07/12/2021

Formação de sujeitos-cidadãos: compromisso de todas as áreas

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07/12/2021 -  Adriana Toso Kemp 

Ensinar é assumir o desafiador compromisso de dar suporte ao conhecimento e ser responsável por ampliar sua rede de sustentação simbólica. Cada área de conhecimento é parte integrante da totalidade orgânica do mundo e, desse modo, o exercício docente efetivamente comprometido com a formação dos sujeitos demanda, em todas as áreas, a compreensão dos aspectos formativos mais amplos do ser humano para a vida republicana e democrática.

Os desafios que se apresentam à humanidade no contexto contemporâneo são muito mais ligados às dimensões ética e estética da existência, do que à dimensão técnico-produtiva, pois são desafios que dizem respeito à superação do individualismo, para poder pensar e agir em prol da construção de um pertencimento à comunidade humana.

Vivemos um tempo de constantes inovações científicas e tecnológicas: os avanços na área da saúde envolvendo as pesquisas com células-tronco, as tecnologias capazes de superar limites da natureza e da força de trabalho do próprio ser humano para a produção agrícola, as inovações na comunicação que permitem a circulação imediata e ilimitada de informações, entre outros elementos, dão mostras do grau de desenvolvimento técnico e científico alcançado pela humanidade.

Entretanto, nossa convivência em praticamente todos os países do mundo está marcada por disputas territoriais, religiosas e, até mesmo, por direitos básicos. A infelicidade alastra-se entre os seres humanos, com registros cada vez mais significativos de doenças psicossomáticas, bem como de doenças decorrentes do uso indiscriminado de agrotóxicos, violências, terrorismos, genocídios etc.

Nesse contexto, evidencia-se, seriamente comprometida, a capacidade humana de construir critérios de razoabilidade para a convivência republicana e democrática. O estreitamento da noção de formação humana, na medida em que a educação é pautada pela racionalidade técnica com vistas a atender a uma lógica de mercado, aponta para o risco à conservação de um mundo humano comum. Instauram-se, nesse meio, formas de subjetivação e de produção de identidades pautadas muito mais pela individualização, como consumidores, do que pela atuação no coletivo, como sujeitos-cidadãos. São enfraquecidos, assim, o cultivo da virtude, princípio central de uma sociedade republicana democrática, e as próprias condições de possibilidade de humanização das novas gerações.

A função precípua da escola nas sociedades republicanas democráticas é a formação de sujeitos para essa forma de sociabilidade. Por isso, as perguntas feitas sobre educação não podem reduzir-se ao aspecto utilitário, instrumental dessa prática. É imprescindível pensar a educação e sua relação com o futuro da democracia.

Há que se refletir sobre o projeto educacional moderno, em suas fases sólida e líquida, conforme conceitua Bauman. A análise dos pressupostos balizadores da educação nas sociedades líquido-modernas desvela seu distanciamento do ideal clássico de formação e sua cooptação pelas demandas de mercado. Nesse aspecto, mais do que nunca, faz-se necessário enfrentar os desafios que se colocam no campo da educação com vistas a passar desse diagnóstico para uma ação de efetiva contraposição à tendência instaurada.

O capitalismo moderno ensinou-nos que a dominação era melhor que a compreensão mútua e a reciprocidade, que acumular bens e capital deveria ser o projeto de vida de cada um. E, para dar conta de transformar esse projeto em realidade, o sujeito, muitas vezes, precisa passar por cima de si mesmo, de seus próprios desejos e sonhos. Fazendo isso, como desenvolver respeito pelas necessidades dos outros e capacidade de cooperação, virtudes essenciais à sociabilidade republicana democrática? Que razoabilidade pode haver nisso?

Ensinamos que a escola é lugar para instrumentalizar-se para o trabalho, numa sistemática marcada pela meritocracia. Valorizamos o acúmulo de bens e capital como razão e finalidade da existência e nos espantamos com o individualismo e o consumismo de nossos jovens!

Entretanto, não encaro esse diagnóstico como um determinismo. A questão que se coloca é, então: como se contrapor a essa tendência? Ou, dito de outro modo: faz sentido propor ou fazer algo que possa ser mais do que uma instrumentalização das novas gerações para as demandas momentâneas?

