20/05/2022

A Bahia Não Sai de Mim: Diáspora, Migração e Xenofobia no Sul do Brasil

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20/05/2022 -  Tatiane Silva Cerqueira Santos autora de A Bahia Não Sai de Mim: Diáspora, Migração e Xenofobia no Sul do Brasil

A  professora Mariângela Nascimento, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em um texto escrito no ano de 2018 chamado Mobilidade Humana em Contexto de Mudanças, chama-nos atenção para uma nova forma de olhar a situação migratória, levando em consideração as mudanças em que o principal protagonista é o ser humano em busca  da sua libertação, seja das condições precárias de vida, desastres ambientais,  de trabalho, da opressão patriarcal, social e cultural.

Diante da questão colocada pela professora Mariângela (2018) sobre migração, podemos pensar em algumas perguntas: já parou para pensar como nós brasileiros e brasileiras tratamos os/as (i)migrantes no Brasil, sejam migrantes internos (vindos de outros estados) ou estrangeiros (de outros países)? E quando nós brasileiros/as migramos para outros países, como somos recepcionados? Ou como gostaríamos de ser tratados? Imagina um migrante interno/a de um estado para outro ser tratado como estrangeiro, pelo fato de ser um ser humano negro, em seu próprio território?

De fato, o movimento migratório faz parte da história do Brasil, desde a invasão dos colonizadores, com a migração forçada de negros pelo tráfico negreiro, e o incentivo de ingressos de migrantes europeus, principalmente na região Sul do país, com o objetivo de embranquecer a população. Na mídia e nas redes sociais, apresentam-se cotidianamente notícias de migrantes estrangeiros — um exemplo importante para reflexão é a chegada de haitianos, que saíram de seu país por conta de um desastre ambiental (terremoto), deslocaram-se ao Brasil e moveram argumentos na sociedade, os quais iam da ideia de acolhida ao repúdio dessas pessoas, com intensas práticas xenófobas. Uma questão importante é que os migrantes haiatanos são migrantes negros, e aqueles que moram na região Sul do país, como por exemplo na Grande Florianopólis, lócus de pesquisa da antropóloga Tatiane Santos (2020), são confundidos com baianos ou vice e versa. A racialidade é um fator considerável para os corpos negros que (i)migram. Isso porque o Brasil tem base de organização estruturalmente racista, em que a sociedade submete determinados grupos de pessoas em condições de subalternidade, elevando as desigualdades raciais e sociais no país.

Nesse sentido, uma reflexão necessária sobre os espaços de fronteiras em que muitas vezes acontecem as situações de conflitos com o ser humano que experiencia a migração, ora com o medo de estar em outra cidade ou país, surgem muitas perguntas sobre si mesmo. Esse é o momento  da descoberta do outro e da sua estrangeiridade antes mesmo de compreender a situação. Assim, esses conflitos diante de novos espaços podem possibilitar diversos desdobramentos, como um lugar que propõe liberdade relativa e possíveis transformações da realidade em contexto, tanto para quem migra quanto para a sociedade receptora.

 

Referências

AGIE, Michel. Migrações descentramentos e cosmopolitismo: uma antropologia das fronteiras. Tradução de Bruno César Cavalcanti, Maria Stela Torres B. Lameiras, Rachel Rocha de A. Barros; revisão técnica: Yann Homonic. Maceió/AL; São Paulo/SP: EDUFAL; Editora da Unesp, 2015. 320p.

DELFIM, Rodrigo Borges. Apresentação. Migra Mundo, 3 out. 2012. Disponível em: https://migramundo.com/hello-world/. Acesso em: 18 abr. 2022.

NASCIMENTO, Mariângela Moreira. Mobilidade Humana em Contexto de Mudanças. Cadernos de Gênero e Diversidade, v. 4, n. 4, p. 8-27, out./dez. 2018.  https://periodicos.ufba.br/index.php/cadgendiv/article/view/27650. Acesso em: 10 maio 2022.

SANTOS, Tatiane Silva Cerqueira. DE LÁ PRA CÁ: experiências diaspóricas de baianos e baianas na região da Grande Florianópolis-SC. 2020. 154f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) ­– Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Florianópolis, 2020.