15/09/2021

Tormenta

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15/11/2015 - Aldinei Sampaio

Os grandes oceanos que cercam o continente do Império de Verídia a leste e a oeste são fontes de inspiração para muitas histórias e lendas. Suas águas, calmas e tranquilas quando próximas à costa, e cada vez mais agitadas conforme se navega para mar aberto, causam um fascínio quase irresistível para aqueles de alma aventureira. O que haverá para além daquelas ondas? Existirão outros continentes, habitados por outros povos? Ou seria aquele mar infinito, habitado por gigantescos e agressivos monstros marinhos?

Mesmo depois de tantos séculos de navegação e exploração marítima, ainda não se sabe a resposta para essas perguntas. E apenas aqueles dotados de excepcional bravura ou fenomenal estupidez ousam tentar a sorte além das regiões mapeadas e consideradas seguras. Diz-se que você precisa ser extremamente corajoso ou irrevogavelmente insano para navegar até a Grande Tormenta.

Os oceanos são navegáveis por milhares de quilômetros além da costa, mas a partir de um determinado ponto, correntes marítimas fortíssimas e ventos inacreditáveis criam ondas gigantes, capazes de fazer em pedaços até a mais resistente das embarcações. Pesadas e escuras nuvens cobrem a tudo, como um imenso nevoeiro negro ocasionalmente riscado por mortíferos relâmpagos. O barulho dos trovões é alto o suficiente para testar a coragem dos aventureiros, mesmo que estejam a centenas de quilômetros da tormenta.

Não importa se você esteja no oceano oriental ou no ocidental, qualquer tentativa de se afastar demais do continente, em qualquer direção, irá levá-lo a um encontro, possivelmente mortal, com a grande tormenta, que também é conhecida por muitos como o “fim do mundo”.

Estudiosos tentam investigar as causas desse misterioso fenômeno e conseguiram chegar a algumas conclusões, embora ainda estejam muito longe de encontrar uma explicação.

Mas, para o imaginário popular, nada é inexplicável. Conta uma lenda que certa vez existia uma linda moça chamada Sérpide. Ela era a filha de um temido pirata que atacava navios de carga que faziam a rota comercial entre o continente e o arquipélago de Halias.

Certo dia, o navio do pai de Sérpide foi emboscado por uma frota de embarcações de batalha liderada pelo grande capitão Ausonius. Houve uma grande batalha, onde os piratas, que lutavam até a morte, foram fragorosamente derrotados. Após o grande pirata perecer em combate pelas mãos do capitão Ausonius, Sérpide tentou se vingar da morte do pai desafiando o capitão para uma luta de sabres, até a morte. Pedindo para que seus oficiais mantivessem distância e não interferissem, Ausonius aceitou o desafio e assim iniciou-se o mais fabuloso duelo que aqueles marinheiros jamais voltaram a presenciar em suas vidas. Era uma luta surpreendentemente equilibrada, o vasto treinamento militar do capitão contra a rapidez e astúcia da jovem pirata. O embate durou o que pareceu uma eternidade, até que ambos perdessem as forças a ponto de serem incapazes de continuar segurando suas armas.

Variações mais românticas da história contam que, embora não admitissem, nenhum dos dois estava realmente interessado em vencer o duelo, mas o consenso é que, no fim, ambos se viram sentados no chão, de costas um para o outro, tentando desesperadamente recuperar o fôlego, enquanto os marinheiros gritavam animados e declaravam empate.

Ausonius se recusou a mandar Sérpide para as masmorras e acabou permitindo que ela fugisse antes deles chegarem ao porto. Semanas depois, enquanto perseguia um outro navio pirata, foi a vez do capitão sofrer uma emboscada. De alguma forma, um pequeno, mas muito bem treinado grupo de piratas haviam se escondido no navio antes da partida e, um a um, os marinheiros foram incapacitados. Novamente, as histórias mais românticas contam que não houve nenhuma vítima fatal por ordens expressas da capitã dos piratas: Sérpide.

