12/11/2021

Para mulher é tudo mais difícil? Mulheres de giras nos giros da Folia de Reis

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12/11/2021 -  Andiara Barbosa Neder.

Não é difícil afirmar na atualidade, no contexto brasileiro, que a mulher é capaz de atuar em toda e qualquer função, participar de todas as esferas da vida social e frequentar o ambiente que desejar. Porém, na realidade da vida cotidiana, nem tudo é tão simples para nós. A bem da verdade, como diria Maú, uma amiga que a folia me deu, “prá mulé é tudo mais difícil”! Que são capazes de fazer tudo, isso não resta dúvida, mas se podem fazê-lo, aí já é outra questão. Pois, se por um lado se mostram ativas e autônomas, por outro, muitas vezes são alvos de refreamentos, represálias e censura, por parte de homens que a cercam ou até mesmo de outras mulheres.

Nas festas populares não é diferente! Principalmente naqueles de caráter mais masculino. Um bom exemplo é a Folia de Reis. Mas será que elas aceitam ser subjugadas, excluídas e jogadas em um segundo plano? De certo que não! Mas como se dá essa inserção que não rompe tradições, mas as transformam? A autonomia dessas mulheres, sobretudo as negras, vem de onde? Dos mais recentes movimentos feministas, que questionam os papeis sociais destinados a elas, ou de uma estrutura social ancestral, que subverte a lógica do próprio tempo em que foi desenvolvida? É complicado visualizar as respostas sem compreender a trajetória das transformações. Então, neste texto vamos mergulhar nesse universo sem perder o fôlego, apesar das surpresas que ele traz em busca das respostas.

Tradicionalmente a Folia de Reis se caracteriza por um cortejo de homens, que uniformizados em fila tocam seus instrumentos e cantam, visitando as casas dos devotos e oferecendo-lhes a bênção da bandeira, símbolo sagrado da folia. O período de apresentação das folias, que se estende do dia 24 de dezembro a 6 de janeiro, é conhecido como giro. Até poucas décadas atrás, a figura feminina raramente compunha oficialmente o cortejo nos giros. Sua participação se dava mais nos bastidores da festa: na preparação dos jantares, nas promessas, na manutenção e confecção das roupas e todo tipo de serviço essencial, porém invisível ou invisibilizado. Hoje, o que se nota é um número cada vez maior de mulheres compondo o cortejo, atuando como instrumentistas e até como cantadoras de frente, que representa uma posição de destaque do grupo. Também não é estranho encontrar folias lideradas por mulheres e que carregam o seu nome. Como a Folia da Maú e Folia da Luíza, que tive o prazer de acompanhar para produzir a minha tese de doutoramento em Ciência da Religião. Tese essa que deu origem ao livro Entre giros e giras: por onde trilha o empoderamento feminino na Folia de Reis, publicado pela Editora Appris. O que essas duas mulheres têm em comum? Além da voz de comando, aptidão para liderança, capacidade de agregar pessoas em torno de si, respeito de todos e todas e carinho pelos foliões e folionas que lideram, elas com compartilham a mesma fé. Ambas são umbandistas e vivem em um contexto em que a religiosidade de matriz africana faz parte da cultura local. Em um quadro social em que uma mulher pode ser a autoridade religiosa e espiritual, como uma mãe-de-santo é para os seus filhos-de-santo, pode-se pensar no alcance de sua respeitabilidade enquanto liderança de qualquer grupo religioso, como é a Folia de Reis.

Apesar de a Folia de Reis ser uma festa que faz parte do calendário da Igreja Católica, não é raro encontrar grupos cujos componentes sejam majoritariamente umbandistas. Isso porque o Catolicismo Santorial, que abarca as festas em homenagem aos santos, é uma religião plástica, dialógica, que absorve influências de outras religiosidades e se vale delas para aderir-se e ter aceitabilidade nos mais diversos cenários. Essa é a beleza do catolicismo popular brasileiro, ser colorido e plural.

De acordo com a pesquisa que realizei durante o doutorado, os grupos estudados liderados por mulheres, não coincidentemente, possuíam a maioria de seus integrantes umbandistas, sobretudo as donas das folias. E quanto mais fechado e oposto à inclusão das mulheres nas esferas de visibilidade e poder da folia é o grupo, mais católico ele se apresenta. Isso espelha a rejeição da Igreja Católica em contemplar as mulheres com cargos de liderança em sua estrutura hierarquizada. Em contrapartida, a Umbanda já nasce em torno das mulheres enquanto líderes espirituais e exercendo cargos e funções de comando em seus templos.

