09/11/2021

Se este pequeno artigo fosse um episódio de seriado: Game of Thrones, Tom e Jerry e a serialidade

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09/11/2021 -  Iara Villaça

SE ESTE PEQUENO ARTIGO FOSSE UM EPISÓDIO DE SERIADO, começaria, claro, com uma recapitulação, (o famoso “previously” ou “nos episódios anteriores”). Essa é uma estratégia muito utilizada em obras desse tipo, que visa colocar o espectador a par dos fatos importantes para a compreensão do episódio prestes a ser exibido. Aqui entra o conceito, cunhado por Humberto Eco (1989), de leitor modelo, uma espécie de figura imaginária com quem o autor dialoga ao escrever a obra, a fim de levantar o que o espectador/ouvinte/leitor (a depender do tipo de obra) precisa saber para acompanhar a história daquele episódio.

Pois bem, “PREVIOUSLY” ou “NOS EPISÓDIOS ANTERIORES”

CENA 1: Casa da minha mãe, maio de 2019. Ela assiste aos episódios iniciais de Game of Thrones (EUA-HBO, 2011[1]). Me diz que começou a acompanhar o seriado tão comentado. Corta.

CENA 2: Dias depois, cenas de milhares de pessoas assistindo ao último episódio no mundo inteiro. Eu e meu irmão, cada um em sua casa, acompanhando pelo aplicativo o desfecho da saga. Corta.

CENA 3: Casa da minha mãe, dias depois de finalizada a última temporada, ela ainda assiste à segunda temporada, mas demonstra conhecimento de acontecimentos de temporadas posteriores. O que teria acontecido?

CENA 4: Momento de epifania, quando finalmente deduzimos o que aconteceu. Narração acompanhada de cenas em flashback: nós três acessávamos a mesma plataforma, que na ocasião NÃO oferecia opção de vários perfis. A plataforma atualizava para os episódios mais recentes, conforme assistíamos, e retomava episódios antigos quando minha mãe acessava e conseguia retomar de onde parou (porque nem sempre conseguia).

CENA 5: eu imaginando como deve ser Game of Thrones para ela! Pois se trata de uma história cheia de reviravoltas e surpresas. Um pensamento então assalta a mente: e se, ao invés de GOT (Game of Thrones), a série em questão fosse Tom e Jerry (EUA-Metro-Goldwyn-Mayer, 1940), aquelas temporadas produzidas e/ou veiculadas entre as décadas de 40 e 80? Qual a consequência de assistir aos episódios fora de ordem? NENHUMA. Por quê?

Aqui começa o episódio de hoje, que visa refletir tecnicamente sobre essa questão. Que diferenças entre GOT e Tom e Jerry fazem com que assistir aos episódios fora de ordem traga consequências para um e não para outro?

Antes de tratar das diferenças entre os dois seriados, vamos entender as semelhanças. Primeiramente, o porquê de serem chamadas de séries e seriados. Série tem a ver com repetição, uma obra que tem similaridade com outras, como integrando uma “família”. Assim, cada capítulo/episódio/filme/edição está ligado a outro, na maioria das vezes pela história ou pelos personagens. Temos exemplos em várias linguagens: HQs/Comics (histórias em quadrinhos), franquias de filmes, novelas, radionovelas, fotonovelas, paródias, citações (uma história cita o personagem de outra), dentre muitas outras possibilidades.

No caso da série, a repetição está na própria estrutura narrativa: os mesmos personagens, com características reconhecíveis, transitam mais ou menos pelos mesmos lugares e vivem situações mais ou menos repetidas. Situam-se aí, as novelas e os seriados, que trazem muitos elementos conhecidos, responsáveis, justamente, por boa parte de nossa vontade de continuar a ler, ouvir ou assistir. Uma obra de arte que, na maioria das vezes, nos conforta por atender às nossas expectativas. (VILLAÇA, 2021, p. 34-35)

 

 

SE ESTE PEQUENO ARTIGO FOSSE UM EPISÓDIO DE SERIADO, entraria agora um flashback. Eu, em uma sala de aula da Facom – Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia – Ufba –, fazendo um curso sobre... serialidade! Em cena, o professor explica a divisão feita por Barbieri (1992 apud TEIXEIRA, 2014) das narrativas seriadas, por meio da análise de episódios que ele havia nos mandado assistir em casa (sim! O melhor “dever de casa” de todos!). A divisão ocorre em quatro categorias.

O que diferencia as quatro categorias propostas por Barbieri (1992) – iterativa, espiral, quase-saga e saga – é o aumento da continuidade, “a relação de sucessão lógica entre partes de um todo” (TEIXEIRA, 2014, p. 49). Assim, nas séries iterativas um episódio não possui ligação temporal com o outro, como é o caso de Tom e Jerry. Na quarta categoria, a saga, os episódios estão totalmente conectados temporalmente, como em GOT. Eis porque faz diferença assistir a uma série na ordem e outra não.

