16/05/2022

Pesquisa em dança no Brasil

Tags: BLOG

16/05/2022 - Por: Cláudio Marcelo Carneiro Leão Lacerda autor de Contraespaços: criações coreológicas em dança e a arquitetura de Zaha Hadid (Editora Appris, 2021) 

      A pesquisa em dança no Brasil está em franco desenvolvimento. Sua produção na academia é, em sua própria existência, um desafio, pois coloca arte e ciência para dialogar e apresenta e insere o corpo, com seus saberes e experiências, como um elemento que, conectado a outros, produz conhecimento e encadeia reflexões que envolvem todas as áreas de experiência do indivíduo, seja na relação sensível com o ambiente que habitamos, na produção e fruição artística, nas relações interpessoais, sociais e políticas, na educação, na antropologia, na história, na área da saúde.

            A pesquisa em dança chacoalha um pouco as premissas mais ortodoxas de pesquisa, pois questiona a posição do sujeito da pesquisa como um corpo sedentário que olha distanciadamente o seu objeto e do objeto da pesquisa que não se confunde com o sujeito pesquisador. Nessa perspectiva o objeto pode ou não estar em movimento, mas o sujeito, geralmente, não está. Grande parte das pesquisas em arte se valem de um viés pós-positivista, utilizando metodologias qualitativas menos ortodoxas, nas quais sujeito e objeto se interpenetram, pois ambos se afetam entre si e ambos estão em movimento, logo, em transformação. Especialmente na pesquisa em dança, e em outras áreas nas quais o corpo ocupa um lugar privilegiado, a pesquisa vai adquirir uma característica incorporada, isto é, as informações em trânsito circularão necessariamente pelo corpo, envolvendo seus saberes, e seus fluxos influenciarão os fluxos que a pesquisa desenvolverá. Isso se torna ainda mais presente em abordagens metodológicas que consideram a prática como motor da pesquisa, como, por exemplo, a Prática como Pesquisa (Practice as Research) e suas ramificações. Esta pode acontecer em várias áreas de conhecimento, como tecnologia, ciências, artes etc.

            Quando relacionada à pesquisa em dança, a Prática como Pesquisa vai colocar o corpo dançante, criativo e sensível como locus de discussões, experimentos e questionamentos. O corpo em seu fazer artístico estará em um papel além de um mero ilustrador de teoria(s); ele próprio irá ser o motor questionador e produtor de teoria ou de prática-teoria, já que essas dicotomias há muito vêm sendo questionadas e discutidas, como corpo-mente, fisicalidade-intelectualidade, arte-ciência, criatividade-análise etc.

            Vários assuntos podem ser colocados em discussão na pesquisa em dança e gerar questionamentos, por exemplo: relações anatômicas e somáticas do corpo em movimento/dança; relações na educação, tanto na formação ampla do sujeito como na formação específica em artes/dança; modificação de costumes em determinado grupo ou segmento social a partir de uma manifestação de dança; vários modos de criação coreográfica e criação em arte envolvendo o corpo; diversas relações entre dança e outras áreas do conhecimento, como arquitetura, outras áreas artísticas, psicologia, antropologia, história etc.

            Pode-se vislumbrar um pouco da potencialidade do que a pesquisa em dança pode gerar no livro Contraespaços: criações coreológicas em dança e a arquitetura de Zaha Hadid (Editora Appris, 2021). Neste a obra da arquiteta iraquiana-britânica Zaha Hadid serve como inspiração para a criação e experimentação em dança do autor, que é artista, docente e pesquisador. Seguindo a metodologia da Prática como Pesquisa, várias reflexões se desdobram sobre o campo da criação em dança, das relações entre dança e arquitetura e diálogos entre diversos autores de áreas diversas como dança, filosofia, arquitetura e artes visuais.