27/08/2019

Educação inclusiva? Depende de você!

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27/08/2019 - Por: Jannine da Cunha Gomes

 

Acredito que um longo caminho ainda devo percorrer para melhor eu entender e me familiarizar com este público tão vibrante que é a comunidade surda! Nós ouvintes, acredito que posso falar por todos, se assim me permitem, temos a honra de poder caminhar ao lado de pessoas que nos faz enxergar o mundo de uma maneira mais completa, onde tira de nossos olhos a “MONOTONIA DA VIDA!”.

Ao participar de um congresso estudantil na cidade de Castanhal-Pará, participei de uma oficina, na qual tive contato com a língua brasileira de sinais (Libras) pela primeira vez. A partir de então, foi amor à primeira vista, nasceu naquele instante a euforia de aprender mais sobre essa língua, tão linda, conhecer as pessoas que tem como língua materna a Libras, o desejo de me socializar com elas foi se tornando cada dia mais forte, mas algo me impedia de conhecer mais essa comunidade.

A vergonha! Sim, a vergonha, o medo de cometer gafe ao me comunicar com a comunidade surda porque, até então, não sabia nem o sinal de OI! Sim! Porque a sociedade não quer saber se você é aprendiz, ou apenas admirador de algo, ela quer que, independentemente de qualquer coisa, você deva ter domínio de tudo, sobretudo na comunicação em Libras. É muito fácil julgar as pessoas pelo que apenas é externa a ela. A sociedade, embora tanto tenha se desenvolvido, ainda desliza em alguns aspectos importantes, principalmente no quesito educação inclusiva!

Tenho a consciência de que ainda sou nova nessa área da educação e confesso ter pouca experiência profissional, mas posso falar do que vejo e o que tenho convivido no mundo da educação inclusiva, para surdos, cegos, autistas, entre outros. Sim, talvez possam estar se perguntando:

- Nossa, por que ela não usa os termos técnicos para descrever os tipos de pessoas que devem ter atendimento especial? Respondo: o mundo da educação vai muito além de termos técnicos, ela precisa de dedicação, investimentos financeiros, profissionais que não se conformam apenas com a graduação, mas que buscam se especializar cada vez mais, não se contentam com o básico de aprendizado de seus alunos, porque sabem que o básico não é suficiente para um mundo de concorrências e disputas onde só ganham os melhores.

Professores, por favor, não se limitem apenas ao que forem oferecidos a vocês para o ensinamento de seus alunos. Usem as tecnologias a seu favor, conheçam seus alunos, saibam de suas dificuldades, associe o conhecimento prévio de seus alunos com o que lhe deve ser pautado em sala de aula.

Talvez se questionem: o salário que ganho ou que, às vezes, nem recebo não é suficiente para isso, pedagoga Jannine! Entendo, porém, quero que saiba que o futuro educacional de seus alunos depende exclusivamente de você caro(a) colega. Entenda que a sala de aula é sua, você conhece seus alunos, aperfeiçoe-se, busque, crie, use a sua imaginação para melhor aprendizado de seus alunos. Sei que ter um salário digno, sermos mais bem reconhecidos seria EXCEPCIONAL, mas convenhamos, quando entramos nessa área já sabíamos que não seriamos REIS e nem RAINHAS na sociedade, embora deveríamos assim também ser nomeados. Saiba que, independentemente de um ótimo salário, um reconhecimento nobre seria ideal, mas ver um aluno seu chegar ao pódio de alguma profissão, graduação, é um salário que não tem quem pague! É lindo, emocionante, recompensador.

A maioria das vezes, talvez pelo cansaço, pela falta de reconhecimento, jogamos os erros, as falhas da educação, em outras secretarias de governo; lógico que a educação deve-se trabalhar em conjunto com os órgãos da União, Distrito Federal, estados e municípios, para que possa ser oferecida da melhor qualidade possível.

Quando se aborda a escolarização do aluno surdo, o olhar sobre a historiografia da educação, a fim de compreender as especificidades para a inclusão com qualidade na contemporaneidade, bem como as questões que ainda desafiam e causam barreiras a esse processo. (BASTOS In: GOMES, 2019, s/p).

