20/09/2021

Os tipos de erro gramatical

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20/09/2021 - André Luiz Gaspari Madureira

Os falantes da norma culta são aqueles que baseiam a sua linguagem nas ditas formas de prestígio da língua. Geralmente, não sofrem estigmatização, isto é, não se tornam alvo do preconceito linguístico. Por esse e por outros motivos, costumam achar que seguem fielmente as instruções da gramática normativa e que não cometem erros gramaticais.

Seguir fielmente a gramática normativa é, no entanto, uma tarefa utópica. E há algumas razões para isso. Uma delas é que as gramáticas costumam divergir umas das outras. Enquanto algumas, por exemplo, condenam o uso do verbo assistir (no sentido de dar assistência, de ajudar) como transitivo indireto – somente construções do tipo “O médico assistiu o doente” são consideradas corretas; outras asseveram que esse mesmo verbo pode ter tanto transitividade direta, quanto indireta – o que permite também a ocorrência de frases como “O médico assistiu ao doente”. Desse modo, quem tenta seguir fielmente as instruções de uma determinada gramática corre o risco de cometer erros, do ponto de vista de outro manual normativo.

Mais uma razão está no fato de que o uso estrito da norma gramatical pode dar contornos de artificialidade à linguagem. É o que ocorre quando alguém decide utilizar uma construção mesoclítica numa conversa informal (“Dar-lhe-ei um conselho”), ao invés de propor uma estrutura mais coloquial (“Lhe darei um conselho”). Nas relações interpessoais, é muito importante adequar a linguagem ao público-alvo, bem como ao ambiente em que se dá a comunicação. E isso, muitas vezes, implica seguir na contramão da gramática.

Já que é impossível ser fiel à norma padrão, por que algumas pessoas têm a impressão de que falam e escrevem sempre de acordo com as regras da gramática normativa? O motivo é a ausência de classificação, pela gramática, de dois tipos de erro que ela mesma condena. O primeiro deles é o mais percebido por falantes da norma culta: o estigmatizante. Ele engloba construções que são socialmente discriminadas, como desvios ortográficos (“pobrema”, “galfo”), sintáticos (“nós vai”, “a gente somos”) e semânticos (“subi para cima”, “desci para baixo”). Trata-se de formas consideradas incorretas.

O segundo tipo é o não estigmatizante. Ele é o mais cometido pelos falantes da norma culta. Como não gera preconceito linguístico, passa quase sempre despercebido. Entretanto, a gramática o considera tão incorreto quanto o erro estigmatizante. É o caso de alguns desvios de colocação sintática (“ele custou a acreditar nisso” no lugar de “custou-lhe acreditar nisso”), de colocação de certas palavras (“eu torci o meu braço” no lugar de “eu torci o braço”), ou mesmo de regência (“Paulo namora com Márcia” no lugar de “Paulo namora Márcia”).

É importante mencionar que nenhuma dessas formas de linguagem é naturalmente incorreta. Para a Linguística – campo de estudo científico da linguagem –, esses dois tipos de erro, na verdade, são variações linguísticas que, como as demais, devem ser estudadas pelos critérios de adequação e inadequação. O estatuto de incorreção deriva da gramática normativa, que se baseia não na ciência, mas na estrutura social e política de uso de falares cultos dos séculos passados. Esse é outro motivo para haver tantas construções não estigmatizantes da linguagem, sendo categorizadas como incorreções de uso da língua portuguesa.

Muita gente questiona por que a gramática normativa não passa, então, a considerar corretas as variedades não estigmatizantes. Eis, aí, a pergunta que não quer calar! De fato, essa atualização diminuiria a dificuldade de seguir muitas regras, tornando-as até mais coerentes. De quebra, os tipos de erro seriam reduzidos de dois para um, até que o estudo gramatical pudesse alcançar um estatuto integralmente científico, privilegiando a língua real (com todo o rigor do estudo de suas adequações e inadequações), em detrimento da língua ideal dos tempos de outrora.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Coisas que a gramática não explica.


André Luiz Gaspari Madureira é pós-doutor pelo Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro, em Portugal. Doutor em Letras, mestre em Letras e Linguística e especialista em Estudos Linguísticos e Literários pela Universidade Federal da Bahia. Graduado em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade Católica do Salvador. Professor titular de Letras/Linguística do Departamento de Linguística, Literatura e Artes, e professor permanente dos cursos de mestrado e de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens, da Universidade do Estado da Bahia.

Orcid: 0000-0001-6709-3617.