02/09/2019

Elitista, racista e heterossexista: o mito da democracia esportiva

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02/09/2019 - Por: Sara Coelho

 

Torcedores, antes vestidos de impunidade, acompanharam chocados a interrupção do duelo entre Vasco e São Paulo, no domingo, dia 25/08, após a entoação de cânticos homofóbicos partidos da arquibancada. Sendo o futebol o maior símbolo de afirmação de masculinidade e heterossexualidade entre os brasileiros, a massa torcedora brasileira – seja por pressão internacional, seja pela própria miscigenação da torcida, viu-se obrigada a rever seu modo de torcer e habitar suas arenas.

Casos de homofobia, racismo, sexismo, assédio e violência, antes naturalizados nos estádios, hoje ganham destaque nas mídias, punição institucionalizada e, até, implicações legais. “Amor não é problema”, posicionou-se o São Paulo em suas redes sociais. “O sentimento nos une”, foi o lema do Grêmio em suas ações publicitárias no Dia Mundial contra a LGBTfobia. Temos, enfim, um posicionamento democrático, apesar de tardio, das instituições esportivas.

Entre os, não raros, casos de discriminação e seus desdobramentos, vemos diversas estratégias de enfrentamento, antes impensáveis no contexto esportivo, sendo utilizadas pelos envolvidos em episódios que ganham destaque midiático. Em resposta a um vídeo publicado pelo jogador do Vasco, Fellipe Bastos, no qual ele repetia cantos homofóbicos, vindos da torcida, o time lançou a hashtag #TIMEDETODOS. “Uma vitória acompanhada de homofobia é uma derrota”, frisou o grupo, em nota oficial. O jogador, dizendo estar sendo ameaçado, junto a seus filhos e esposa, pediu desculpas públicas por meio de seu perfil em uma rede social.
Ilustrando, além do racismo, o assédio e machismo – também típicos do futebol – durante a Copa do Mundo na Rússia, em 2018, foram muitos os episódios de assédio contra mulher que foram difundidos na mídia. Entre eles, diversos casos foram protagonizados por torcedores estrangeiros. A repórter Julia Guimarães, do grupo Globo, foi alvo de duas tentativas de beijo forçado durante o torneio, por torcedores russos. Utilizando do desconhecimento do idioma, um torcedor argentino fez com que uma torcedora repetisse que teria interesse em praticar sexo oral com os torcedores argentinos. Por assediar uma japonesa, um torcedor colombiano foi banido dos estádios durante o torneio. A Fifa contabilizou 45 casos de assédio e violência contra mulher durante a Copa, sendo 15 deles contra jornalistas que estavam trabalhando na cobertura do evento.

Entre novos, porém significativos, posicionamentos e punições por parte das instituições desportivas contra os torcedores e jogadores envolvidos nesses casos, campanhas, como a hashtag #deixaelatrabalhar, criada por um grupo 50 jornalistas brasileiras, denunciam o quanto a prática é comum em diversos eventos esportivos. A campanha, que virou causa social, foi apoiada pública e mundialmente por diversas organizações, entre elas o canal Fox Sports, que categorizou os casos como “crimes de importunação sexual”, em nota oficial emitida.

Enquanto grupo da sociedade que preza pelos direitos humanos, reprodutivos e sociais de todos os indivíduos, esperamos que, apesar de termos um presidente que se declara “politicamente incorreto”, a instauração da democracia racial, sexual, de classe e gênero seja uma das prioridades de todos os personagens do esporte.

O estudo etnográfico, qualitativo e jornalístico, sob a perspectiva pedagógica, feminista e pós-estruturalista, sobre a elitização, o racismo e o heterossexismo presentes no futebol foi explorado e publicado no livro Uma história do torcer no presente: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol, do autor Gustavo Andrada Bandeira (Editora Appris, 2019).