Esse é um trecho do prefácio do meu livro Educação inclusiva: quem se responsabiliza?, no qual a professora doutora em Educação Ghislaine Bastos cita sobre a importância de termos um olhar diferenciado para esse campo da educação. Todos os dias passamos por desafios que não devem nos desanimar da carreira que decidimos seguir, e sim embarcar em uma aventura, na qual as novidades nunca acabam de existir, sempre terá algo novo para escalarmos.

Estar hoje no campo da educação inclusiva é entender que iremos sempre estar no campo também das pesquisas, avançando sempre em prol da beneficência de nossos alunos, enquanto amantes de nossa profissão.

Como dizem por aí, “tudo que é novo assusta”, e assusta mesmo! Porém como profissionais de educação, as capacitações e qualificações devem sempre estar em ativa, pois, assim como os médicos necessitam se aperfeiçoar para que um paciente não morra em suas mãos por um assunto desconhecido por ele, por falta de capacitações e estudos diários, um educador também necessita a cada dia de aperfeiçoamento, não tendo medo do NOVO, mas fazendo do NOVO um estimulo profissional, para que o futuro de apenas um aluno não esteja perdido em suas mãos.

Ao citar isso, lembro-me de quando cursei a sétima série do ensino fundamental, certo professor da disciplina de Geografia solicitou à turma que fizesse uma redação de, no mínimo, trinta linhas sobre o tema “Os prejuízos causados a nosso planeta pela poluição”. Recordo-me com clareza do tema, pois foi nos dada a orientação de que não podíamos fazer nenhuma compilação de livros ou de materiais disponíveis na internet, se não ficaríamos de recuperação! Eu gostei de a avaliação ter sido essa, pois há dois dias a aula desse professor era sobre o tema da redação, então pensei: isso vai ser divertido! O prazo foi de uma semana, passei a semana lendo livros, revistas que abordavam o tema, para que eu pudesse ter ideias para a produção do texto.

Finalizei o texto, ufa! O alívio por ter cumprido as ordens do professor. Ele corrigiu, chamou-me a sua mesa e disse que eu estava de recuperação! E perguntei:

- Por quê? O que há de errado com o meu texto? Pois eu fiz o meu melhor!
Ele respondeu:

- O seu texto é uma verdadeira compilação, você não tem capacidade de escrever um texto desse, menina!

Paro por aqui essa história. Em resumo, digo a vocês, caros colegas de profissão, nunca subestime a capacidade de uma pessoa, ainda mais de um aluno, não se precipite em julgá-los, pois uma simples palavra pode fazer com que eles nunca mais adentrem aos portões de uma escola. Não olhemos com diferença para nenhum aluno, independentemente de suas faculdades intelectuais, de suas dificuldades de aprendizagem, pois, afinal, estamos nessa guerra para ganhar.

Retiro um parágrafo do meu livro que diz:

[...] à inclusão e permanência do aluno surdo no sistema educacional devem propiciar igualdade de oportunidades e um sistema de ensino de qualidade. Quando se pensa em educação de surdos, surgem vários questionamentos e coloca-se em dúvida se essa experiência é inclusiva ou se é mais uma vivencia que, mascaradamente, associa-se com a exclusão. (RECHICO; MAROSTECA, 2002, p. 61 apud GOMES, 2019).

A frase “não consigo” não deve permanecer ou existir em nossa profissão. Como referência, apresento o livro Educação inclusiva: quem se responsabiliza?, o qual lança um desafio a todos os profissionais atuantes no campo da educação e aos que se preparam para se engajar nessa aventura de educar.


Prof.ª Jannine da Cunha Gomes é casada com Ueliton de Sousa, também atuante no campo da educação como professor de História, reside em Tucuruí-PA. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus de Tucuruí. Intérprete em Libras pela Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação (Fatece). É pós-graduanda em Educação infantil, neurociência e aprendizagem.