09/01/2020

Indisciplina, por quê?

Tags: BLOG

09/01/2020 - Por: Zelia Maria Freitas dos Santos

Introdução

Ao longo da história da educação, a indisciplina tem crescido no espaço da sala de aula e essa é uma inquietação que muito tem preocupado aqueles que lidam com educação. Pois esta tem se mostrado presente desde os primeiros anos da educação básica até ao seu término. Essa realidade ocorre tanto nas redes pública como privada.

Neste texto levantamos algumas causas que provocam esse comportamento indesejado e que consequentemente prejudica a aprendizagem dos estudantes.

Além de levantarmos causas geradoras dessa indisciplina por parte de  estudantes, trazemos uma metodologia que muito contribuirá para minimizá-la. Trata-se da metodologia da pedagogia de projeto.

Todos os registros aqui descritos fazem parte de uma pesquisa de campo realizada em turmas de primeiro e segundo ano do ensino médio em escolas públicas. Assim, esperamos contribuir de forma significativa para aqueles que lidam diretamente com esse público e enfrentam essas dificuldades em seus espaços escolares.

A relação entre indisciplina prática docente e pedagogia de projeto

Ao falamos de indisciplina, não estamos aqui nos referindo ao barulho normal de uma sala de aula, onde professores e estudantes estão interagindo e por isso o silêncio é impossível. Mas nos referimos à falta de respeito que ocorre um como o outro, é o não interesse do estudante pela matéria que lhe está sendo apresentada e, consequentemente, a sua não participação nas atividades planejadas pelo professor.

Rego[1], ao reportar a indisciplina, afirma que é uma manifestação de rebeldia, intransigência por parte de alguém ou grupo, sendo esse um comportamento de falta de educação. A esse respeito entendemos também como indisciplina o não cumprimento de regras sociais pré-estabelecidas.

Sendo assim, para que uma instituição escolar exija por parte de seus educandos um bom comportamento disciplinar, ela precisa deixar claras as regras. Entretanto, estas não devem ser simplesmente ditadas por aqueles que administram uma instituição, mas que sejam construídas no coletivo daqueles que irão a elas se submeter, ao contrário, poderão se tornar algo sem valor e não serem aplicadas por todos os que formam a comunidade escolar.

Sobre essa realidade, narramos no livro Prática Docente + Pedagogia – Indisciplina episódios que vivenciamos a esse respeito no campo de pesquisa.

Outro fator gritante de indisciplina trata-se da metodologia trabalhada em sala de aula. Caso ela não seja trabalhada de forma participativa, em que estudante e professores estejam juntos engajados no mesmo processo, a indisciplina, mesmo que não seja apresentada de forma desrespeitosa, pode aparecer como desinteresse por aquele conteúdo que está sendo trabalho. Então, é relevante o professor buscar caminhos que contribua para que seus objetivos sejam alcançados.

Aquino[2] faz a seguinte afirmação a este respeito:

É certo que o professor também tem que reaprender seu ofício e reinventar seu campo de conhecimento a cada encontro. Deste modo, é provável que as questões de cunho técnico-metodológico acabam perdendo sua força ou eficácia, uma vez que elas pressupõem como interlocutor sempre o mesmo sujeito abstrato e, portanto, ausente. O aluno concreto (aquele do dia-a-dia), de forma oposta, obriga-nos a sondar novas estratégias, experimentações de diferentes ordens. 

Mediante o exposto, entendemos ser relevante o professor buscar constantemente novos saberes, a fim de que sua prática docente favoreça o interesse do estudante e consequentemente a sua aprendizagem.

Ao falarmos de prática docente, precisamos entendê-la como algo peculiar de cada educador. É a forma como este propicia ao seu aluno a construção do saber. E esta se modifica ao longo da sua experiência em sala de aula e dos seus conhecimentos pedagógicos, que são ampliados por meio de leituras e formações continuadas e, até mesmo, na troca de conhecimentos com outros educadores, além da sua vivência no cotidiano escolar.

Trata-se de uma ação-reflexão-ação, como afirma Freire[3]:

Mas, se os homens são seres do que fazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo. E, na razão mesma em que o que fazer é práxis, todo fazer do que fazer tem de ter uma teoria que necessariamente o ilumina. O que fazer é teoria e prática. É reflexão e ação.

Então, nessa ida e vinda, digo, ação-reflexão-ação, o professor vai reconstruindo sua prática docente visando à melhor qualidade de ensino. E é a partir dessa visão que novas metodologias têm sido aplicadas ao longo da história da educação com o intuito de contribuir de forma satisfatória para a aprendizagem dos estudantes.

