28/10/2021

A medicalização do parto no Brasil

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28/10/2021 - Mariana Gouvêa de Matos.

No Brasil, até o século XX, as crianças nasciam em casa, sendo o parto um evento restrito ao âmbito privado. A assistência ao nascimento era de responsabilidade das parteiras, que, embora não dominassem o conhecimento científico, eram valorizadas por sua experiência. O parto era um evento essencialmente feminino, que geralmente proporcionava às mulheres confiança em sua capacidade de parir. Ao longo do século XX, o parto foi sendo institucionalizado, passando a ser vivenciado no âmbito público e na presença do médico, o que proporcionou a inserção masculina no nascimento. Aos poucos o parto hospitalar foi tornando-se predominante, resultando na delegação do trabalho de parto à figura do médico e na passividade da mulher no processo de parturição. Com as crescentes intervenções médicas, houve diminuição da mortalidade materno-infantil e, também, a medicalização do corpo feminino[1], [2], [3].

O Brasil dos anos 2020 chama atenção internacionalmente por ser um dos países que mais realiza cesáreas no mundo[4]. Nos estabelecimentos públicos de saúde, o parto vaginal é mais frequente do que nos estabelecimentos privados, o que não significa que as mulheres não sejam alvo de intervenções excessivas, como administração de ocitocina, peridural e episiotomia de rotina. Na assistência privada, restrita àqueles com maior poder aquisitivo, as cesáreas são predominantemente eletivas e pré-agendadas, constituindo-se em uma opção de parto valorizada pela elite brasileira, e não em um recurso para possíveis complicações no parto[5], [6].

A alta taxa de cesáreas indica o grau de hipermedicalização no qual se encontra o parto no país. Um problema complexo que envolve: as armadilhas do sistema de saúde que tornam as cesáreas mais atraentes financeiramente para os profissionais; a quase exclusiva atuação de obstetras nos partos, bem como a formação desses profissionais; e a crença da população na superioridade desse tipo de parto[7].

Diante desse cenário, o Ministério da Saúde financiou a primeira pesquisa no país cujo objetivo foi estudar o nascimento em âmbito nacional. O estudo “Nascer no Brasil” contemplou 266 maternidades em 191 municípios do país e 23.940 mulheres foram entrevistadas. Como resultado, a força da lógica mercantil apareceu como um componente importante por trás da epidemia de cesáreas e intervenções desnecessárias no trabalho de parto no país. A diferença entre a assistência no SUS e a assistência suplementar apontada anteriormente alimenta as desigualdades sociais existentes e atua no imaginário social de forma a supervalorizar a cirurgia cesariana como um bem de consumo. A possibilidade de realizar uma cesariana é percebida, dessa forma, como acesso à modernidade e à tecnologia, garantindo prestígio social. Apesar da discrepante porcentagem de cesáreas realizadas na assistência pública e na assistência privada — 38% contra 89,9%[8] —, em ambos os setores há carência de informações sobre o parto para a família, não se respeita a autonomia das mulheres e, por vezes, nega-se o direito ao acompanhante, tornando o parto um evento solitário, inseguro e doloroso[9].

O uso das tecnologias de saúde favorece a redução da morbimortalidade materno-infantil. Contudo, seu uso excessivo expõe mulheres e bebês a riscos físicos e psíquicos. As altas taxas de intervenções desnecessárias apontam para a triste realidade de que a prática médica não acompanha o conhecimento acadêmico da área[10]. As intervenções cumprem um papel rotineiro, desconsiderando a demanda clínica das pacientes e as evidências científicas do campo[11]. Os recém-nascidos estão sendo alvo de procedimentos desnecessários em seus primeiros momentos de vida e, ao invés de entrarem em contato imediato com seus pais, são levados para longe deles, adiando o momento de reconhecimento mútuo e dificultando o fortalecimento do vínculo afetivo.

Iniciativas do Ministério da Saúde, como a elaboração de manuais para os profissionais que atendem o parto, por exemplo, têm se mostrado insuficientes para reverter o modelo intervencionista de assistência ao nascimento no país[12]. A Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde preconizam a oferta de líquidos durante o trabalho de parto, a liberdade de movimentação, o uso de métodos não farmacológicos para o alívio da dor e a presença de um acompanhante. Tais recomendações são baseadas em evidências científicas e são seguidas por outros países com índices de cesariana mais próximos ao indicado pela OMS — 15%, enquanto no Brasil temos 52%.

Não só no Brasil, mas em diversos países ao redor do mundo, mulheres vêm relatando experiências de parto nas quais se sentiram violentadas, e o termo violência obstétrica vem sendo cada vez mais utilizado para designar tais experiências[13], [14], [15], [16], [17]. Apesar de não haver uma designação específica do termo, a Organização Mundial de Saúde[18] propõe direcionamentos acerca das práticas que devem ser consideradas violência obstétrica e aponta para a importância de pesquisas que investiguem o impacto de tais práticas na saúde das mulheres.

