30/10/2019

Fundações da tradição insubmissa do pensamento brasileiro republicano

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30/10/2019 - Por: Ricardo Ramos Shiota

 

Antônio Carlos Jobim, num arroubo de vaidade, disse que “O Brasil não é para principiantes”. Esse enunciado ambíguo remete tanto ao elitismo dos “intérpretes do Brasil”, tarefa restrita aos especialistas que, muitas vezes, se contentaram em narrar grandes personagens ou se restringiram a fazer apologia das camadas dominantes da sociedade, na condição de ilustres porta-vozes, quanto a dificuldade de compreender um país que, na feliz expressão de Werneck Vianna , nasceu do cruzamento do jacaré com a cobra d’água, da colonização com a escravidão.

Há uma tradição rebelde no pensamento sociológico e político brasileiro, sem dúvida. Ao lado de autores que ufanaram as riquezas do Brasil, fizeram apologia da saga dos grandes homens que mantiveram a unidade territorial, enalteceram as supostas deficiências geográficas ou raciais de nosso povo, defenderam a vocação agrícola da economia e cristã da cultura, contemplaram a Casa Grande como o embrião de uma sociedade singular, mestiça, em que cada um precisa saber o seu devido lugar, há um pensamento brasileiro insubmisso.

Ao longo da história republicana, esse pensamento adquire força em consonância com a emergência do povo na história, com as batalhas enfrentadas pelas classes populares em torno de reconhecimento e de direitos, que hoje estão sendo perdidos na avalanche do tempo histórico do capital e da contrarrevolução. Em cada momento da história republicana, esse pensamento esteve preocupado com as questões essenciais para a construção de uma nação soberana, igualitária e democrática; esteve vinculado com as lutas pela emancipação do povo brasileiro de tenazes grilhões que se atualizam em consonância com o avanço da história. Livros como Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), A América Latina, de Manuel Bonfim (1868-1932), A organização nacional de Alberto Torres (1865-1917), estão no limiar da República e foram capazes de vaticinar problemas e tendencias que continuam a fazer história.

Na década de 1930, um novo Brasil teimava em nascer das greves operárias, das rebeliões tenentistas, da Coluna Miguel Costa-Prestes, da Revolução de 1930. Todavia, algumas forças políticas que tiveram monopólio do mando na sociedade monárquica e escravista mantiveram-se livres, sem ter os fundamentos econômicos e políticos de seu poder questionado. O latifúndio monocultor e exportador de commodities, uma burguesia mercantil e, incipientemente, industrial ávida por lucros fáceis, assim como as finanças internacionais, conservaram seus interesses e comandaram o processo de mudança social em direção a um capitalismo nacional tentado por Vargas.

Entre 1930 e 1964, as opções históricas gravitavam em torno de um trilema: subcapitalismo, capitalismo nacional ou socialismo. Nessa equação o Estado é o ator fundamental, porém não neutro, mas raptado pelos interesses das classes sociais, sobressaindo-se aquelas forças. Nessas décadas o povo adquire mais representatividade nas produções intelectuais sobre o país. Mario de Andrade (1893-1945) e Oswald de Andrade (1890-1954) dão o testemunho da diversidade desse povo e da utopia popular em torno da maior de todas as revoluções, a ser realizada nessas plagas: “Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem” .

A linhagem dos insubmissos é extensa, continuando a me limitar ao domínio dos grandes intérpretes, destaco alguns livros importantes. Que imagem teríamos hoje do Brasil sem o artesanato intelectual desses autores e de suas obras? Certamente não nos conheceríamos como povo e como nação, quais são nossos problemas e quais as melhores terapias para tratá-los, de modo a evitarmos tampar o câncer com Band-aid.

Todo um trabalho fundante foi iniciado por Caio Prado Júnior (1907-1990) e, contraditoriamente, as considerações dele sobre a industrialização ganham atualidade hoje, quando a indústria vem deixando de ter importância e a economia se reprimariza refém do rentismo. É preciso ler Formação do Brasil contemporâneo para entender o significado de uma demanda política premente: a descolonização. Muito menosprezado por certa historiografia, mas não menos importante, Nelson Werneck Sodré (1911-1999), entre diversos livros, deixou o monumental Formação da sociedade brasileira. São livros que não se fazem mais hoje em dia: a época é outra, mas todos mantêm a exemplaridade, os registros de uma época, a preocupação com a totalidade, com o lugar do Brasil no planeta terra, com o capitalismo que aqui se desenvolve.

Nessa perspectiva, Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982) tece um diálogo do pensamento brasileiro com a tradição socialista em Mito e Verdade da Revolução Brasileira, com invulgar conhecimento. Álvaro Vieira Pinto (1909-1987) em Consciência e realidade nacional mostra-nos o modo pelo qual a consciência ingênua move as engrenagens da contrarrevolução permanente. Celso Furtado (1920-2004) em seu livro A pré-revolução brasileira defende a necessidade de o Estado internalizar os centros de decisão, para não depender das flutuações do mercado internacional, para industrializar o país e romper com a economia pautada em produtos primários. Acreditava ser possível construir um Brasil onde as pessoas não passassem fome, assim como Josué de Castro (1908-1973) em seu importante livro Geografia da Fome.

Na mesma linhagem, Pessoa de Morais (1925-2004) em Sociologia da revolução brasileira faz um amplo diagnóstico de época, mostrando o modo pelo qual os elementos burgues e patriarcal se fundem no Brasil, apesar do despertar coletivo daquela época. Sem fazer justiça a essa tradição insubmissa, mais ampla do que esses autores elencados na condição de fundadores, não podemos esquecer de A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes (1920-1995). Livro belíssimo que não se restringe a estudar o negro, mas mostra o drama humano subjacente ao desenvolvimento capitalista e qual o lugar reservado pela sociedade brasileira para a maioria da população.

O Brasil é sim para os principiantes, sobretudo, aqueles e aquelas interessados em transformá-lo de modo irreversível, no horizonte de valores como emancipação, igualdade, soberania nacional, democracia substantiva, menos verticalidade e mais horizontalidade na trama das interações e relações sociais nos espaços públicos e privados. Os interessados e as interessadas nas questões brasileiras têm a seu dispor um vasto patrimônio intelectual, um legado importantíssimo a ser apropriado, a servir de inspiração para conhecer com vistas a transformar o país, livrá-lo do círculo de ferro da dependência e do subdesenvolvimento. Tentei me apropriar dessa tradição insubmissa do pensamento brasileiro em meu livro Brasil: terra da contrarrevolução, nele você poderá aprofundar um pouco mais esse assunto.

  1. Bolsista Capes PNPD pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Doutor em Sociologia pela Unicamp.
  2. SANTOS, Boaventura de Sousa; BRANDAO, Gildo Marçal; VIANNA, Luiz Jorge Werneck. Por que pensar?. Lua Nova, São Paulo, n. 54, p. 11-42, 2001.
  3. ANDRADE, Oswald. Manifesto antropófago, 1928.

Ricardo Ramos Shiota é bolsista da Capes de pós-doutorado em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro. Doutor em Sociologia pela Unicamp. Mestre, bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Unesp/FFC.