14/08/2019

Casamento e maternidade ainda definem o que é ser uma mulher?

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12/08/2019 - Por: Eliane Gonçalves

 

Estamos no século XXI. A população das grandes cidades ou metrópoles chega, em alguns casos, a ser 80% superior àquela que vive no campo ou em áreas interioranas, rurais.

Somos, portanto, urbanos, com modos de vida heterogêneos, com pessoas diferentes e com trajetórias também diferentes umas das outras. Homens e mulheres aproximam-se em termos de oportunidades educacionais e de trabalho, pendendo aqui e acolá, mas expressam muitas desigualdades na esfera política e nas expectativas sociais dirigidas a cada qual.

O tempo passa e a história muda. Mas muda devagar em alguns aspectos. As gerações se sucedem, mas, sobretudo, coexistem. Embora a ficção esteja cada vez mais parecida com a realidade em termos de tecnologia e comportamento das pessoas na interação social, as normas que regem a conduta humana sofrem deslocamentos bem mais lentos.

Vamos falar de um desses aspectos: o estatuto das mulheres não casadas e não mães.
Mulheres em praticamente todos os lugares têm sido avaliadas em termos de status conjugal e pela maternidade. São duas condições autônomas, independentes. No entanto, são englobadas para pressionar por adequação às convenções sociais.

Casamento e procriação são certamente desejados para uma parcela da humanidade de ambos os sexos, mas para as mulheres significa uma opressão diferente. Desde crianças, a educação das meninas é regada com mensagens diretas e indiretas de amor romântico, sendo o casamento pensado e desejado como o seu coroamento, ou ápice ou realização.

Uma vez casadas, impõe-se a necessidade de ter filhos, e não tê-los é sinal de má conduta. Por volta dos 30 anos, vivendo dentro ou fora do matrimônio, sendo heterossexuais ou não, mulheres relatam uma recorrência irritante das perguntas sobre quando irão ter filhos.

Assim, mulheres não casadas e não mães, comumente chamadas “solteiras”, não encontram um lugar socialmente valorizado, amado ou digno de ser imitado. Pode até ser respeitado, mas as interpelações sobre sua “solidão” são igualmente recorrentes.

Como o cuidado e o “sentimento maternal” sintetizam a “natureza feminina”, às mulheres “sós” invariavelmente impõem a transferência desse amor não concretizado a outros entes que podem ser humanos e não humanos. Também o associam ao magistério – alunos no lugar de filhos. Essas transferências destituem o que as carreiras profissionais têm de singular para uma forma “maternalizada” o que socialmente se chama feminização e que traz, por sua vez, a desvalorização social imediata expressa em remunerações mais baixas e pouco prestígio.

Mudanças sociais e culturais levam tempo, já foi dito. Mas a mudança é a única constante que conhecemos, em que pese o caráter aparentemente paradoxal dessa afirmação. Para além das transformações que todos nós podemos ver e conferir em nossas próprias famílias e grupos de conhecidos – a experiência de morar só, de não se casar, de não ter filhos, de ter filhos fora do casamento, de namorar e até casar sem morar junto, de namorar e, mais recentemente, casar-se com outra mulher, de permanecer solteira para sempre, de viajar sozinha, de viver em
comunidades alternativas e assim por diante, sem ser, por essas escolhas, estigmatizada ou sofrer o banimento social –, há o impacto que o feminismo, enquanto ideário e forma de vida, exerceu em toda uma geração de mulheres e que não se esgotou.

O feminismo deitou raízes profundas e se reinventa a cada dia, fornecendo o solo para modos de vida dissidentes da norma ou das expectativas sociais tradicionais.
Tais escolhas não estavam dadas em outra época histórica. Sempre foi possível não casar, mas essa não era, geralmente, uma escolha voluntária. No século XIX, tanto nos países centrais quanto nas colônias, uma mulher que não se casasse tinha de permanecer casta, celibatária e escolher uma profissão ligada ao cuidado, em geral preceptora ou governanta. Quando era rica e culta, benemérita e caridosa. Se tivesse uma vocação literária podia escrever sob pseudônimo, e se fosse uma vocação política, ficar nos bastidores “fazendo” os homens da família. Nos dias de hoje, ela pode ser potencialmente, resguardadas as limitações e restrições materiais e simbólicas, o que ela quiser. Vão incomodá-la com questionamentos irritantes?

Sim. Cabe a ela protagonizar suas escolhas com maior ou menor rebeldia e sustentá-las com resiliência.

Eliane Gonçalves
Autora do livro Senhoritas do Século XXI: leituras e narrativas sobre
mulheres “sós”, publicado pela Editora Appris em 2019.


Eliane Gonçalves é Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp (2007); professora associada da Universidade Federal de Goiás, junto à Faculdade de Ciências Sociais. Participa do SER-TÃO – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia no biênio 2017-2019, foi também editora da área de Sociologia na revista Sociedade e Cultura (UFG) entre 2013-2017. Por duas vezes foi bolsista da Fundação MacArthur (EUA), uma delas como pesquisadora visitante no Harvard Center for Population and Development Studies da Harvard School of Public Health no ano acadêmico de 1998-1999. É cofundadora e colaboradora permanente da organização feminista Grupo Transas do Corpo (desde 1987), na qual desenvolveu projetos em interface com educação e saúde, tais como cursos de formação e criação de materiais didáticos. Antes de se dedicar à carreira acadêmica na universidade, atuou como especialista em Saúde Pública em programas governamentais voltados aos direitos sexuais e reprodutivos. Seu trabalho de pesquisa, ensino e extensão privilegia os seguintes temas: subjetivação e modos de vida; teoria social feminista e suas metodologias; gênero e conexões com outras categorias da diferença; sexualidades. É autora de vários artigos e capítulos de livros e organizadora (individualmente ou em coautoria) das seguintes coletâneas: Desigualdades de Gênero no Brasil, reflexões e experiências (2004); Iguais? Gênero, trabalho e lutas sociais (2014); Mulheres trabalhadoras: (In)visíveis? (2016).