27/06/2022

O paraíso de rejeitar uma única história no jornalismo

27/06/2022 - Luiza Gould autora de A “Arte de Sujar os Sapatos” com a Grande Reportagem Social

             As palavras carregam a potência da mensagem que transmitem: “Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso”. É assim, com essa escolha de palavras, que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie encerra sua participação no TED Talk de 2009, palestra com 31 milhões de visualizações no site da conferência. O perigo de uma única história, que também se torna livro (Companhia das Letras, 2019), traz um alerta a partir das vivências de uma contadora de histórias e reflete sua defesa pelo resgate do paraíso de entendermos que o ser humano se constitui por meio da complexidade e não de uma única característica, a encarcerá-lo.

             Chimamanda se dá conta dessa certeza inicialmente a partir da literatura, que é o fio condutor de sua fala em julho daquele ano. Enquanto menina, ela tinha uma única história sobre os livros: pensava que precisavam ser protagonizados por brancos de olhos azuis, no estilo dos romances britânicos e americanos que lia. Escritores africanos a ajudam a entender que meninas negras, de cabelos crespos, podem e devem fazer parte dos enredos. Também na infância, ela conviveu com a única história que encerrou o menino Fide na pobreza. Morador de uma aldeia vizinha, Fide passou a frequentar a casa da escritora acompanhado de sua mãe, que ajudava nos afazeres dali. E sobre aquela família, Chimamanda só ouviu falar acerca da fome. Até o dia em que viu o cesto de ráfia seca confeccionado pelo irmão de Fide.   

            As únicas histórias se sucedem... Conforme Chimamanda as pontua, fica explícito o quanto a literatura, mas também o jornalismo, ajuda a forjá-las. Ela menciona, por exemplo, a única história de desnutrição, AIDS e guerras “sem sentido” na África, tratada como país e não como continente. A única história a respeito dos africanos faz com que sua colega de quarto, numa universidade americana, tenha pena de Chimamanda, se surpreendendo ao saber que ela fala em inglês (um dos idiomas oficiais da Nigéria) e sabe utilizar um fogão.

             O trabalho de Alfredo Jaar ajuda a compreender como esse cenário pode ser instituído. Embora não seja jornalista, o artista chileno muito já se dedicou à análise crítica da mídia em suas obras, por se sentir afetado com o que vê. Ou melhor, com o que não vê ou vê como não deveria. Em Searching for Africa in Life (Procurando por África em Life), de 1996, Jaar reúne todas as 2.500 capas da revista Life ao longo das seis décadas de sua existência. O objetivo do artista ao expô-las cronologicamente, era avaliar, como sintetiza o título da obra, a presença da África naquele veículo, um símbolo da mídia ocidental. No mundo apresentado, porém, a África praticamente não existe. O chileno contabiliza cerca de cinco capas voltadas ao continente africano entre as mais de 2000. A ausência, já refletida por ele ao fazer o levantamento da Newsweek, soma-se à percepção de que, quando aparecem, as capas sobre África são relativas a animais, paisagens turísticas e ainda guerreiros “selvagens”. Quando não é o exótico, o africano é o sofredor, a criança cujos ossos, de tão aparentes, tem seu fim decretado. Em Time to time, de 2006, Jaar chegará nessas imagens, ao apresentar nove capas da revista Time dedicadas à África e divididas em três temas: animais, fome e doença. A mídia, portanto, constrói uma visão de mundo e estimula determinada interpretação acerca dele, podendo simplificar vidas e histórias.

            A própria Chimamanda expõe essa percepção ao refletir no TED sobre sua visão acerca dos mexicanos. Ao visitar a cidade de Guadalajara, ela se espanta ao ver pessoas trabalhando, rindo, fazendo compras no supermercado. Em seguida, sente vergonha por sua reação: “Eu percebi que havia estado tão imersa na cobertura da mídia sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma coisa em minha mente: o imigrante abjeto”. E prossegue, dando a dimensão do perigo dessa construção: “É assim, pois, que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão”. Refletindo acerca da realidade no Brasil, não raro o morador da favela se torna um número, encerrado na condição do traficante ou na de vítima do tráfico. “A consequência de uma única história é esta”, nos alerta Chimamanda, “ela rouba das pessoas sua dignidade”. Mas o que está por trás da história de violência recorrentemente estampada no jornal?

            A resposta, em parte, está nos chamados critérios de noticiabilidade. O jornalista precisa optar, não só pelo que publicar, mas precisa elencar o que merece destaque. Nessa série de escolhas, ele se baseia em determinados valores, como a proeminência, o caráter polêmico, a raridade, a surpresa. A combinação de valores leva a determinados fatores que influenciam na seleção. Em artigo pioneiro de 1965, Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge, identificam alguns desses fatores analisando como três crises internacionais são noticiadas em jornais noruegueses. Constatam, por exemplo, que quanto menor a posição ocupada por uma pessoa no estrato social, mais negativas suas ações terão que ser para que ela gere interesse e seja notícia. “Na posição mais baixa da sociedade, entra-se mais facilmente nas páginas de notícias como criminoso”, pontuam os autores.

            A existência de critérios que selecionam é necessária; não é possível contar todas as histórias. Mas a seleção não precisa ser fruto dessa lógica perversa. E nem a forma como a história é contada, afinal não basta ao jovem que tem ligação com o tráfico estar nos jornais, mas ser reduzido a um número, sem a devida contextualização acerca de um problema que é complexo e envolve muitos atores. Não basta ao africano estar na revista, mas ser o exótico ou aquele fadado à morte. Neste ponto, podemos dar um exemplo de quem conseguiu fazer diferente no jornalismo. Na reportagem O ponto de encontro da dor, publicada no jornal O Globo, em 2 de abril de 2017, Caio Barretto Briso reconstitui duas mortes ocorridas cerca de um ano antes. Em seu texto, aparecem lado a lado as trajetórias do jovem da favela ligado ao tráfico e do policial em operação, ambos atingidos por tiros na cabeça na única vez em que suas vidas se cruzaram. A narrativa é constituída em torno do sentimento da dor de duas mães diante da ausência. A apuração atenta, que percebe similaridades entre a história de Robson e a do policial André (os dois filhos de empregadas, nascidos na favela), atrelada a uma abordagem sensível advinda da linguagem, desfaz amarras, humaniza quem já é humano e mostra como na guerra ao tráfico tudo é muito mais complexo do que o lugar comum mocinho versus vilão.

             Muitas histórias fazem parte de quem se é, frisa Chimamanda, mas insistir somente nas histórias negativas é superficializar experiências, negligenciar as muitas outras histórias que forjam cada um. “A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história”, sinaliza a escritora.

             Essa discussão é ampliada e aprofundada no livro A “arte de sujar os sapatos” com a grande reportagem social, de minha autoria. Editada pela Appris, a obra mergulha no gênero jornalístico que, por excelência, é voltado à profundidade, ao maior tempo de contato entre jornalista e personagem, entre vidas complexas que se encontram. A partir da análise de cinco trabalhos vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, eu busco revelar como homens e mulheres comuns podem ganhar visibilidade por meio da reportagem, reconhecendo tanto o fracasso da narrativa que espetaculariza o marginalizado quanto o potencial do gênero para a denúncia social.