Entretanto, ver o assassino de seu pai indefeso e à sua mercê não foi tão glorioso e satisfatório quanto a garota pensava. Muito pelo contrário, aquilo apenas mostrou a ela o quão vazia e solitária seria sua vida agora que seu amado pai não estava mais com ela e subitamente, ela percebeu que não valeria mais a pena continuar vivendo. Assim, ela libertou Ausonius, sabendo que seria presa e que pagaria por seus crimes com a própria vida. A única coisa que pediu em troca foi que ele deixasse os piratas dela irem embora.

Ausonius, no entanto, fez uma inusitada proposta aos piratas: trabalharem para ele, em troca das vultosas recompensas que teriam ao caçar outros navios piratas. Movidos por sua lealdade a Sérpide, e depois de muita negociação, os piratas acabaram aceitando o acordo.

Sérpide e seus seguidores cumpriram suas primeiras missões com contrariedade, mas a maioria daquelas pessoas, incluindo a própria Sérpide, eram dotados de espírito aventureiro e não demorou muito para adquirirem um gosto especial por aquele trabalho. Afinal, o que mais os motivava, até mesmo mais que o ouro, era o prazer da caçada, da derrota de seus oponentes.

Entre uma aventura e outra, Ausonius e Sérpide finalmente acabaram admitindo o grande elo que havia entre eles e decidiram se casar.

Então, um certo dia, o navio do casal foi surpreendido por uma tempestade e acabou se afastando demais da costa, ficando à deriva em mar aberto. A tripulação então foi surpreendida ao ver o navio cercado por monstros marinhos. Criaturas humanoides com aspecto de peixe pularam para o convés e iniciou-se uma batalha ferrenha.

Sérpide viu que aquela era uma batalha perdida, e quando Ausonius caiu mortalmente ferido, um homem de excepcional beleza surgiu e ordenou que os monstros recuassem. O recém-chegado apresentou-se como Adebaras, uma das Grandes Entidades que habitavam os mares e pediu que ela viesse viver com ele para sempre, com sua consorte, em troca da vida de seu marido.

Sem hesitar, ela aceitou a proposta e Adebaras curou os ferimentos de Ausonius e partiu, levando Sérpide consigo.

Completamente transtornado, o capitão navegou incansavelmente pelos mares durante anos, procurando uma forma de desafiar Adebaras e resgatar Sérpide, até que conseguiu irritar uma bruxa do mar o suficiente para ela concordar em lhe dar o poder que ele precisava para isso. Assim, o capitão trocou sua humanidade por poder e partiu para desafiar Adebaras.

O duelo entre ambos dura até hoje, e as Grandes Tormentas são causadas pelos espíritos conjurados por Adebaras e Ausonius. Isso explicaria relatos de marinheiros que juram ter visto, em meio à tormenta, ondas e nuvens com formatos de monstros e outras que lembravam soldados montados em cavalos brilhantes cavalgando em direção à batalha.

Adebaras teria transformado Sérpide em uma criatura das águas, o que explicaria uma estranha corrente marítima que teria surgido do nada e salvado diversos navios de serem engolidos pela tormenta. Esse fenômeno acabou recebendo o nome de “Corrente Sérpide”.

Acesse as obras do autor nestes links: Lassam: Um Conto ImperialSandora: O Império; Livro I Evander: O Império; Livro 2


Aldinei Sampaio nasceu em 1976 e é natural de Nova Santa Bárbara (PR). Atualmente, reside em Londrina (PR), com a esposa, Édina, e seus dois filhos, Sara Eloá e
Igor Levi. Formado em Tecnologia de Processamento de Dados pela UFPR, trabalha como arquiteto de software e escreve nas horas vagas. Sempre gostou de literatura, com predileção especial por obras de ficção. Participou por alguns anos de um grupo de RPG, tanto como jogador quanto como mestre, no sistema Dungeons & Dragons. Nessa época surgiram as ideias para os personagens principais do que anos depois viria a se tornar a série literária O Império.