19/07/2019

Este lugar é meu: a perversão narcísica e suas consequências

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19/07/2019 - Por: Vera Lamanno-Adamo

 

A perversão narcísica é um conceito em evolução que diz respeito a um modo de se equilibrar se fazendo valer às custas de um outro.

Enquanto na estrutura perversa o outro é desumanizado, isto é, o outro é coisificado, na perversão narcísica o indivíduo recusa o valor do outro, para se manter imune ao conflito e à dor mental.

Na perversão narcísica o indivíduo usurpa o lugar e o valor do outro, negando ao outro o direito ao próprio narcisismo. O narcísico perverso sequestra o narcisismo do outro. Acredita que para não se sentir perdido e sem saída (embora não o assuma ou admita) é preciso se valer da vitalidade e criatividade do outro, sugá-lo, desrespeitá-lo, para submetê-lo ao seu domínio.

No entanto a violência cotidiana exercida pelo perverso narcísico não é do mesmo tipo de uma relação sadomasoquista, não é uma perversão explícita, ela entra no dia a dia de forma silenciosa, velada e enganadora, passando quase despercebida.

Enquanto o sádico experimenta prazer humilhando e maltratando o outro de maneira impulsiva, o perverso narcísico age por intimidação, produzindo perplexidade, paralisia, desvalorização, invadindo a mente de sua vítima/cúmplice por produção de culpa.

A vítima/cúmplice acaba aceitando todo tipo de compromisso em detrimento da própria autoestima, executando, muitas vezes, atos contrários à sua moral, pois se sente como um herói chamado a um grande combate, em que suas virtudes reparadoras poderão ser postas à prova.

A história real de Walter e Margaret Keane retratada no filme Big Eyes, de Tim Burton (2014), ilustra bem a dinâmica do narcísico perverso e sua vítima/cúmplice.

Na década de 1960, Walter Keane foi homenageado por seus retratos sentimentais – crianças com grandes olhos – que vendiam aos milhões. Mas, na verdade, Margaret, sua esposa, era a artista que trabalhava em virtual escravidão para manter o sucesso do marido.

Eles se conheceram, aparentemente, em uma exposição de arte ao ar livre em São Francisco. Mais tarde naquela noite se encontraram, e se casaram pouco tempo depois. Margaret estava se sentindo insegura e incapacitada para criar sua filha sozinha.

Os dois primeiros anos de casamento foram bons, mas tudo mudou na noite em que Margaret descobriu que Walter estava vendendo suas “crianças de grandes olhos” como se fossem produções suas. Eles estavam em uma espécie de salão em São Francisco, Walter estava vendendo os quadros, quando alguém de repente perguntou à Margaret: “você também pinta?”. Ficou chocada ao descobrir que o marido levava todo o crédito do trabalho dela para si mesmo.

Em casa ela pede a ele para desmanchar essa mentira, para que revele a verdade, e Walter, justificando-se, diz: “nós precisamos do dinheiro, as pessoas tendem a comprar quadros quando acham que estão conversando com o artista, elas não querem saber que não sou eu o pintor e que preciso que minha mulher pinte, as pessoas já acreditam que eu sou o pintor das ‘crianças de grandes olhos’; se eu, de repente, disser que é você, eles irão nos processar”. Margaret cede à mentira.

Walter ofereceu uma solução: “ensine-me como pintar essas crianças de olhos grandes”. Ela tentou, mas ele não conseguiu e dizia que era por culpa dela, que ela não tinha paciência para ensiná-lo.
Margaret sentia-se cada vez mais trapaceada e incomodada com aquela fraude. Querendo se livrar dessa impostura, solicitava à Walter que dissesse a verdade e ele reagia cada vez mais com ameaças de violência; Margaret se intimidava e acabava levando a situação adiante.

No anos 60, as pinturas, os posters e postcards de Margaret ganharam fama internacional, estavam em todos os lugares, livrarias, shoppings, museus, mas ela não tinha acesso ao dinheiro. Eles se mudaram para uma bela casa com piscina e empregados, Margaret não precisava fazer nada, exceto pintar. Nessa casa, ela ficava trancada em seu atelier, ninguém podia entrar lá, nem mesmo sua filha. Nem mesmo os empregados sabiam disso, e quando Walter saía ligava de hora em hora para saber se ela estava em casa. Margaret sempre pintando em segredo em seu atelier, com portas fechadas e a cortina cerrada.

Depois de dez anos de casados, oito deles terroríficos, Margaret pediu o divórcio. Walter se desesperou: “Você vai destruir tudo... você vai me destruir... eu só queria ser um pintor, só isso...”. Margaret não cedia e, com a desenvoltura de um showman e a frieza de um impostor, Walter dizia: “ninguém saberá a diferença entre a cópia e o original”.

Margaret sustentou sua decisão, mas prometeu a Walter que continuaria pintando por ele. Depois de ter lhe enviado umas 20 ou 30 pinturas, decidiu que não iria mais compactuar com aquela farsa, que dali por diante só iria falar a verdade. Levou um longo tempo para Margareth reconhecer que estava sendo cúmplice de uma violência silenciosa que ao longo do tempo foi ruindo a sua autoestima e paz interior.

A história de Margareth e Walter Kane, a dinâmica vampiresca que se estabeleceu entre eles, está pintada em cores fortes. No entanto essa dinâmica, na maioria das vezes, é muito mais camuflada.

Como sugerem as abundantes histórias sobre vampiro na literatura, essa figura mitológica tem desde uma aparência repugnante, como as representadas em lendas de diferentes povos da antiguidade, até a figura aristocrática, carismática e sofisticada, descrita no romance de John Polidori, The Vampire. Cada um deles apresentando diferentes graus de sofisticação nos atos de sedução, manipulação e indução de culpa com o objetivo de sugar a essência vital de sua vítima/cumplice.


Vera Lamanno-Adamo é psicanalista, membro efetivo, didata e docente do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Campinas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre em Humanistic Psychology pela Antioch University (Antioch for British Studies, Londres). Doutora em Ciências Médicas pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Autora de vários artigos publicados em revistas nacionais e internacionais e dos livros Trabalho do Negativo, publicado pela Editora Pearson/Casa do Psicólogo em 2014, e Vivendo na Fronteira: psicanálise e arte, Editora Appris. Recebeu os prêmios “Psicanálise e Liberdade”, no Congresso de Psicanálise da FEPAL em 2012, e “Revista Brasileira de Psicanálise”, no XXIV Congresso Brasileiro de Psicanálise em 2013.