20/05/2022

O PARADOXO MULHER - Uma reflexão para o Dia da Mulher

14/03/2022 - Por: Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco autora de Velhos Sim, Assexuados Jamais! A sexualidade no envelhecimento 

   Ainda que a biologia insista em mostrar que são os cromossomos XX que permitem ao ser humano ser uma mulher ao nascer, hoje compreende-se a mulher como um eterno tornar-se no mundo.
Simone de Beauvoir registrou para a posteridade sua famosa frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”. De fato é o tornar-se no mundo que transforma uma pessoa em mulher...
   Se antes os cromossomas já não eram garantia de gênero, hoje já não importam mais. O que conta de fato é o processo de ser mulher no mundo contemporâneo, o que não é fácil, diga-se de passagem.
   De acordo com a teoria da sexualidade em Freud, a criança inicia seu “tornar-se mulher” vivendo uma primeira grande paixão quando, amando a mãe, acaba por rivalizar-se com ela em busca do amor do pai. Mas como toda rivalização, vai aí um caldeirão de afetos desde o amor e a paixão, passando pela raiva, ciúmes, inveja, admiração e por fim o desejo de ser a mãe-mulher. Só este vai-e-vem de amores e de desamores descritos por Freud em relação à sexualidade da menina já é por demais complexo, difícil e doloroso propiciando uma necessária flexibilidade para fazer o percurso edípico.
   No momento atual da sociedade contemporânea, a menina percorre um caminho um tanto mais inusitado visto que muitas mães não estão exatamente em um relacionamento tradicional, podendo estar aí incluído outra mulher ou dois homens (o atual e o ex-companheiro). Pode não existir a mãe-mulher mas sim, em uma relação homoafetiva, ter-se um “pai-mãe”, aquele que faz a maternagem. Pode até não ter um terceiro e aí a menina se encontra com seu primeiro paradoxo em busca da triangulação. Em resumo, o tornar-se mulher se faz em relação às funções materna e paterna desenvolvidas por cada adulto, independente do gênero, que participe do desenvolvimento da criança, não obrigatoriamente familiares consanguíneos.
   Desta forma o ser humano vai, aos poucos, trilhando os caminhos dos múltiplos afetos, encontrando-se diante de tabus, tradições, violência relacionada ao gênero, desejos alheios aos seus que demandam comportamentos submissos, possibilidades e impossibilidades, amores correspondidos ou não, ódio, inveja, ciúmes, angústias e conflitos muitas vezes ligados a uma incompatibilidade com seu próprio corpo, enfim vai moldando-se, vai fraturando-se, vai desorganizando-se e reorganizando-se, transformando-se, criando coragem para resistir, desistir ou ainda transgredir. Vai tornando-se cada vez mais capaz de flexibilizar-se na caminhada do viver.
   Voltando a Freud sobre a sexualidade feminina e, posteriormente aos pós-freudianos, entende-se a mulher em processo de tornar-se no mundo, alguém passível de ser penetrada por infinitas questões sejam elas interessantes, criativas, educativas, tradicionais ou vanguardistas e, por sofrimentos, perdas, lutos, dor, ficando prenda do bem e do mal, podendo ou não escolher seu próprio caminho.
   Assim, mulheres podem se manter em casa, na tradicional família brasileira parindo filhos, podem estudar parindo carreiras, podem trabalhar parindo ideias criativas, podem ainda fazer tudo isso ao mesmo tempo.
   Tonar-se mulher é um ato de coragem, de valentia, de resistência, de proposta de mudança social. É poder amar e ser amada, ou perder um grande amor, é desejar casar-se ou não, ter filhos ou não, é fazer tudo como um homem pode fazer, ou preferir não fazer, deixando o lugar do homem como era no passado, pode trilhar sua sexualidade como bem entender, e por aí a fora, pode tudo ou nada. Depende de como possa ser possível o tornar-se mulher no mundo de hoje, mergulhada uma cultura ainda patriarcal, sexista e violenta...


Rita Francis Gonzalez y Rodrigues Branco (Rio de Janeiro, 08/05/1954) é médica Cardiologista pela Universidade Federal de Goiás, psicanalista com formação pelo Instituto Sedes Sapientiae, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás. Mãe de Arturo Alejandro, Victor Guillermo e sogra de Ana Carolina Gonzalez, juntos formam uma família goiana de coração e espanhola de ascendência, vivendo na bela cidade de Goiânia, Goiás. Como idosa, profissional, pesquisadora e professora de relação médico-paciente percebeu, ao longo dos anos, a lacuna que existe no conhecimento da sexualidade, principalmente em idosos. Criou o módulo de Sexualidade Humana no curso de Medicina da PUC Goiás, onde lecionou por 10 anos. Escreveu vários capítulos de livros de Medicina e de Educação e é autora do livro A Relação com o Paciente: teoria, ensino e prática. Tem como paixões as artes, especialmente o cinema, o teatro e a dança.