tinha os EUA como principal parceiro.

Essa situação não passou despercebida pelos tomadores de decisão do governo americano. Embora parte importante da literatura e dos comentários da mídia tenham feito referência à falta de prioridade atribuída pelos Estados Unidos para a América Latina no pós-2001, isso nunca significou ausência de atuação. Na verdade, os EUA mantêm burocracias específicas para a América Latina e estas discutem o tema da presença chinesa desde os anos 2000, o que pode ser percebido pelas audiências no Congresso ou pelos discursos dos chefes do Comando Sul. Mesmo quando o então Secretário de Estado, John Kerry, discursava sobre o fim da doutrina Monroe, os militares estadunidenses continuavam a monitorar a presença chinesa e a buscar manter-se como “parceiros de escolha” de seus homólogos latino-americanos.

A intensidade da retórica e das reações, no entanto, aumentou durante a gestão de Donald Trump, quando os estadunidenses passaram a reafirmar a vigência da Doutrina Monroe, adotaram uma narrativa que caracterizava os investimentos chineses como predatórios e como uma nova forma de imperialismo, criaram programas específicos para impulsionar investimentos na região, a exemplo do América Cresce, e buscaram retomar seu protagonismo em instituições multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Por fim, as pressões mais nítidas para barrar o avanço chinês ocorreram no que se refere à demanda de que os países da região não contratem empresas chinesas para a instalação da infraestrutura de telecomunicação 5G.

Sete meses do início do governo de Joe Biden, não há indícios de mudanças relevantes nesse aspecto da Política Externa dos Estados Unidos. O discurso do governo continua centrado na visão da China como um desafio para a hegemonia estadunidense, como se pode notar, por exemplo, no Guia Interino para a Estratégia de Segurança Nacional, documento lançado pela administração em março do presente ano, que descreve a China como um país crescentemente assertivo e o único com capacidade para competir com os EUA. Ademais, na recente visita do Conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, para a América Latina, o 5G foi um tema central nos encontros mantidos nos dois países visitados, Brasil e Argentina.

O Brasil entre os EUA e a China

No caso brasileiro, a demanda para que o país abstenha-se de contratar empresas chinesas fornecedoras de infraestrutura de telecomunicação 5G, em razão de uma suposta abertura para a espionagem realizada pelo país asiático, foi combinada com a discussão de outros dois temas ressaltados pelos estadunidenses: a questão do sistema eleitoral brasileiro, sendo que os norte-americanos reafirmaram sua confiança na urna eletrônica, e seu possível apoio ao ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e em um programa de cooperação com a OTAN. Trata-se da continuação de um movimento de aproximação bilateral que já vinha de algum tempo, ao menos desde o início do governo de Michel Temer, – quando foi retomada a busca pelo ingresso na OCDE.

Nos governos anteriores, durante as gestões de Lula e Dilma Rousseff, a Política Externa Brasileira era guiada pela ideia de diversificar parcerias e pela busca de ampliar as margens de manobra no cenário internacional, com vistas ao aumento da autonomia. Naquele contexto, o Brasil buscou se aproximar da América Latina e de outros países do Sul Global, incluindo a China, mas não descuidou das relações com os Estados Unidos, com os quais sempre houve busca pela manutenção da cordialidade. No campo da cooperação entre os militares, ainda que o país tenha optado majoritariamente pela aquisição de armamentos europeus, houve a assinatura do Acordo de Cooperação de Defesa, que era uma antiga demanda da potência hegemônica.

O canário começou a mudar com a ascensão de Temer, quando houve uma busca de reaproximação com os EUA, intensificada com a eleição de Jair Bolsonaro. Este mantém uma postura de subserviência à potência, evidente do ponto de vista simbólico, como pode ser exemplificado pelo fato de que o presidente já bateu continência para a bandeira dos Estados Unidos. No que se refere à cooperação entre os militares, houve intensificação dos exercícios conjuntos, a designação de um brasileiro para atuar junto ao Comando Sul e a qualificação do país como um aliado extra-Otan. Ao mesmo tempo, é colocada em prática uma política incoerente em relação à China, com recorrentes críticas e ataques retóricos ao país, mesmo quando o Brasil depende do fornecimento de matéria-prima para o envase de vacinas contra o Coronavírus. Assim, em meio às disputas pela hegemonia entre China e os EUA, o Brasil decidiu romper com sua tradição – assim como com seu passado recente – de buscar equidistância e relações cordiais com seus principais parceiros comerciais, colocando em prática uma questionável estratégia.

Para saber mais sobre o histórico desse processo, conheça a obra Argentina e o Brasil frente aos Estados Unidos: entre a autonomia e a subordinação.


Lívia Peres Milani é Doutora e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP), bacharela na mesma área pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi professora substituta na Universidade Federal de Sergipe (2019-2020) e na Unesp – Campus de Franca (2017) e pesquisadora visitante no Centro de Estudos Latino-americanos (Clas) da Georgetown University, em Washington, D.C., com bolsa de doutorado sanduíche (Bepe) da Fapesp (2018-2019). É pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes/Unesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu). Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado no PPG RI San Tiago Dantas, com financiamento Capes-Print.