Nesse sentido, importa reportar o nascimento da Umbanda. Não o mítico, datado do início do século XX, em uma casa espírita de Niterói, por meio de um médium homem, branco e de classe média. Mas o real, que surgiu com base nas casas de batuques e calundus, lideradas por mulheres negras, solteiras e pobres, que desde o século XVIII já se faziam ativas e presentes na vida religiosa de seus seguidores.

Nas Minas setecentistas, mulheres negras forras lideravam suas casas e mantinham o seu sustento e de seus filhos como podiam. Diversas formas de renda eram associadas: eram quitandeiras, as famosas “negras de tabuleiro”, ofereciam serviços espirituais e aplicavam seus conhecimentos com ervas medicinais, também ofereciam serviços sexuais e suas casas frequentemente tinham movimento noturno, como locais de lazer e de intensas trocas culturais, sobretudo de pessoas negras de diversas etnias. A possibilidade de alforria era muito mais palpável às mulheres do que para os homens, já que eles eram mão de obra imprescindível à lavoura em sua idade produtiva. Além disso, elas, enquanto negras de ganho, conseguiam juntar dinheiro vendendo seus quitutes nas cidades que se formavam em torno do ouro para comprar a sua liberdade e a de seus filhos. A esperança de liberdade dada a essas mulheres não deixava de ser uma forma de controle de rebeliões por parte dos senhores. Em um local onde mais de 70% dos habitantes eram pessoas de cor, como se dizia na época, estratégias de controle eram de grande valia para se manter o status quo.

 

Assim que se viam libertas e responsáveis por sua própria existência e de seus dependentes, elas recorriam ao exemplo de suas ancestrais. Na África pré-diaspórica, mulheres tinham autonomia e ganhavam seu próprio dinheiro em um sistema patriarcal. O modelo de casamento poligâmico as fazia donas de seus lares, que eram independentes da casa do cônjuge. Vendiam a produção de seus maridos nas feiras e eram ótimas comerciantes, construindo assim sua independência financeira. Educavam seus filhos e lhes direcionavam espiritualmente de acordo com os ensinamentos de suas mães, dando continuidade a uma cultura religiosa matrilinear, na qual a magia tinha centralidade. Essas mulheres eram comerciantes autônomas, responsáveis pelos seus lares e detentoras de saberes mágicos e religiosos. Apesar de não assumirem cargos de sacerdotisas na África, no Brasil suas descendentes o fizeram, visto que elas eram as donas dos terreiros onde os calundus aconteciam, onde uma proto-Umbanda nascia. Seguiram o exemplo de suas ancestrais ampliando o leque de atuação. É daí que vem a autonomia e liderança religiosa feminina na Umbanda, gestada em casas chefiadas por mulheres e que repercute até hoje no imaginário social e na vivência diária da religiosidade dessas pessoas.

As mulheres de giras nos giros contribuem principalmente como guias espirituais. Alguém que possui influência e contato com o sobrenatural, a fim de evitar qualquer contratempo dessa ordem durante os giros, agindo como mestre da folia, a figura de maior prestígio por conta de sua sabedoria. Os saberes tradicionais dos mestres, e também dessas mulheres, resolvem os problemas tanto dos devotos, que muitas vezes aspiram uma energia de cura quando pedem a bênção da bandeira, quanto dos foliões, que necessitam de proteção para sair em jornada representando os Santos Reis. Pois, segundo contam foliões e folionas, as almas sem luz buscam a luz da folia para se guiar. Com suas orações, mestres e/ou mães-de-santo conseguem encaminhar as almas perdidas.

Portanto, hoje as mulheres das giras se fazem presentes, atuantes e importantes também nos giros das Folias de Reis. Não rompendo a tradição masculina da folia, que não tem nenhum respaldo mítico- religioso para se manter intacta, mas modificando-a. A tradição, como parte da cultua viva de um povo, deve ser entendida como um organismo vivo. Dessa forma, está em constante mutação, é uma estrutura dinâmica e plástica, em movimento perene para continuar existindo, buscando se adaptar da melhor maneira possível. O que é flexível não se quebra com facilidade. Não são os mais fortes e rijos que sobrevivem no cenário cultural, mas os que melhor se adaptam às novas demandas e circunstâncias da contemporaneidade, sem perder sua essência.

Para saber mais sobre a atuação e autonomia feminina na Folia de Reis, sua relação com a religiosidade de matriz africana, o Catolicismo Santorial, cultura e tradições, confira o livro Entre giros e giras: por onde trilha o empoderamento feminino na Folia de Reis.