 A perspectiva que assumo e proponho concebe a escola como tempo livre das pressões (re)produtivas. Trata-se de uma defesa da escola republicana cuja responsabilidade pedagógica é dar aos sujeitos base epistemológica, mas que também precisa oportunizar e potencializar a experiência, espaço-tempo para a formação de subjetividades com capacidade crítica, ética e estética.

Com base nesse entendimento, o processo formativo escolar não pode prescindir das humanidades, uma vez que são áreas potencialmente fazedoras de abertura ao questionamento e à interrogação da realidade. É própria de sua constituição a problematização das questões ético-morais e dos saberes que circulam na sociedade.

Na medida em que se reduz o investimento nas disciplinas humanísticas produz-se uma grave erosão das qualidades essenciais para a vida mesma da democracia. Se não insistirmos na importância fundamental das humanidades, como adverte Nussbaum (2010), estas desaparecerão, porque não servem para ganhar dinheiro. É imprescindível, portanto, no contexto das sociedades contemporâneas e líquido-modernas, fazer perguntas sobre o rumo da educação e, com ela, da sociedade republicana democrática. Isso porque a saúde e a qualidade da vida democrática são diretamente proporcionais à capacidade de seus cidadãos construírem critérios de validade para o funcionamento dessa forma de organização social. 

Nesse sentido, é imprescindível o lugar das humanidades no currículo escolar, bem como uma perspectiva humanista atravessando todo o processo formativo. Isso significa que as humanidades precisam integrar ativa e criticamente o currículo de formação da educação básica, não só, mas, em especial, no nível médio, para além de serem meramente toleradas como uma espécie de adereço na formação. E, para além disso, a defesa de uma perspectiva humanista em todo o processo formativo implica o reconhecimento da necessidade de recuperar o sentido filosófico do universal, compreendido como o comum na essência do espírito, o qual atravessou toda a produção de conhecimentos e compreensão de mundo elaboradas pelos gregos, cujo legado continua importante para nossa civilização contemporaneamente. Trata-se do desafio de recuperar a noção de totalidade orgânica que se tinha na Antiguidade Grega, agora com o devido respeito à individualidade, conquistado na Modernidade.

O ideal civilizatório da Modernidade carrega em si ambivalências que, contemporaneamente, comprometem a própria noção de humanismo, o qual carregou historicamente ideologias eurocêntricas e imperialistas. Evidencia-se, portanto, a necessidade e a importância de questionar esse ideal civilizatório. Entretanto, essa necessidade de questionamento não invalida, ao contrário, reforça a importância das humanidades no processo formativo humano, uma vez que elas são potentes, inclusive, para o tensionamento da própria noção de civilização. Se conseguimos questionar o ideal civilizatório do Ocidente, o fazemos “por dentro” das humanidades, isto é, tendo as humanidades como aporte teórico-conceitual para fazer esse questionamento.

A perspectiva que defendo constitui uma aposta na não neutralidade da educação, e sim na sua intencionalidade, a qual carrega e assume o compromisso com os princípios da universalidade; da igualdade; da individualidade; da autonomia do sujeito; e da laicidade, conquistados na Modernidade, como os melhores traços norteadores da vida em sociedade que a humanidade conseguiu, até então, inventar.

Mas é importante ressaltar que se trata de assumir esses princípios numa atitude crítica, numa práxis educativa pautada pelo rigoroso reexame, reformulação e reconsideração desses fundamentos, de modo a reconhecer as áreas do conhecimento como produções humanas situadas no tempo e no espaço, passíveis, portanto, de questionamentos, de revisão e de renovação, e não como verdades absolutas a serem transmitidas e consumidas. Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Em defesa da democracia: um contraponto à racionalidade técnica na educação de Adriana Toso Kemp.


 

ADRIANA TOSO KEMP é Doutora e mestra em Educação nas Ciências, graduada em Letras – Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e Respectivas Literaturas. Docente do ensino básico, técnico e tecnológico no Instituto Federal Farroupilha – campus Santo Ângelo.