Entre as metodologias que têm sido aplicadas por educadores destacamos a pedagogia de projeto, por entendê-la como uma forma metodológica em que o professor é deslocado do centro do conhecimento, o detentor do saber para colocar o estudante como ser protagonista da construção da sua aprendizagem.

Entendemos ainda que a Pedagogia de projeto é um método de ensino no qual se projeta uma aprendizagem, e que, para sua eficácia, há uma ação conjunta entre docente e discente visando à construção de novos saberes.

Enfatizamos que é uma ação conjunta entre docente e discente, ou seja, não é algo aplicado apenas pelo desejo do educador, mas para que os resultados sejam satisfatórios há a necessidade da imbricação dos sujeitos envolvidos. Do contrário, o educando entenderá apenas como mais uma tarefa a ser cumprida, e não como algo que ele vai construindo ao longo do processo novos conhecimentos.

Conclusão

Ao aplicarmos na prática docente a metodologia de projeto, precisamos ter a consciência que esse é um método em que o estudante é sujeito ativo em sua construção, ao contrário, ele mostrará desinteressando, sendo essa uma forma de indisciplina. A esse respeito, detalhamos exemplo das experiências vidas durante os momentos de pesquisa e que o leitor pode ter acesso por meio da obra de nossa autoria Prática Docente + Pedagogia – Indisciplina. Além disso, neste livro discorremos os conceitos de indisciplina, prática docente e pedagogia de projeto a luz de vários autores e a nossa interpretação a esse respeito.

Como essa pesquisa foi feita em turmas do ensino médio, fazemos um histórico das mudanças ocorridas nessa última etapa da educação básica até a mudança da Lei de Diretrizes e Base (LDB) 9.3.94/96 com a publicação da Lei 13.415 de 2017.

E como essa obra é prioritariamente destinada a educadores, construímos um capítulo o qual narra o passo das etapas de construção de um projeto pedagógico.

Referências

 AQUINO, Júlio Groppa. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. 15. ed. São Paulo: Summus, s. v. 1996b.

REGO, Teresa Cristina R.  A indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva vygostskiana. In: AQUINO, Júlio Groppa (org.) Indisciplina na Escola: alternativas teóricas e práticas. 15. ed. São Paulo: Summus, s. v. 1996b.

RÊGO, Maria Carmem Freire Diógenes. A formação docente no fazer e refazer da prática pedagógica. 2006. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2006. Disponível em: http://ftp.ufrn.br/pub/biblioteca/ext/bdtd/MariaCFDR.pdf. Acesso em: 31 jan. 2014.

[1] REGO, Teresa Cristina R. A Indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva  Vygostskiana. In: AGUINO, Julio Groppa (org.). Indisciplina na Escola: alternativas teóricas e páticas.15. ed. São Paulo: Summus, 1996b.

[2] AGUINO, Julio Groppa (org.). Indisciplina na Escola: alternativas teóricas e práticas. 15. ed. São Paulo: Summus, 1996b p. 54.

[3]  FREIRE, 1987 apud RÊGO, 2006, p. 105.

Para saber mais:

Adquira o livro "Prática Docente + Pedagogia - Indisciplina" da autora Zelia Maria Freitas dos Santos.

 


Zelia Maria Freitas dos Santos é doutora em Ciências da Educação pela Universidad de La Integración de las Américas–Unida, mestre em Ciência da Educação pela Universidade Americana, ambas em Assunção – Paraguai. Especialista em História do Nordeste pela Fundação de Ensino Superior de Olinda – Funeso, graduada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia do Recife – Fafire, professora da educação básica da Prefeitura Municipal do Cabo de Santo Agostinho, onde teve a oportunidade de contribuir com a educação exercendo as funções de gestora de escola, coordenadora da área de Ciências Humanas, coordenadora dos Coordenadores de Área de Conhecimento, gerente de Ensino e assessora especial da Secretaria Municipal de Educação. É professora da Secretaria de Educação Estadual de Pernambuco, na qual desenvolveu suas funções como professora de História na educação básica em escolas da rede estadual de ensino, e como técnica pedagógica tem contribuído ministrando formação para professores da área de Ciências Humanas. Ainda nessa Secretaria de Educação exerceu a função de chefe da Unidade da Educação do Campo. Desempenha suas funções profissionais no Conselho Estadual de Educação atuando na Câmara de Ensino Superior.