É importante mencionar, no entanto, que as divisões e conceitos são importantes para estudo, mas na arte os elementos se misturam e combinam. “Assim, um acontecimento pode estar ligado à trama do dia (iterativo), enquanto outro se refere ao arco narrativo[2] de toda a temporada (saga ou quase-saga), e um terceiro ao arco narrativo que dura três ou quatro episódios, por exemplo (quase-saga)” (VILLAÇA, 2021, p. 73).

A escolha de versões das décadas de 40 a 80 de Tom e Jerry, aliás, em lugar de uma série contemporânea (embora Tom e Jerry permaneça até hoje), se dá pela tendência atual de ampliação da continuidade. Tendo crescido na década de 80, assistindo a Profissão Perigo (MacGyver, EUA-ABC, 1985), He-Man (He-Man and The Masters of Universe, EUA-NBC, 1983), Scooby Doo (Scooby Doo, Where are you?, EUA-CBS, 1969)... e várias outras séries de animação ou não, não me lembro de se falar tão fortemente sobre temporadas, por exemplo. Nem sei quantos episódios foram feitos de cada uma delas. E sobretudo, não vivíamos sob a sombra, o terror, o medo de nos deparar com o temido... spoiler[3].

Hoje é difícil imaginar uma série totalmente iterativa. Mesmo as novas versões de antigos clássicos da animação são supersagas com elementos iterativos, espirais ou de quase-saga.

Quanto maior a continuidade, maior a necessidade de gestão de similaridade, a gestão entre repetição e inovação, visando atender ao sentimento “reconfortante” da redundância e à demanda por novidades. Repetição e novidade no âmbito daquela obra, não necessariamente inovações técnicas, no sentido de revolucionar a linguagem. Neste texto, por exemplo, a expressão “se esse pequeno artigo fosse um episódio de seriado” seria um exemplo de elemento de repetição. Enquanto os temas abordados em cada parágrafo (a história de minha mãe e GOT, a recapitulação, flashback, gestão de similaridade etc.) são os elementos de inovação, ou seja, que fazem a “história” (nesse caso, a reflexão) caminhar.

Que outras consequências traz o fato de uma série/novela/HQ possuir maior continuidade, sobretudo para quem escreve a narrativa? De onde vem esse tipo de narrativa fracionada? Como se deu suas mudanças de plataformas (publicações, áudio, audiovisual)?

Ora, SE ESTE PEQUENO ARTIGO FOSSE UM EPISÓDIO DE SERIADO, finalizaria com o gancho: a famosa estratégia de interromper um acontecimento em seu momento dramático, visando manter o interesse do espectador, leitor e ouvinte. Nesse caso, interesse pela leitura do livro do qual este artigo se origina.

Mais ainda, seguindo os exemplos das telenovelas veiculadas até aproximadamente as décadas de 80 e 90, trago elementos desconexos mostrando o que está por vir, as famosas cenas dos próximos capítulos, que, aliás, é o nome do livro.

Nesse caso, você lerá em Cenas dos próximos capítulos: radionovelas do século XXI: uma menina, da década de 30, que se envolve em uma aventura no Cangaço, Carlos Magno, zumbis, Chico Buarque, folhetins, telenovelas, radionovelas do século XXI (é possível?), web novelas (isso existe?), novas TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação), discursos periféricos, monstros imaginários, Milton Santos, Larossa, Sherazade... e chuva de papel celofane.

Como tudo isso se conecta?

“TO BE CONTINUED” ou “CONTINUA...”

 

REFERÊNCIAS:

ECO, Umberto. A inovação do seriado. In: ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

MACHADO, Thaiane dos Santos. Narrativas sem fim: Serializac?a?o em Desperate Housewives. 2010. 105 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicac?a?o e Cultura Contempora?neas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010.

TEIXEIRA, João Senna. Batman e Robin nunca morrera?o: a construc?a?o do ca?none e da continuidade na passagem de Grant Morrison pelo Batman. 2014. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Po?s-Graduac?ão em Comunicac?ão e Culturas Contempora?neas da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2014.

VILLAÇA, Iara de Carvalho. Cenas dos próximos capítulos: radionovelas no século XXI. Curitiba: Appris, 2021

 

[1] Mantive, aqui, o seguinte padrão de informações utilizado por Thaiane Machado em Narrativas sem fim: Serializac?a?o em Desperate Housewives: Nome veiculado no Brasil (nome original, país de origem/empresa produtora majoritária, ano de início de veiculação) (MACHADO, 2010, p. 43).

 

[2] Arco Narrativo: “uma história completa que leva mais de uma edição para ser concluída” (TEIXEIRA, 2014, p. 41). A expressão EDIÇÃO é utilizada nos comics. O correspondente ao CAPÍTULO ou EPISÓDIO, da obra audiovisual.

[3] Há, inclusive, uma famosa animação, majoritariamente iterativa, com elementos espirais, mas cuja falta de uma maior continuidade “traumatizou” uma geração inteira: A Caverna do Dragão (Dungeons & Dragons, EUA-CBS, 1983)

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Iara Villaça é mestre e graduada em Artes Cênicas (Interpretação Teatral), especialista em Metodologia do Ensino Superior, atriz, dramaturga, roteirista, pesquisadora, produtora cultural e educadora.