17/02/2020

Histórias de um Casamento: afetações para conversar

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04/02/2020 - Por: Rosana Rapizo

Em 2005 assisti ao filme de Noah Baumbach, A Lula e a Baleia. Um dos filmes mais sensíveis que conheci sobre a separação em uma família. Já trabalhava há quase uma década com grupos de pais, mães e filhos que passavam pelo divórcio em suas famílias e o que me tocou profundamente no filme foi a força do que é estranhamente comum. A história de um divórcio na família, que soube depois ser uma narrativa autobiográfica do diretor, tocou-me tanto porque todos, filhos, pais, eram (somos) tão comuns; a separação era um drama cotidiano. Com isso não quero dizer que não era dolorosa, que não feria fundo, não deixava pedra sobre pedra. Mas, sim, quero dizer que aquela narrativa não era uma épica do divórcio, mas algo mais próximo dos dilemas e consequências de decisões pelas quais passamos em uma família. Era nesse ponto que eu fazia meu trabalho na época. Focando o cotidiano do divórcio que emerge a cada decisão, a cada dor, a cada vez que na nova casa não sei onde fica o interruptor ou tenho que encontrar o(a) novo(a) namorad@ da minha/meu mãe/pai.

O primeiro filme foca especialmente nos filhos, do ponto de vista deles. Outra abertura incrível que o diretor traz ao espectador. Os meninos têm sua dor e perplexidade expostas e, do meu ponto de vista, diferente do que a Wikipedia diz sobre o filme, que “quando os pais desistem de seu casamento, Walt e Frank ficam deixados à própria sorte”, eu, ainda que profundamente tocada pela dor dos filhos, conseguia ver e lembrar de tantas pessoas que conheci, inclusive eu mesma, que não deram conta em muitos momentos de lidar com todas os desdobramentos pós-decisão de uma separação e sobrou dor e dificuldade para todo lado. Equívocos gigantes, dores além da conta de gente tentando acertar na mira da tal felicidade. E Baumbach faz isso com uma delicadeza que me deixou tonta. Desde então, carrego esse filme em milhares de aulas e conversas sobre o tema.

Dois queridos amigos, simultaneamente, provocaram-me perguntando se eu já havia visto o mais novo filme do diretor. Uma pergunta dessas não se deixa passar e lá fui eu em plena noite de sábado ver o filme Histórias de um Casamento (Marriage Story). Mais uma vez encontramos um casal comum, daqueles que vemos e somos em muitos de nossos dias. Tentando construir um casamento, criar um filho, ser alguém em sua carreira, lidar com as dores e delícias de sua história. E, quando decidem que a separação é o caminho, inicialmente imaginam e desejam, mais do que tudo, continuar o tom da conversa entre eles, que apesar da separação, tem amor, tem respeito por uma história e por aquele outro. Mas... não é assim que a banda toca. E, não estou falando dos caminhos das emoções que percorremos em uma separação ou em qualquer relação. Nelas, vamos às vezes do amor ao ódio em segundos. Queremos o que perdemos e não encontramos mais e gritamos de dor. São só pessoas tentando ser felizes e lidar com os ressentimentos, perdas e ganhos de um relacionamento, cuidar de um filho, encontrar caminhos mais possíveis para um futuro. De novo, Braumbach me trouxe neste filme cenas de delicadeza ímpar. Belas e doloridas. E, mais uma vez, o diretor citando a Lula e a Baleia repete um dos seus símbolos do divórcio com a sempre presente discussão sobre de quem é a noite com o filho. No entanto, o que traz esse filme de diferente para mim são os, teoricamente, coadjuvantes desse drama: os advogados.

Inicialmente achei meio caricatos, mas aos poucos foram me lembrando de tantas histórias que acompanhei em que pessoas iam se perdendo e delas mesmas e quando se davam conta estavam brigando ferozmente em uma corte sem ter jamais sentado para uma conversa. Quando em uma cultura se entende o divórcio como primariamente adversarial, a separação como briga, e a briga tendo como resultado vencedores e vencidos, perde-se a possibilidade de conexão que ainda possa existir entre as pessoas que estão tentando criar novas formas de vida.

Separar-se em um casamento com filhos não quer dizer romper, sumir, acabar, liquidar, mas tentar seguir de formas diferentes e preservar algo do que uniu em algum momento este casal. Os advogados do filme, no meu entender, são símbolos. Falam de uma construção de nossa forma de vida que entende separações como litígios. E isso inclui o próprio casal. São discursos que todos compartilhamos sem mesmo nos darmos conta. Para podermos seguir adiante precisamos aniquilar a história anterior e seus personagens. Em vários momentos do filme o casal se conecta com o afeto, e sobre isso há cenas tocantes. Mas, sem saber como continuar tropeçando em dilemas e emoções que transbordam, encontram o que socialmente está mais à mão.

E, por último, não dá para deixar de fora a personagem totalmente desprovida de alma da mulher que vai “avaliar” a relação dos pais com o filho. Por isso considerei que o exagero, quase caricatura desses personagens não é em vão, aponta para uma cultura que não permite que possamos conversar e discordar, querer mudar e continuar conversando. Não sabemos como nos manter juntos em algumas conexões vitais em nossas vidas ao mesmo tempo que nos desconectamos de outras às vezes com as mesmas pessoas. Como discuto em meu livro recém-lançado, não temos espaços para conversar sobre dilemas, dores e dúvidas sobre as separações e divórcios. Só temos como recursos a Justiça e as terapias que muitas vezes são adversariais ou usam de uma lógica que patologiza a dor e transforma o sofrimento em algo que não faz parte do humanamente comum. Mais uma vez perdendo conexões amorosas ou ao menos colaborativa entre pessoas que estão verdadeiramente tentando encontrar caminhos que acreditam ser melhores para si e para outros que lhe são caros.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Entre Laços e Nós: Conversando sobre Divórcio.

 


Rosana Rapizo é Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; graduada em Psicologia pela mesma universidade; especialista em Terapia de Família pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade do Rio de Janeiro; professora adjunta do Departamento de Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; e coordenadora do Setor de Terapia de Família da Unidade Docente de Psiquiatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Trabalhou por mais de 30 anos com a formação de terapeutas de família e facilitadores de grupos em instituições como o Instituto de Terapia de Família do Rio de Janeiro e Instituto Noos; membro associado do Taos Institute e professora convidada do curso de Práticas Colaborativas, organizado pelo Interfaci – São Paulo, em parceria com o Taos Institute, Ohio, e Houston Galveston Institute. Autora dos livros Terapia sistêmica de família: da instrução à construção (Noos, 2002) e Entre laços e nós: conversando sobre o divórcio (Appris, 2019) e de inúmeros artigos em revistas e livros no campo da terapia de família, facilitação de grupos, formação de profissionais e construcionismo social; suas pesquisas atuais situam-se nos campos das famílias contemporâneas, do divórcio e das novas conjugalidades, da terapia de família, do trabalho com grupos e comunidades, do construcionismo social e das práticas discursivas.