Entendo que não só o ambiente físico, mas também as trocas intersubjetivas estabelecidas durante o trabalho de parto — ou seja, o ambiente humano — são fundamentais para que as parturientes sintam-se acolhidas e possam vivenciar a experiência de parto de forma saudável. Winnicott[19] ressalta que nem todas as experiências de parto são traumáticas, apesar de serem experiências de intrusão ambiental. É possível que elas sejam percebidas como resultado de um esforço conjunto da mãe e do bebê, que, logo em seguida, retomam sua continuidade de ser. É preciso que a mãe entregue-se ao processo de forma semelhante ao bebê, identificando-se com ele. Para isso, é importante que o ambiente a ampare emocionalmente, proporcionando acolhimento e segurança. Se, ao contrário, o ambiente for tão intrusivo a ponto de afastar a mãe do seu “estado de ser” e afetar a “continuidade de ser” do bebê, o parto pode constituir-se em uma experiência traumática.

[1] JARDIM, D. M. B.; PENNA, C. M. M. Pai-acompanhante e sua compreensão sobre o processo de nascimento do filho. REME – Revista Mineira de Enfermagem, [s. l.], v. 16, n. 3, p. 373-381, 2012.

[2] NAGAHAMA, E. E. I.; SANTIAGO, S. M. A institucionalização médica do parto no Brasil. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 651-657, 2005.

[3] VIEIRA, E. M. Parte I – História, política, conceitos – A medicalização do corpo feminino. In: GIFFIN, K.; COSTA, S. H. (org.). Questões da saúde reprodutiva [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1999. p. 67-78.

[4]   LEAL, M. C.; PEREIRA, A. P. E.; DOMINGUES, R. M. S. M.; FILHA, M. M. T.; DIAS, M. A. B.; NAKAMURA-PEREIRA, M.; BASTOS, M. H.; GAMA, S. G. N. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 30,  p. S17-S32, 2014. Supl. 1. 

[5] CHAVES, R. L. O nascimento como experiência radical de mudança. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 30, p. S14-S16, 2014. Supl. 1.

[6] LEAL, M. C.; GAMA, S. G. N. Nascer no Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 30, p. S5, 2014. Supl. 1.

[7] SOUZA, J. P.; PILEGGI-CASTRO, C. Sobre o parto e o nascer: a importância da prevenção quaternária. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 30, p. S11-S13, 2014. Supl. 1.

[8] LEAL et al., 2014.

[9] AQUINO, E. M. L. Para reinventar o parto e o nascimento no Brasil: de volta ao futuro. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 30, p. S8-S10, 2014. Supl. 1.

[10] CHAVES, 2014.

[11] LEAL et al., 2014.

[12] LEAL et al., 2014.

[13] TESSER et al., 2015.

[14] DIAZ-TELLO, F. Invisible wounds: obstetric violence in the United States. Reproductive Health Matters, [s. l.], v. 24, n. 47, p. 56-64, 2016.

[15] SADLER, M.; SANTOS, M.J.D.S.; RUIZ-BERDÚN, D.; ROJAS, G.L.; SKOKO, E.; GILLEN, P.; CLAUSEN, J.A. Moving beyond disrespect and abuse: addressing the structural dimensions of obstetric violence. Reproductive Health Matters, [s. l.], v. 24, n. 47, p. 47-55, 2016.

[16] OLIVEIRA, M. C.; MERCES, M. C. Percepções sobre violências obstétricas na ótica de puérperas. Revista de Enfermagem UFPE online, Recife, v. 11, n. 6, p. 2483-2489, 2017.

[17] ZANARDO, G. L. P.; URIBE, M. C.; NADAL, A. H. R.; HABIGZANG, L. F. Violência obstétrica no Brasil: uma revisão narrativa. Psicol. Soc., Belo Horizonte, v. 29, p. e155043, 2017.

[18] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde. Genebra: OMS, 2014. Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/134588/3/WHO_RHR_14.23_por.pdf. Acesso em: 19 abr. 2018.

[19] WINNICOTT, D. W. Memórias do nascimento, trauma do nascimento e ansiedade. In: WINNICOTT, Donald [1949]. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

 


 

Mariana Gouvêa de Matos é doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, mestre e especialista em Terapia de Família e Casal pela mesma instituição e psicóloga pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua na área de família com interesses nos temas parentalidade, perinatalidade e infância, tendo desenvolvido pesquisas sobre a expectativa de jovens adultos frente à parentalidade, sobre a transição para a paternidade na atualidade e sobre a experiência subjetiva de pais e mães no parto.